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São Gregório de Nanzianzo

jun 18, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs!

Na passada quarta-feira falei de um grande mestre da fé, o Padre da Igreja São Basílio. Hoje gostaria de falar do seu amigo Gregório de Nazianzo, também ele, como Basílio, originário da Capadócia. Teólogo ilustre, orador e defensor da fé cristã no século IV, foi célebre pela sua eloquência, e teve também, como poeta, uma alma requintada e sensível.

Gregório nasceu de uma família nobre. A mãe consagrou-o a Deus desde o nascimento, que aconteceu por volta de 330. Depois da primeira educação familiar, frequentou as mais célebres escolas da sua época: primeiro foi a Cesareia da Capadócia, onde estreitou amizade com Basílio, futuro Bispo daquela cidade, e deteve-se em seguida noutras metrópoles do mundo antigo, como Alexandria do Egipto e sobretudo Atenas, onde encontrou de novo Basílio (cf. Oratio 14-24: SC 384, 146-180). Reevocando a sua amizade, Gregório escreverá mais tarde: “Então não só eu me sentia cheio de veneração pelo meu grande Basílio devido à seriedade dos seus costumes e à maturidade e sabedoria dos seus discursos, mas induzia a fazer o mesmo também a outros, que ainda não o conheciam… Guiava-nos a mesma ansiedade de saber… Esta era a nossa competição: não quem era o primeiro, mas quem permitisse ao outro de o ser. Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos” (Oratio 43, 16.20: SC 384, 154-156.164). São palavras que representam um pouco o auto-retrato desta alma nobre. Mas também se pode imaginar que este homem, que estava fortemente projectado para além dos valores terrenos, tenha sofrido muito pelas coisas deste mundo.

Tendo regressado a casa, Gregório recebeu o Baptismo e orientou-se para uma vida monástica: a solidão, a meditação filosófica e espiritual fascinavam-no. Ele mesmo escreverá: “Nada me parece maior do que isto: fazer calar os próprios sentidos, sair da carne do mundo, recolher-se em si mesmo, não se ocupar mais das coisas humanas, a não ser das que são estritamente necessárias; falar consigo mesmo e com Deus, levar uma vida que transcende as coisas visíveis; levar na alma imagens divinas sempre puras, sem misturar formas terrenas e erróneas; ser verdadeiramente um espelho imaculado de Deus e das coisas divinas, e tornar-se tal cada vez mais, tirando luz da luz…; gozar, na esperança presente, o bem futuro, e conversar com os anjos; ter já deixado a terra, mesmo estando na terra, transportado para o alto com o espírito” (Oratio 2, 7: SC 247, 96).

Como escreve na sua autobiografia (cf. Carmina [historica] 2, 1, 11 De vita sua 340-349: PG 37, 1053), recebeu a ordenação presbiteral com uma certa resistência, porque sabia que depois teria que ser Pastor, ocupar-se dos outros, das suas coisas, e portanto já não podia recolher-se só na meditação. Contudo aceitou depois esta vocação e assumiu o ministério pastoral em total obediência, aceitando, como com frequência lhe aconteceu na sua vida, ser guiado pela Providência aonde não queria ir (cf. Jo 21, 18). Em 371 o seu amigo Basílio, Bispo de Cesareia, contra o desejo do próprio Gregório, quis consagrá-lo Bispo de Sasima, uma Cidade extremamente importante da Capadócia. Mas ele, devido a várias dificuldades, nunca tomou posse dela e permaneceu na cidade de Nazianzo.

Por volta de 379, Gregório foi chamado a Constantinopla, a capital, para guiar a pequena comunidade católica fiel ao Concílio de Niceia e à fé trinitária. A maioria aderia ao contrário ao arianismo, que era “politicamente correcto” e considerado pelos imperadores útil sob o ponto de vista político. Deste modo ele encontrou-se em condições de minoria, circundado por hostilidades.

Na pequena igreja de Anastasis pronunciou cinco Discursos teológicos (Orationes 27-31: SC 250, 70-343) precisamente para defender e tornar também inteligível a fé trinitária, a habilidade do raciocínio, que faz compreender realmente que esta é a lógica divina. E também o esplendor da forma os torna hoje fascinantes. Gregório recebeu, devido a estes discursos, o apelativo de “teólogo”. Assim é chamado na Igreja ortodoxa: o “teólogo”. E isto porque para ele a teologia não é uma reflexão meramente humana, ou muito menos apenas o fruto de especulações complicadas, mas deriva de uma vida de oração e de santidade, de um diálogo assíduo com Deus. E precisamente assim mostra à nossa razão a realidade de Deus, o mistério trinitário. No silêncio contemplativo, imbuído de admiração diante das maravilhas do mistério revelado, a alma acolhe a beleza e a glória divina.

