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Boécio de Roma

jul 26, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Quero falar hoje de (…) Boécio (…), que [viveu] em uma das épocas mais atribuladas do Ocidente cristão, em particular na península italiana. Odoacro, rei dos hérulos, uma etnia germânica, havia se rebelado, acabando com o império romano do Ocidente (ano 476), mas logo sucumbiu aos ostrogodos de Teodorico, que durante algumas décadas controlaram a península italiana.

Boécio, nascido em Roma por volta do ano 480, da nobre estirpe dos Anícios, entrou sendo ainda jovem na vida pública, alcançando aos 25 anos o cargo de senador. Fiel à tradição de sua família, ele se comprometeu na política, certo de que era possível harmonizar as linhas fundamentais da sociedade romana com os valores dos novos povos. E neste novo tempo de encontro de culturas, considerou como missão própria reconciliar e unir estas duas culturas, a clássica e romana, com o nascente do povo ostrogodo. Deste modo, foi muito ativo na política, inclusive sob Teodorico, que nos primeiros tempos o estimava muito.

Apesar desta atividade pública, Boécio não descuidou dos estudos, dedicando-se em particular a aprofundar nos temas do tipo filosófico-religioso. Mas escreveu também manuais de aritmética, de geometria, de música, de astronomia: tudo com a intenção de transmitir às novas gerações, aos novos tempos, a grande cultura greco-romana. Neste âmbito, ou seja, no compromisso por promover o encontro das culturas, utilizou as categorias da filosofia grega para propor a fé cristã, buscando uma síntese entre o patrimônio helênico-romano e a mensagem evangélica. Precisamente por este motivo, Boécio foi qualificado como o último representante da cultura romana antiga e o primeiro dos intelectuais medievais.

Certamente, sua obra mais conhecida é o «De consolatione philosophiae», que compôs na prisão para dar sentido à sua injusta detenção. Havia sido acusado de complô contra o rei Teodorico por ter defendido um amigo em um juízo, o senador Albino. Mas não se tratava de um pretexto: na verdade, Teodorico, ariano e bárbaro, acreditava que Boécio era simpático ao imperador bizantino Justiniano. Processado e condenado à morte, foi executado em 23 de outubro do ano 524, quando tinha apenas 44 anos.

Por causa de sua dramática morte, ele pode falar também a partir de sua experiência ao homem contemporâneo e sobretudo às numerosas pessoas que sofrem o mesmo por causa da injustiça presente em boa parte da «justiça humana». Nesta obra, na prisão, busca consolo, busca luz, busca sabedoria. E diz que soube distinguir, precisamente nesta situação, entre os bens aparentes – na prisão estes desaparecem – e entre os bens verdadeiros, como a autêntica amizade, que na prisão não desaparecem.

O bem mais elevado é Deus: Boécio aprendeu – e nos ensina – a não cair no fatalismo, que apaga a esperança. Ele nos ensina que não somos governados pelo destino, mas pela Providência, e esta tem um rosto. Com a Providência se pode falar, porque a Providência é Deus. Deste modo, inclusive na prisão, resta-lhe a possibilidade da oração, do diálogo com Aquele que nos salva. Ao mesmo tempo, inclusive nesta situação, ele conserva o sentido da beleza da cultura e recorda o ensinamento dos grandes filósofos antigos, gregos e romanos, como Platão, Aristóteles – havia começado a traduzir estes gregos ao latim –, Cícero, Sêneca, e também poetas como Tíbulo e Virgílio.

A filosofia, no sentido da busca da verdadeira sabedoria, é, segundo Boécio, o verdadeiro remédio da alma (Livro I). Por outro lado, o homem só pode experimentar a autêntica felicidade na própria interioridade (Livro II). Por este motivo, Boécio consegue encontrar um sentido ao pensar na própria tragédia pessoal à luz de um texto sapiencial do Antigo Testamento (Sabedoria 7, 30-8, 1) que ele cita: «… sobre a Sabedoria não prevalece o mal. Ela se estende com vigor de um extremo ao outro do mundo e governa o universo com bondade» (Livro III, 12: PL 63, col. 780).

