Notícias e novidades da Igreja Católica no mundo
VATICANO, 19 Set. 06 (ACI) .- O vaticanista italiano Sandro Magister afirmou que as reações violentas dos muçulmanos contra o discurso do Papa Bento XVI do dia 12 de setembro na Universidade de Ratisbona representam uma “guerra irracional“. Em sua coluna semanal do semanário italiano L’Espresso, Magister afirma que o Papa “ofereceu como terreno para o diálogo entre cristãos e muçulmanos ‘atuar em concordância com a razão’. Entretanto, o mundo islâmico o atacou, distorcendo seu pensamento, confirmando assim que o rechaço à razão traz junto com ele intolerância e violência“.
O especialista em assuntos vaticanos afirma que “menos diplomacia e mais Evangelho” parece ser o curso que “Joseph Ratzinger está estabelecendo para o governo central da Igreja“. “Inclusive ter escolhido o arcebispo Mamberti, nascido em Marrakesh (Marrocos) e de nacionalidade francesa” e com ampla experiência diplomática em vários países islâmicos, como Secretário para as Relações com os Estados, deixa claro que o que o Papa teve em mente foi ter a alguém familiarizado com o mundo muçulmano e com os assuntos sobre fé e civilização”.
“E foi este mesmo critério: menos diplomacia e mais Evangelho, o que fez que o Papa, durante sua visita à Alemanha, dissesse o que foi considerado tão politicamente incorreto”, acrescentou o vaticanista.
Segundo Magíster, qualquer um que conheça algo da arte da diplomacia teria “qualificado de inoportunos e perigosos” muitas passagens das homilias e discursos de Bento XVI, porque “este não é um Papa que se submeta a tal censura ou que se auto-censure” mas sim diz o que deve quando isto é “pilar para sua pregação”.
“Seu objetivo na viagem à Alemanha foi iluminar o homem moderno -cristão, gnóstico, de outra fé, europeu, africano ou asiático- dizer-lhe que a simples e suprema verdade além de que Deus é Amor, a que o Papa lhe dedicou sua encíclica Deus Caritas est, é que Deus é também razão, Ele é o ‘logos’”; acrescentou Magister.
“E quando a razão se separa de Deus, fecha-se sobre si mesma. E assim, a fé em um Deus ‘irracional‘, uma vontade absoluta, sem limites, pode se converter na semente da violência. Toda religião, cultura e civilização está exposta a este maior engano: não só o Islã mas também o Cristianismo, ao que o Papa dedicou todo seu discurso”, manifestou o vaticanista.
“Dois dias antes de seu discurso na Universidade de Ratisbona -prosseguiu- contra o que autoridades de governos muçulmanos e líderes de opinião elevaram seus protestos, Bento XVI tinha exposto a verdade em sua homilia da Missa em Munique, com algumas conotações que o fizeram passar como pró-islâmico, segundo alguns comentários da mídia”, assegurou o vaticanista.
“Mas em seguida veio o discurso de Ratisbona, e a interpretação feita por muitos muçulmanos” de muitos meios e de muitas formas “com um exagero e propagação semelhantes ao que se viu faz alguns meses contra umas charges ofensivas, foi diametralmente oposta. A acusação se estendeu a partir de uma tremenda distorção do exposto pelo Bento XVI, e se apartou precisamente do exercício da razão invocado pelo Papa como o terreno adequado para o verdadeiro diálogo entre as religiões e civilizações”, continuou o especialista.
Diante desta posição do Papa, segundo Magister, era correta a posição adotada pelo Arcebispo Mamberti e o Secretário de Estado, Cardeal Tarcisio Bertone, de apoiar o Papa e sugerir uma “direta e completa“ leitura do discurso de 12 de setembro. “Inclusive no Ângelus de 17 de setembro, o próprio Pontífice expressou sua pena pelas reações dos muçulmanos a seu discurso na Universidade de Ratisbona”, indicou Magister.
Leia a coluna completa de Magister (em inglês) em http://www.chiesa.espressonline.it/dettaglio.jsp?id=84185&eng=y
![]() |
VATICANO, 20 Set. 06 (ACI) .- Durante a Audiência Geral desta quarta-feira na Praça de São Pedro, o Papa Bento XVI lembrou sua viagem à Alemanha e reiterou que em nenhum momento quis fazer suas as palavras pronunciadas pelo imperador medieval Manuel II Paleólogo que citou em seu discurso na Universidade de Ratisbona ao não expressar sua convicção pessoal. Diante dos mais de 40 mil fiéis que se congregaram no recinto vaticano, o Santo Padre se referiu a sua conferência pronunciada no dia 12 de setembro no recinto acadêmico e em que abordou o tema da relação entre fé e razão
A respeito, o Pontífice explicou que “para que o auditório compreendesse o caráter dramático e atual do argumento, citei algumas palavras de um diálogo cristão-islâmico do século XIV, onde o interlocutor cristão, o imperador bizantino Manuel II Paleólogo, de forma incompreensivelmente brusca para nós, apresentava ao interlocutor islâmico o problema da relação entre religião e violência”.
“Infelizmente, esta citação pôde dar pé a um mal-entendido. Para o leitor atento de meu texto, está claro que não queria em nenhum momento fazer minhas as palavras negativas pronunciadas pelo imperador medieval neste diálogo e que seu conteúdo polêmico não expressa minha convicção pessoal“, disse o Pontífice.
“Minha intenção -continuou- era muito diversa: partindo do que Manuel II afirma depois de forma muito positiva, com palavras muito belas, a respeito da racionalidade na transmissão da fé, queria explicar que a religião não anda unida à violência, mas à razão“.
Reiterando que o tema de sua conferência foi a relação entre a fé e a razão, acrescentou que “queria convidar ao diálogo da fé cristã com o mundo moderno e ao diálogo de todas as culturas e religiões”.
Deste modo manifestou seu desejo de que “nas diversas ocasiões de sua vista tenha sido claro meu profundo respeito pelas grandes religiões e, em particular, pelos muçulmanos, que ‘adoram ao único Deus’”.
Confio então em que, depois das reações do primeiro momento, minhas palavras na Universidade de Ratisbona possam constituir um impulso e um alento a um diálogo positivo, também autocrítico, tanto entre as religiões como entre a razão moderna e a fé dos cristãos”.
Não só Ratisbona, também Munique
Depois de sua intervenção, foi lida em diversos idiomas uma síntese da catequese em que o Santo Padre indicou que seu verdadeiro pensamento “desprende-se claramente também de outras passagens” de sua visita à Bavária.
“Meu verdadeiro pensamento se desprende claramente também de outras passagens, como quando em Munique, com grande respeito pelas grandes religiões do mundo, também pelos muçulmanos -que “adoram um único Deus”-, sublinhei a importância de respeitar o sagrado e a importância do diálogo inter-religioso e a colaboração comum em favor do bem comum, a justiça social e os valores morais”, concluiu.