Enquanto participava no segundo Concílio Ecuménico de 381, Gregório foi eleito Bispo de Constantinopla, e assumiu a presidência do Concílio. Mas desencadeou-se imediatamente contra ele uma grande oposição, e a situação tornou-se insustentável. Para uma alma tão sensível estas inimizades eram insuportáveis. Repetia-se o que Gregório já tinha lamentado anteriormente com palavras ardentes: “Dividimos Cristo, nós que tanto amávamos Deus e Cristo! Mentimos uns aos outros devido à Verdade, alimentámos sentimentos de ódio devido ao Amor, dividimo-nos uns dos outros!” (Oratio 6, 3: SC 405, 128). Chega-se assim, num clima de tensão, à sua demissão. Na catedral apinhada Gregório pronunciou um discurso de despedida com grande afecto e dignidade (cf Oratio 42: SC 384, 48-114). Concluía a sua fervorosa intervenção com estas palavras: “Adeus, grande cidade, amada por Cristo… Meus filhos, suplico-vos, guardai o depósito [da fé] que vos foi confiado (cf. 1 Tm 6, 20), recordai-vos dos meus sofrimentos (cf. Cl 4, 18). Que a graça do nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vós” (cf. Oratio 42, 27: SC 384, 112-114).

Regressou a Nazianzo, e por cerca de dois anos dedicou-se ao cuidado pastoral daquela comunidade cristã. Depois retirou-se definitivamente em solidão na vizinha Arianzo, a sua terra natal, dedicando-se ao estudo e à vida ascética. Nesse período compôs a maior parte da sua obra poética, sobretudo autobiográfica: o De vita sua, uma releitura em versos do próprio caminho humano e espiritual, um caminho exemplar de um cristão sofredor, de um homem de grande interioridade num mundo cheio de conflitos. É um homem que nos faz sentir a primazia de Deus e por isso fala também a nós, a este nosso mundo: sem Deus o homem perde a sua grandeza, sem Deus não há verdadeiro humanismo. Por isso, ouçamos esta voz e procuremos conhecer também nós o rosto de Deus. Numa das suas poesias escrevera, dirigindo-se a Deus: “Sê benigno, Tu, o Além de tudo” (Carmina [dogmatica] 1, 1, 29: PG 37, 508). E em 390 Deus acolheu nos seus braços este servo fiel, que com inteligência perspicaz tinha defendido nos escritos, e com tanto amor o tinha cantado nas suas poesias.

LIÇÕES

Nos retratos dos grandes padres e doutores da Igreja que estou procurando oferecer nestas catequeses, da última vez falei de São Gregório Nazianzeno, bispo do século IV, e hoje quero continuar completando o retrato desse grande mestre. Hoje trataremos de recolher alguns de seus ensinamentos.

Refletindo sobre a missão que Deus lhe havia confiado, São Gregório Nazianzeno concluía: «Fui criado para ascender até Deus com minhas ações» («Oratio 14, 6 de pauperum amore»: PG 35, 865). De fato, pôs ao serviço de Deus e da Igreja seu talento de escritor e orador. Escreveu numerosos discursos, homilias e panegíricos, muitas cartas e obras poéticas (quase 18.000 versos): uma atividade verdadeiramente prodigiosa. Havia compreendido qual era a missão que Deus lhe havia confiado: «Servo da Palavra, oferece minha adesão ao ministério da Palavra, que nunca me permita descuidar desse bem. Eu aprecio e me alegro com esta vocação; ela me dá mais alegria que todo o resto» («Oratio 6,5»: SC 405, 134; cf. também «Oratio 4, 10»).

O nazianzeno era um homem manso, e em sua vida sempre procurou promover a paz na Igreja de seu tempo, dilacerada por discórdias e heresias. Com audácia evangélica, ele se esforçou por superar sua própria timidez para proclamar a verdade da fé. Sentia profundamente o anseio de aproximar-se de Deus, de unir-se a Ele. Ele mesmo o expressa em uma poesia, na qual escreve: «grandes correntes do mar da vida, agitado daqui para lá por impetuosos ventos… Havia só uma coisa que queria, minha única riqueza, consolo e esquecimento dos cansaços, a luz da santa Trindade» («Carmina [histórica]» 2,1,15: PG 37, 1250ss.).

Gregório fez resplandecer a luz da Trindade, defendendo a fé proclamada no Concílio de Nicéia: um só Deus em três Pessoas iguais e distintas – Pai, Filho e Espírito Santo –, «tripla luz que se une em um único esplendor» («Hino vespertino: Carmina [histórica]» 2, 1, 32:PG 37, 512). Deste modo, Gregório, seguindo São Paulo (1 Coríntios 8, 6), afirma: «para nós há um Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas; um Senhor, Jesus Cristo, por quem são todas as coisas, e um Espírito Santo, no qual estão todas as coisas» («Oratio 39», 12: SC 358, 172).

Gregório destacou muito a plena humanidade de Cristo: para redimir o homem em sua totalidade de corpo, alma e espírito, Cristo assumiu todos os componentes da natureza humana, do contrário o homem não teria sido salvo. Contra a heresia de Apolinário, que assegurava que Jesus Cristo não havia assumido uma alma racional, Gregório enfrenta o problema à luz do mistério da salvação: «O que não foi assumido não foi curado» (Epístola 101», 32: SC 208, 50), e se Cristo não tivesse tido «intelecto racional, como teria podido ser homem?» («Epístola 101», 34: SC 208, 50). Precisamente nosso intelecto, nossa razão, tinha necessidade da relação, do encontro com Deus em Cristo. Ao fazer-se homem, Cristo nos deu a possibilidade de chegar a ser como Ele. O nazianzeno exorta: «Procuremos ser como Cristo, pois também Cristo se fez como nós: ser como deuses por meio d’Ele, pois Ele mesmo se fez homem por nós. Carregou o pior para dar-nos o melhor» («Oratio 1,5»: SC 247, 78).