A assim chamada «prosperidade dos malvados», portanto, converte-se em mentirosa (livro IV), e manifesta a natureza providencial da fortuna adversa. As dificuldades da vida não só revelam até que ponto esta é efêmera e breve, mas que se demonstra inclusive úteis para encontrar e manter as autênticas relações entre os homens. A fortuna adversa permite, de fato, distinguir os amigos falsos dos verdadeiros e dá a entender que não há nada mais belo para o homem que uma amizade verdadeira. Aceitar fatalistamente a condição de sofrimento é algo totalmente perigoso, acrescenta o crente Boécio, pois «elimina em sua própria raiz a possibilidade da oração e da esperança teologal, que constituem a base da relação do homem com Deus» (Livro V, 3: PL 63, col. 842).

A peroração final do «De consolatione philosophiae» pode ser considerada como uma síntese de todo ensinamento que Boécio dirige a si mesmo e a todos os que possam encontrar-se em suas mesmas condições. Na prisão, ele escreve: «Lutai, portanto, contra os vícios, dedicai-vos a uma vida de virtude orientada pela esperança, que eleva o coração até alcançar o céu, com as orações alimentadas de humildade. A imposição que haveis sofrido pode mudar, se vos negais a mentir, na vantagem enorme de ter sempre ante os olhos o juiz supremo que vê e que sabe como as coisas realmente são» (Livro V, 6: PL 63, col. 862).

Cada detido, independentemente do motivo pelo qual tenha acabado na prisão, intui como é dura esta particular condição humana, sobretudo quando é embrutecida, como aconteceu com Boécio, pela tortura. Mas é particularmente absurda a condição daquele, como Boécio, a quem a cidade de Pavia reconhece e celebra na liturgia como mártir na fé, que é torturado até a morte pelo único motivo de suas próprias convicções, políticas e religiosas. Boécio, símbolo de um número imenso de detidos injustamente de todos os tempos e de todas as latitudes, é de fato uma porta objetiva para entrar na contemplação do misterioso Crucifixo do Gólgota.


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Pseudo-Dionísio Areopagita

mai 25, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Espiritualidade, Santos da Igreja

O primeiro grande teólogo místico

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 14 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção de Bento XVI durante a audiência geral desta quarta-feira, dedicada a apresentar a figura do Pseudo-Dionísio Areopagita.

* * *

Queridos irmãos e irmãs:

No curso das catequeses sobre os Padres da Igreja, quero falar hoje de uma figura sumamente misteriosa: um teólogo do século VI, cujo nome é desconhecido, que escreveu sob o pseudônimo Dionísio Areopagita. Com este pseudônimo ele aludia à passagem da Escritura que acabamos de escutar, ou seja, o caso narrado por são Lucas no capítulo XVII dos Atos dos Apóstolos, onde se narra que Paulo pregou em Atenas, no Areópago, dirigindo-se a uma elite do mundo intelectual grego, mas ao final a maior parte dos que o escutavam não se mostrou interessada e se afastou ridicularizando-o; contudo, alguns, poucos, segundo nos diz São Lucas, aproximaram-se de Paulo, abrindo-se à fé. O evangelista nos revela dois nomes: Dionísio, membro do Areópago, e uma mulher chamada Damaris.

Se o autor desses livros escolheu cinco séculos depois o pseudônimo de Dionísio Areopagita, quer dizer que tinha a intenção de pôr a sabedoria grega ao serviço do Evangelho, promover o encontro entre a cultura e a inteligência grega com o anúncio de Cristo; queria fazer o que pretendia aquele Dionísio, ou seja, que o pensamento grego se encontrasse com o anúncio de São Paulo, sendo grego, queria ser discípulo de São Paulo e deste modo discípulo de Cristo.