Maria, que deu a natureza humana a Cristo, é verdadeira Mãe de Deus («Theotókos»: cf. «Epístola 101», 16: SC 208, 42), e de cara a sua elevadíssima missão foi «pré-purificada» («Oratio 38», 13: SC 358, 132, apresentando uma espécie de distante prelúdio do dogma da Imaculada Conceição). Propõe Maria como modelo dos cristãos, sobretudo às virgens, e como auxílio que é preciso invocar nas necessidades (cf. «Oratio 24», 11: SC 282, 60-64).

Gregório nos recorda que, como pessoas humanas, temos de ser solidários uns com os outros. Escreve: «‘Nós, sendo muitos, não formulamos mais que um só corpo em Cristo’ (cf. Romanos 12, 5), ricos e pobres, escravos e livres, sadios e enfermos: e única é a cabeça da qual tudo deriva: Jesus Cristo. E como acontece com os membros de um só corpo, cada um se ocupa de cada um, e todos de todos».

Depois, referindo-se aos enfermos e às pessoas que atravessam dificuldades, conclui: «Esta é a única salvação para nossa carne e nossa alma: a caridade para com eles» («Oratio 14, 8 de pauperum amore»: PG 35, 868ab).

Gregório sublinha que o homem tem de imitar a bondade e o amor de Deus e, portanto, recomenda: «Se estás sadio e és rico, alivia a necessidade de quem está enfermo e é pobre; se não caíste, ajuda quem caiu e vive no sofrimento; se estás contente, consola quem está triste; se és afortunado, ajuda quem foi mordido pela desventura. Dá a Deus uma prova de reconhecimento para que sejas um dos que podem fazer o bem, e não dos que têm de ser ajudados… Não sejas rico de bens, mas de piedade; não só de ouro, mas de virtudes, ou melhor, só desta. Supera a fama de teu próximo sendo melhor bom que todos; converte-se em Deus para o desventurado, imitando a misericórdia de Deus» («Oratio 14, 26 de pauperum amore»: PG 35, 892bc).

Gregório nos ensina, antes de tudo, a importância da necessidade da oração. Afirma que «é necessário se lembrar de Deus com mais freqüência do que respiramos» («Oratio 27», 4: PG 250, 78), pois a oração é o encontro da sede de Deus com nossa sede. Deus tem sede de que tenhamos sede d’Ele (cf. «Oratio 40», 27: SC 358, 260). Na oração, temos que dirigir nosso coração a Deus para entregar-nos a Ele como oferenda que deve ser purificada e transformada. Na oração, vemos tudo à luz de Cristo, deixamos cair nossas máscaras e nos submergimos na verdade e na escuta de Deus, alimentando o fogo do amor.

Em uma poesia, que ao mesmo tempo é meditação sobre o sentido da vida e invocação implícita de Deus, Gregório escreve: «Alma minha, tens uma tarefa, se queres, uma grande tarefa. Escruta seriamente em teu interior, teu ser, teu destino; de onde vens e para onde irás, procura saber se é vida a que vives ou se há algo mais. Alma minha, tens uma tarefa, purifica, portanto, tua vida: considera, por favor, Deus e seus mistérios, indaga no que havia antes deste universo, e o que é para ti, de onde procede e qual será seu destino. Esta é tua tarefa, alma minha, portanto, purifica tua vida» («Carmina [histórica] 2», 1,78: PG 37, 1425-1426).

O santo bispo pede continuamente ajuda a Cristo para elevar-se e reiniciar o caminho: «Decepcionou-me, Cristo meu, minha exagerada presunção: das alturas caí muito baixo. Mas, volta a levantar-me novamente agora, pois vejo que enganei a mim mesmo; se volto a confiar demais em mim mesmo, voltarei a cair imediatamente, e a queda será fatal» («Carmina [histórica] 2», 1, 67: PG 37, 1408).

Gregório, portanto, sentiu necessidade de aproximar-se de Deus para superar o cansaço de seu próprio eu. Experimentou o impulso da alma, a vivacidade de um espírito sensível e a instabilidade da felicidade efêmera. Para ele, no drama de uma vida sobre a qual pesava a consciência de sua própria fraqueza e de sua própria miséria, sempre foi mais forte a experiência do amor de Deus.

Tens uma tarefa – diz São Gregório também a nós –, a tarefa de encontrar a verdadeira luz, de encontrar a verdadeira altura de tua vida. E tua vida consiste em encontrar-te com Deus, de quem temos sede.


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São Basílio Magno da Cesaréia

jun 13, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje queremos recordar um dos grandes padres da Igreja, São Basílio, definido pelos textos litúrgicos bizantinos como um «luzeiro da Igreja», que foi um grande bispo do século IV e é admirado tanto pela Igreja do Oriente como pela do Ocidente por sua santidade de vida, pela excelência de sua doutrina e pela síntese harmoniosa de capacidades especulativas e práticas.