Por que escondeu seu nome e escolheu esse pseudônimo? Uma parte da resposta já se deu: queria expressar esta intenção fundamental de seu pensamento. Mas há duas hipóteses sobre este anonimato e sobre seu pseudônimo. Segundo a primeira, tratava-se de uma falsificação, através da qual, fechando suas obras no primeiro século, em tempos de São Paulo, queria dar à sua produção literária uma autoridade quase apostólica. Mas há uma hipótese melhor que esta – que me parece pouco crível: queria fazer um ato de humildade. Não queria dar glória a seu Evangelho, criar uma teologia eclesial, não individual, baseada em si mesmo. Na verdade, conseguiu elaborar uma teologia que certamente podemos datar no século VI, mas não a podemos atribuir a uma das figuras dessa época: é uma teologia um pouco “desindividualizada”, ou seja, uma teologia que expressa um pensamento e uma linguagem comuns. Eram tempos de acérrimas polêmicas após o Concílio de Calcedônia; ele, pelo contrário, em sua Sétima Epístola, diz: «Não quero fazer polêmica; falo simplesmente da verdade, busco a verdade». E a luz da verdade por si mesma faz que caiam os erros e que resplandeça o que é bom. E com este princípio purificou o pensamento grego e o pôs em relação com o Evangelho. Este princípio, que ele afirma em sua sétima carta, é também expressão de um verdadeiro espírito de diálogo: não se trata de buscar as coisas que separam; deve-se buscar a verdade na própria Verdade; esta, depois, resplandece e faz que caiam os erros.

Portanto, apesar de que a teologia desse autor é, por assim dizer, «suprapessoal», realmente eclesial, podemos enquadrá-la no século VI. Por quê? O espírito grego, que pôs ao serviço do Evangelho, foi encontrado nos livros de um certo Prócolo, falecido no ano 485 em Atenas: este autor pertencia ao platonismo tardio, uma corrente de pensamento que havia transformado a filosofia de Platão em uma espécie de religião, cujo objetivo ao final consistia em criar uma grande apologia do politeísmo grego e voltar, após o êxito do cristianismo, à antiga religião grega. Queria demonstrar que, na realidade, as divindades eram as forças do cosmos. A conseqüência era que deveria considerar-se como mais verdadeiro o politeísmo que o monoteísmo, com um só Deus criador. Prócolo apresentava um grande sistema cósmico de divindades, de forças misteriosas, segundo o qual, neste cosmos deificado, o homem podia encontrar acesso à divindade. Pois bem, para uma distinção entre os caminhos dos simples – os que não eram capazes de elevar-se aos cumes da verdade, para quem certos ritos podiam ser suficientes –, dos caminhos dos sábios, que pelo contrário deviam purificar-se para chegar à luz pura.

Como se pode ver, este pensamento é profundamente anticristão. É uma reação tardia contra a vitória do cristianismo. Uma forma anticristã de Platão, enquanto já acontecia uma leitura cristã do grande filósofo. É interessante que o Pseudo-Dionísio tenha se atrevido a servir-se precisamente deste pensamento para mostrar a verdade de Cristo: transformar este universo politeísta em um cosmo criado por Deus, na harmonia do cosmo de Deus, onde todas as forças são louvor de Deus, e mostrar esta grande harmonia, esta sinfonia do cosmos que vai desde os serafins aos anjos e arcanjos, até o homem e a todas as criaturas, que juntas refletem a beleza de Deus e são louvores a Deus. Transformava assim a imagem politeísta em um elogio do Criador e de sua criatura. Deste modo, podemos descobrir as características essenciais de seu pensamento: antes de tudo, é um louvor cósmico. Toda a criação fala de Deus e é um elogio de Deus. Sendo a criatura um louvor de Deus, a teologia do Pseudo-Dionísio se converte em uma teologia litúrgica: Deus se encontra sobretudo louvando-o, não só refletindo; e a liturgia não é algo construído por nós, algo inventado para fazer uma experiência religiosa durante um certo período de tempo; consiste em cantar com o coro das criaturas e em entrar na mesma realidade cósmica. E assim a liturgia, aparentemente só eclesiástica, torna-se ampla e grande, une-nos à linguagem de todas as criaturas. Diz: não se pode falar de Deus de maneira abstrata; falar de Deus é sempre – diz com a palavra grega –, um «hymnein», um elevar hinos para Deus com o grande canto das criaturas, que se reflete e concretiza no louvor litúrgico.

Contudo, ainda que sua teologia seja cósmica, eclesial e litúrgica, também é profundamente pessoal. Creio que é a primeira grande teologia mística. E mais, a palavra «mística» adquire com ele um novo significado. Até essa época, para os cristãos, esta palavra era equivalente à palavra «sacramental», ou seja, o que pertence ao «mysterium», sacramento. Com ele, a palavra «mística» se torna mais pessoal, mais íntima; expressa o caminho da rumo a Deus. E como é possível encontrar Deus? Aqui observamos novamente um elemento importante em seu diálogo entre filosofia grega e cristianismo, em particular a fé bíblica. Aparentemente, o que diz Platão e o que diz a grande filosofia sobre Deus é muito mais elevado, muito mais verdadeiro; a Bíblia parece bastante «bárbara», simples, pré-crítica, diríamos hoje; mas ele observa que precisamente isso é necessário para que deste modo possamos compreender que os conceitos mais elevados sobre Deus não chegam nunca até sua autêntica grandeza; são sempre impróprios.

Estas imagens nos fazem compreender, na realidade, que Deus está acima de todos os conceitos; na simplicidade das imagens, encontramos mais verdade que nos grandes conceitos. O rosto de Deus é nossa incapacidade para expressar realmente o que é. Deste modo fala – diz o próprio Pseudo-Dionísio – de uma «teologia negativa». É mais fácil dizer o que Deus não é, que expressar o que é realmente. Só através destas imagens podemos adivinhar seu verdadeiro rosto e, por outra parte, este rosto de Deus é muito concreto: é Jesus Cristo. E ainda que Dionísio nos mostre, seguindo a Prócolo, a harmonia dos coros celestes, de maneira que parece que todos dependem de todos, é verdade que nosso caminho para Deus fica muito longe d’Ele; o Pseudo-Dionísio demonstra que ao final o caminho para Deus é Deus mesmo, que se faz próximo de nós em Jesus Cristo.

Deste modo, uma grande e misteriosa teologia se torna também muito concreta, seja na interpretação da liturgia, seja na reflexão sobre Jesus Cristo: com tudo isso, Dionísio Areopagita teve uma grande influência em toda a teologia medieval, em toda a teologia mística, tanto do Oriente como do Ocidente; foi quase redescoberto no século XIII sobretudo por São Boaventura, o grande teólogo franciscano que nesta teologia mística encontrou o instrumento conceitual para interpretar a herança tão simples e profunda de São Francisco: o pobrezinho, como Dionísio, nos diz que no final o amor vê mais que a razão. Onde está a luz do amor, as trevas da razão se desvanecem; o amor vê, o amor é um olho e a experiência nos dá muito mais que a reflexão. Boaventura viu em são Francisco o que significa esta experiência: é a experiência de um caminho muito humilde, muito realista, dia a dia, é caminhar com Cristo, aceitando a cruz. Nesta pobreza e nesta humildade, na humildade que se vive também na eclesialidade, dá-se uma experiência de Deus que é mais elevada que a que se alcança através da reflexão: nela, realmente tocamos o coração de Deus.

Hoje, Dionísio Areopagita tem uma nova atualidade: apresenta-se como um grande mediador no diálogo moderno entre o cristianismo e as teologias místicas da Ásia, cuja característica está na convicção de que não se pode dizer quem é Deus; d’Ele só se pode falar com formas negativas; de Deus só se pode falar com o «não», e só é possível alcançá-lo quando se entra nesta experiência do «não». E aqui se vê uma proximidade entre o pensamento do Areopagita e o das religiões asiáticas: ele pode ser hoje um mediador, como foi entre o espírito grego e o Evangelho.

Deste modo, vê-se que o diálogo não aceita a superficialidade. Precisamente quando se entra na profundidade do encontro com Cristo, abre-se também o amplo espaço para o diálogo. Quando se encontra a luz da verdade, percebe-se que é uma luz para todos; desaparecem as polêmicas e é possível entender-se mutuamente ou ao menos falar um com o outro, aproximar-se. O caminho do diálogo consiste precisamente em estar perto de Deus em Cristo, na profundidade do encontro com Ele, na experiência da verdade, que nos abre à luz e nos ajuda a sair ao encontro dos demais: a luz da verdade, a luz do amor. Afinal, ele nos diz: tomai o caminho da experiência, da experiência humilde da fé, cada dia. Então, o coração se torna grande e pode ver e iluminar também a razão para que veja a beleza de Deus. Peçamos ao Senhor que nos ajude também hoje a pôr ao serviço do Evangelho a sabedoria de nosso tempo, descobrindo de novo a beleza da fé, o encontro com Deus em Cristo.

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri

© Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana]


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