Nasceu por volta do ano 330, em uma família de santos, «verdadeira igreja doméstica», que vivia em um clima de profunda fé. Estudou com os melhores mestres de Atenas e Constantinopla. Insatisfeito com os êxitos mundanos, ao perceber que havia perdido muito tempo em vaidades, ele mesmo confessa: «Um dia, como despertando de um sonho profundo, eu me dirigi à admirável luz da verdade do Evangelho…, e chorei sobre minha miserável vida» (cf. Carta 223: PG 32, 824a).

Atraído por Cristo, começou a ter olhos só para ele e a escutar só ele (cf. «Moralia» 80, 1: PG 31, 860bc). Com determinação, dedicou-se à vida monástica na oração, na meditação das Sagradas Escrituras e dos escritos dos Padres da Igreja e no exercício da caridade (cf. Cartas. 2 e 22), seguindo também o exemplo de sua irmã, Santa Macrina, que já vivia a acética monacal. Depois foi ordenado sacerdote e, por último, no ano 370, consagrado bispo de Cesaréia de Capadócia, na atual Turquia.

Com a pregação e os escritos, desenvolveu uma intensa atividade pastoral, teológica e literária. Com sábio equilíbrio, soube unir ao mesmo tempo o serviço às almas e a entrega à oração e à meditação na solidão. Servindo-se de sua experiência pessoal, favoreceu a fundação de muitas «fraternidades» ou comunidades de cristãos consagrados a Deus, às quais visitava com freqüência (cf. Gregório Nazianzeno, «Oratio 43, 29 in laudem Basili»: PG 36, 536b). Com a palavra e os escritos, muitos dos quais ainda hoje se conservam (cf. «Regulae brevius tractatae», Proemio: PG 31, 1080ab), ele os exortava a viver e a avançar na perfeição. Desses escritos se valeram depois não poucos legisladores da vida monástica, entre eles, muito especialmente, São Bento, que considera Basílio como seu mestre (Sf «Regula» 73, 5).

Na verdade, são Basílio criou um monaquismo muito particular: não estava fechado à comunidade da Igreja local, mas aberto a ela. Seus monges faziam parte da Igreja local, eram o núcleo animador que, precedendo os demais fiéis no seguimento de Cristo e não só da fé, mostrava sua firme adesão a ele, o amor por ele, sobretudo nas obras de caridade.

Estes monges, que tinham escolas e hospitais, estavam ao serviço dos pobres e deste modo mostraram a vida cristã de uma maneira completa. O servo de Deus João Paulo II, falando do monaquismo, escreveu: «muitos opinam que essa instituição tão importante em toda a Igreja, a vida monástica, ficou estabelecida, para todos os séculos, principalmente por São Basílio ou que, ao menos, a natureza da mesma não teria ficado tão propriamente definida sem sua decisiva contribuição» (carta apostólica «Patres Ecclesiae» 2).

Como bispo e pastor de sua estendida diocese, Basílio se preocupou constantemente pelas difíceis condições materiais nas quais os fiéis viviam; denunciou com firmeza o mal; comprometeu-se com os pobres e os marginalizados; interveio ante os governantes para aliviar os sofrimentos da população, sobretudo em momentos de calamidade; velou pela liberdade da Igreja, enfrentando os potentes para defender o direito de professar a verdadeira fé (cf. Gregório Nazianzeno, «Oratio 43, 48-51 in laudem Basili»: PG 36, 557c-561c). Deu testemunho de Deus, que é amor e caridade, com a construção de vários hospitais para necessitados (cf. Basílio, Carta 94: PG 32, 488bc), uma espécie de cidade da misericórdia, que tomou seu nome, «Basiliade» (cf. Sozomeno, «História Eclesiástica». 6, 34: PG 67, 1397ª). Nela fundem suas raízes os modernos hospitais para a atenção dos doentes.

Consciente de que «a liturgia é o cume ao qual tende a atividade da Igreja e ao mesmo tempo a fonte de onde emana toda sua força» («Sacrosanctum Concilium» 10), Basílio, ainda que se preocupava por viver a caridade, que é a característica da fé, foi também um sábio «reformador litúrgico» (cf. Gregório Nazianzeno, «Oratio 43, 34 in laudem Basili»: PG 36, 541c). Ele nos deixou uma grande oração eucarística [ou anáfora] que toma seu nome e que deu uma ordem fundamental à oração e salmodia: graças a ele, o povo amou e conheceu os Salmos e ia rezá-los inclusive à noite (cf. Basílio, «In Psalmum» 1,1-2: PG 29, 212ª-213c). Deste modo, podemos ver como liturgia, adoração e oração estão unidas à caridade, se condicionam reciprocamente.

Com zelo e valentia, Basílio soube opor-se aos hereges, que negavam que Jesus Cristo fosse Deus como o Pai (cF. Basílio, Carta 9, 3: PG 32, 272a; Carta 52, 1-3: PG 32,392b-396a; «Adversus Eunomium». Do mesmo modo, contra quem não aceitava a divindade do Espírito Santo, afirmou que também o Espírito Santo é Deus e «tem de ser colocado e glorificado junto ao Pai e o Filho» (cf. «De spiritu Sancto»: SC 17bis, 348). Por este motivo, Basílio é um dos grandes padres que formularam a doutrina sobre a Trindade: o único Deus, dado que é Amor, é um Deus em três Pessoas, que formam a unidade mais profunda que existe, a unidade divina.

Em seu amor por Cristo e seu Evangelho, o grande capadócio se comprometeu também por sanar as divisões dentro da Igreja (cf. Carta 70 e 243), buscando sempre que todos se convertessem a Cristo e à sua Palavra (cf. «De iudicio» 4: PG 31, 660b-661c).

Concluindo, Basílio se entregou totalmente ao fiel serviço da Igreja no multiforme serviço do ministério episcopal. Segundo o programa que ele mesmo traçou, converteu-se em «apóstolo e ministro de Cristo, dispensador dos mistérios de Deus, arauto do reino, modelo e regra de piedade, olho do corpo da Igreja, pastor das ovelhas de Cristo, médico piedoso, pai, cooperador de Deus, agricultor de Deus, construtor do templo de Deus» (cf. «Moralia» 80, 11-20: PG 31, 846b-868b).

Este é o programa que o santo bispo entrega aos arautos da Palavra, tanto ontem como hoje, um programa que ele mesmo se comprometeu generosamente a viver.

No ano 379, Basílio, sem ter completado os cinqüenta anos, esgotado pelo cansaço e a ascese, voltou para Deus, «com a esperança da vida eterna, através de Jesus Cristo, nosso Senhor» («De Batismo» 1, 2, 9). Foi um homem que viveu verdadeiramente com o olhar dirigido a Cristo, um homem do amor pelo próximo. Repleto de esperança e da alegria da fé, Basílio nos mostra como ser realmente cristãos.

CATEQUESES

(…) Hoje desejo simplesmente relacionar-me com a última catequese, que tinha como tema a vida e os escritos de São Basílio, Bispo na actual Turquia, na Ásia Menor, no IV século. A existência deste grande Santo e as suas obras são ricas de temas de reflexão e de ensinamentos válidos também para nós hoje.

Antes de tudo a chamada ao mistério de Deus, que permanece a referência mais significativa e vital para o homem. O Padre é “o princípio de tudo e a causa de ser do que existe, a raiz dos vivos” (Hom. 15, 2 de fide: PG 31, 465c), e sobretudo é “o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Anaphora sancti Basilii). Remontando a Deus através das criaturas, nós, “tomamos consciência da sua bondade e da sua sabedoria” (Basílio, Contra Eunomium 1, 14; PG 29, 544b). O Filho é a “imagem da bondade do Pai e sigilo de forma igual a ele” (cf. Anaphora sancti Basilii). Com a sua obediência e com a sua paixão o Verbo encarnado realizou a missão de Redentor do homem (cf. Basílio, In Psalmum 48, 8: PG 29, 452ab; cf. também De Baptismo 1, 2: SC 357, 158).

Por fim, ele fala amplamente do Espírito Santo, ao qual dedicou um livro inteiro. Revela-nos que o Espírito anima a Igreja, a enche dos seus dons, a torna santa. A luz maravilhosa do mistério divino reflecte-se sobre o homem, imagem de Deus, e eleva a sua dignidade. Olhando para Cristo, compreende-se plenamente a dignidade do homem. Basílio exclama: “[Homem], consciencializa-te da tua grandeza considerando o preço derramado por ti: olha para o preço do teu resgate, e compreende a tua dignidade!” (In Psalmum 48, 8: PG 29, 452b). Em particular o cristão, vivendo em conformidade com o Evangelho, reconhece que os homens são todos irmãos entre eles; que a vida é uma administração dos bens recebidos de Deus, pelos quais cada um é responsável perante os outros, e quem é rico deve ser como um “executor das ordens de Deus benfeitor” (Hom. 6 de avaritia: PG 32, 1181-1196). Todos nos devemos ajudar, e cooperar como os membros de um corpo (Ep 203, 3).

E ele, nas suas homilias, usou também palavras corajosas, fortes sobre este ponto. De facto, quem segundo o mandamento de Deus deseja amar o próximo como a si mesmo, “não deve possuir nada mais de quanto possui o seu próximo” (Hom. in divites: PG 31, 281b).

Em tempos de carestias e de calamidades, com palavras apaixonadas o Santo Bispo exortava os fiéis a “não se mostrarem mais cruéis que as feras…, apropriando-se do que é comum, e possuindo sozinhos o que é de todos” (Hom. tempore famis: PG 31, 325a). O pensamento profundo de Basílio sobressai bem nesta frase sugestiva: “Todas os necessitados olham para as nossas mãos, como nós próprios olhamos para as de Deus, quando estamos em necessidade”. É muito apropriado o elogio feito por Gregório de Nazianzo, que depois da morte de Basílio disse: “Basílio persuadiu-nos de que nós, sendo homens, não devemos desprezar os homens, nem ultrajar Cristo, cabeça comum de todos, com a nossa desumanidade para com os homens; antes, nas desgraças dos outros, devemos beneficiar nós próprios, e fazer empréstimo a Deus da nossa misericórdia, porque temos necessidade de misericórdia” (Gregório Nazianzeno, Oratio 43, 63; PG 36, 580b). São palavras muito actuais. Vemos como São Basílio é realmente um dos Padres da Doutrina Social da Igreja.

Além disso, Basílio recorda-nos que para manter vivo em nós o amor a Deus e aos homens é necessária a Eucaristia, alimento adequado para os Baptizados, capaz de alimentar as novas energias derivantes do Baptismo (cf. De Baptismo 1, 3: SC 357, 192). É motivo de imensa alegria poder participar na Eucaristia (Moralia 21, 3: PG 31, 741a), instituída “para conservar incessantemente a recordação daquele que morreu e ressuscitou por nós” (Moralia 80, 22: PG 31, 869b). A Eucaristia, imenso dom de Deus, tutela em cada um de nós a recordação do selo baptismal, e permite viver em plenitude e fidelidade a graça do Baptismo. Por isto o Santo Bispo recomenda a comunhão frequente, também quotidiana: “Comungar até todos os dias recebendo o santo corpo e sangue de Cristo é bom e útil; porque ele mesmo diz claramente: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue terá a vida eterna” (Jo 6, 54). Portanto, quem duvidará de que comungar continuamente da vida não seja viver em plenitude?” (Ep. 93: PG 32, 484b). A Eucaristia, em síntese, é-nos necessária para acolhermos em nós a verdadeira vida, a vida eterna (cf. Moralia 21, 1: PG 31, 737c).

Por fim, Basílio interessou-se naturalmente também daquela porção eleita do povo de Deus que são os jovens, o futuro da sociedade. A eles dirigiu um Discurso sobre o modo de tirar proveito da cultura pagã desse tempo. Com muito equilíbrio e abertura, ele reconhece que na literatura clássica, grega e latina, se encontram exemplos de virtude. Estes exemplos de vida recta podem ser úteis para o jovem cristão em busca da verdade, do modo recto de viver (cf. Ad Adolescentes 3). Por isso, é preciso tirar dos textos dos autores clássicos tudo o que é conveniente e conforme com a verdade: assim com atitude crítica e aberta de facto trata-se de um verdadeiro e próprio “discernimento” os jovens crescem em liberdade. Com a célebre imagem das abelhas, que tiram das flores apenas o que serve para o mel, Basílio recomenda: “Como as abelhas sabem tirar das flores o mel, diferenciando-se dos outros animais que se limitam a gozar do perfume e da cor das flores, assim também destes escritos… se pode obter algum proveito para o espírito. Devemos utilizar estes livros seguindo em tudo o exemplo das abelhas. Elas não vão indistintamente a todas as flores, nem sequer procuram tirar tudo das flores nas quais pousam, mas tiram só o que serve para a elaboração do mel, e deixam o resto. E nós, se formos sábios, tiraremos daqueles escritos o que se adapta a nós, e é conforme à verdade, e deixaremos o resto” (Ad Adolescentes 4). Basílio, sobretudo, recomenda aos jovens que cresçam nas virtudes, no recto modo de viver: “Enquanto os outros bens… passam deste para aquele como no jogo dos dados, só a virtude é um bem inalienável, e permanece durante a vida e depois da morte” (Ad Adolescentes 5).

Queridos irmãos e irmãs, parece-me que se pode dizer que este Padre de outrora fala também a nós e nos diz coisas importantes. Antes de tudo, esta participação atenta, crítica e criativa para a cultura de hoje. Depois, a responsabilidade social: este é um tempo no qual, num mundo globalizado, também os povos geograficamente distantes são realmente o nosso próximo. Portanto, a amizade com Cristo, o Deus com rosto humano. E, por fim, o conhecimento e o reconhecimento a Deus Criador, Pai de todos nós: só abertos a este Deus, Pai comum, podemos construir um mundo justo e um mundo fraterno.


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Eusébio de Cesaréia

jun 7, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Na história do cristianismo antigo, é fundamental a distinção entre os primeiros três séculos e os sucessivos ao Concílio de Nicéia do ano 325, o primeiro ecumênico. Entre os dois períodos está a assim chamada «mudança de Constantino» e a paz da Igreja, assim como a figura de Eusébio, bispo de Cesaréia na Palestina.

Foi o expoente mais qualificado da cultura cristã de seu tempo, em contextos muito variados, da teologia à exegese, da história à erudição. Eusébio é conhecido sobretudo como o primeiro historiador do cristianismo, mas também como o filósofo maior da Igreja antiga.

Na Cesaréia, onde provavelmente nasceu em torno do ano 260, Orígenes se havia refugiado procedente da Alexandria, e lá havia fundado uma escola e uma ingente biblioteca. Precisamente com estes livros se teria formado, uma década depois, o jovem Eusébio. No ano 325, como bispo de Cesaréia, participou com um papel de protagonista no Concílio de Nicéia. Subscreveu o «Credo» e a afirmação da plena divindade do Filho de Deus, definido por este com «a mesma substância» do Pai («homooúsios tõ Patrí»). É praticamente o mesmo «Credo» que nós rezamos todos os domingos na santa liturgia.

Sincero admirador de Constantino, que havia dado paz à Igreja, Eusébio sentiu por ele estima e consideração. Celebrou o imperador, não só em suas obras, mas também em discursos oficiais, pronunciados no vigésimo e trigésimo aniversários de sua chegada ao trono, e depois de sua morte, ocorrida no ano 337. Dois ou três anos depois também morria Eusébio.

Estudioso incansável, em seus numerosos escritos, Eusébio busca refletir e fazer um balanço dos três séculos de cristianismo, três séculos vividos sob a perseguição, recorrendo em boa parte às fontes cristãs e pagãs conservadas sobretudo na grande biblioteca de Cesaréia. Deste modo, apesar da marca objetiva de suas obras apologéticas, exegéticas e doutrinais, a fama imperecedora de Eusébio continua estando ligada em primeiro lugar aos dez livros de sua «História eclesiástica». Foi o primeiro em escrever uma história da Igreja, que segue sendo fundamental graças às fontes que Eusébio põe à nossa disposição para sempre. Com esta «história» conseguiu salvar do esquecimento numerosos acontecimentos, personagens e obras literárias da Igreja antiga. Trata-se, portanto, de uma fonte primária para o conhecimento dos primeiros séculos do cristianismo.

Podemos nos perguntar como estruturou e com que intenções redigiu esta nova obra. Ao início do primeiro livro, o historiador apresenta os argumentos que pretende enfrentar em sua obra: «Eu me propus redigir as sucessões dos santos apóstolos desde nosso Salvador até nossos dias, quanto e quão grandes foram os acontecimentos segundo a história da Igreja e quem foi distinguido em seu governo e direção nas comunidades mais notáveis, inclusive também aqueles que, em cada geração, foram embaixadores da Palavra de Deus, seja por meio da escritura ou sem ela, e os que, impulsionados pelo desejo de inovação até o erro, anunciaram-se como promotores do falsamente chamado conhecimento, devorando assim o rebanho de Cristo como lobos rapazes… e também o número, o modo e o tempo dos pagãos que lutaram contra a palavra divina e a grandeza dos que em seu tempo atravessaram, por ela, à prova de sangue e tortura; assinalando também os martírios de nosso tempo e o auxílio benigno e favorável para com todos de nosso Salvador» (1, 1, 1-2).

Desta maneira, Eusébio envolve diferentes setores: a sucessão dos apóstolos, como estrutura da Igreja, a difusão da Mensagem, os erros, as perseguições por parte dos pagãos e os grandes testemunhos que constituem a luz desta «História». Em tudo isso, resplandecem a misericórdia e a benevolência do Salvador. Eusébio inaugura assim a historiografia eclesiástica, abarcando sua narração até o ano 324, ano no qual Constantino, depois da derrota de Licínio, foi aclamado como imperador único de Roma. Trata-se do ano precedente ao grande Concílio de Nicéia, que depois oferece a «summa» do que a Igreja — doutrinal, moral e inclusive juridicamente — havia aprendido nesses trezentos anos.

A reunião que acabamos de referir do primeiro livro da «História eclesiástica» contém uma repetição que certamente é intencional. Em poucas linhas, repete o título cristológico de «Salvador», e faz referência explícita à «sua misericórdia» e à «sua benevolência». Podemos compreender assim a perspectiva fundamental da historiografia de Eusébio: é uma história «cristocêntrica», na qual se revela progressivamente o mistério do amor de Deus pelos homens. Com genuína surpresa, Eusébio reconhece que «de todos os homens de seu tempo e dos que existiram até hoje em toda a terra, só Ele é chamado e confessado como Cristo [ou seja, 'Messias' e 'Salvador do mundo'], e todos dão testemunho d’Ele com este nome, seguidores, em toda a terra; é honrado como rei, é contemplado como sendo superior a um profeta e é glorificado como o verdadeiro e único sumo sacerdote de Deus; e, acima de tudo isso, é adorado como Deus por ser o Logos pré-existente, anterior a todos os séculos, e tendo recebido do Pai a honra de ser objeto de veneração. E o mais singular de tudo é que nós, que estamos consagrados a Ele, não honramos com a voz ou com os sons de nossas palavras, mas com uma completa disposição da alma, chegando inclusive a preferir o martírio por sua causa à nossa própria vida» (1, 3, 19-20).

Deste modo, aparece em primeiro lugar outra característica que será uma constante na antiga historiografia eclesiástica: a «intenção moral» que preside a narração. A análise histórica nunca é um fim em si mesmo; não só busca conhecer o passado, mas aponta com decisão à conversão, e a um autêntico testemunho de vida cristã por parte dos fiéis. É uma guia para nós mesmos.

Desta maneira, Eusébio interpela vivamente os fiéis de todos os tempos sobre sua maneira de enfrentar as vicissitudes da história, e da Igreja em particular. Interpela também a nós: qual é nossa atitude ante as vicissitudes da Igreja? É a atitude de quem se interessa por simples curiosidade, buscando o sensacionalismo e o escândalo a toda custa? Ou é mais a atitude cheia de amor e aberta ao mistério de quem sabe pela fé que pode perceber na história da Igreja os sinais do amor de Deus e as grandes obras da salvação por ele realizadas?

Se esta é nossa atitude, temos que sentir-nos interpelados para oferecer uma resposta mais coerente e generosa, um testemunho mais cristão de vida, para deixar os sinais do amor de Deus também às futuras gerações.

«Há um mistério», não se cansava de repetir esse eminente estudioso dos Padres, o Pe. Jean Daniélou: «Há um conteúdo escondido na história… O mistério é o das obras de Deus, que constituem no tempo a realidade autêntica, escondida detrás das aparências… Mas esta história que Deus realiza pelo homem, não a realiza sem Ele. Ficar na contemplação das ‘grandes coisas’ de Deus significaria ver só um aspecto das coisas. Ante elas está a resposta» («Ensaio sobre o mistério da história», «Saggio sul mistero della storia», Brescia 1963, p. 182).

Muitos séculos depois, também hoje Eusébio de Cesaréia nos convida a surpreender-nos ao contemplar na história as grandes obras de Deus pela salvação dos homens. E com a mesma energia, ele nos convida à conversão da vida. De fato, ante um Deus que nos amou assim, não podemos permanecer insensíveis. A instância própria do amor é que toda a vida se oriente à imitação do Amado. Façamos tudo o que estiver a nosso alcance para deixar em nossa vida um traço transparente do amor de Deus.


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Clemente de Alexandria

mai 31, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Vaticano
Fonte: Vaticano

Amados irmãos e irmãs!

Depois do tempo das festas voltamos às catequeses normais, mesmo se visivelmente na Praça ainda é festa. Com as catequeses voltamos, como disse, à sequência antes iniciada. Primeiro falámos dos Doze Apóstolos, depois dos discípulos dos Apóstolos, agora das grandes personalidades da Igreja nascente, da Igreja antiga. O último foi Santo Ireneu de Lião, hoje falamos de Clemente de Alexandria, um grande teólogo que nasceu provavelmente em Atenas em meados do século II. De Atenas herdou aquele acentuado interesse pela filosofia, que teria feito dele um dos pioneiros do diálogo entre fé e razão na tradição cristã. Ainda jovem, ele chegou a Alexandria, a “cidade-símbolo” daquele fecundo cruzamento entre culturas diversas que caracterizou a idade helenística. Lá foi discípulo de Panteno, até lhe suceder na direcção da escola catequética.

Numerosas fontes confirmam que foi ordenado presbítero. Durante a perseguição de 202-203 abandonou Alexandria para se refugiar em Cesareia, na Capadócia, onde faleceu por volta de 215.

As obras mais importantes que dele nos restam são três: o Protréptico, o Pedagogo e o Estrómata. Mesmo parecendo não ser esta a intenção originária do autor, é uma realidade que estes escritos constituem uma verdadeira trilogia, destinada a acompanhar eficazmente a maturação espiritual do cristão. O Protréptico, como diz a própria palavra, é uma “exortação” dirigida a quem inicia e procura o caminho da fé. Ainda melhor, o Protréptico coincide com uma Pessoa: o Filho de Deus, Jesus Cristo, que se faz “exortador” dos homens, para que empreendam com decisão o caminho rumo à Verdade. O próprio Jesus Cristo se faz depois Pedagogo, isto é “educador” daqueles que, em virtude do Baptismo, já se tornaram filhos de Deus. O próprio Jesus Cristo, por fim, é também Didascalos, isto é, “Mestre” que propõe os ensinamentos mais profundos. Eles estão reunidos na terceira obra de Clemente, os Estrómatas, palavra grega que significa “tapeçaria”: de facto, trata-se de uma composição não sistemática de vários assuntos, fruto directo do ensinamento habitual de Clemente.

No seu conjunto, a catequese clementina acompanha passo a passo o caminho do catecúmeno e do baptizado para que, com as suas “asas” da fé e da razão, eles alcancem um conhecimento íntimo da Verdade, que é Jesus Cristo, o Verbo de Deus. Só este conhecimento da pessoa que é a verdade, é a “verdadeira gnose”, a expressão grega que corresponde a “conhecimento”, “inteligência”. É o edifício construído pela razão sob o impulso de um princípio sobrenatural. A própria fé constrói a verdadeira filosofia, isto é, a verdadeira conversão no caminho a ser empreendido na vida. Por conseguinte, a autêntica “gnose” é um desenvolvimento da fé, suscitado por Jesus Cristo na alma unida a Ele. Clemente distingue depois entre dois níveis da vida cristã. O primeiro: os cristãos crentes que vivem a fé de modo comum, mas sempre aberta aos horizontes da santidade. E depois, o segundo: os “gnósticos”, isto é, os que já conduzem uma vida de perfeição espiritual: contudo o cristão deve partir da base comum da fé e através de um caminho de busca deve deixar-se guiar por Cristo para, desta forma, chegar ao conhecimento da Verdade e das verdades que formam o conteúdo da fé. Este conhecimento, diz-nos Clemente, torna-se a alma de uma realidade vivente: não é só uma teoria, é uma força de vida, uma união de amor transformante.

O conhecimento de Cristo não é só pensamento, mas é amor que abre os olhos, transforma o homem e gera comunhão com o Logos, com o Verbo divino que é verdade e vida.

Nesta comunhão, que é o conhecimento perfeito e amor, o cristão perfeito alcança a contemplação, a unificação com Deus.

Clemente retoma finalmente a doutrina segundo a qual o fim último do homem é tornar-se semelhante a Deus. Somos criados à imagem e semelhança de Deus, mas isto ainda é um desafio, um caminho; de facto, a finalidade da vida, o destino último é verdadeiramente tornar-se semelhantes a Deus. Isto é possível graças à conaturalidade com Ele, que o homem recebeu no momento da criação, pelo que ele já é em si já em si a imagem de Deus. Esta conaturalidade permite conhecer as realidades divinas, às quais o homem adere antes de tudo pela fé e, através da fé vivida, da prática da virtude, pode crescer até à contemplação de Deus. Assim, no caminho da perfeição, Clemente atribui à exigência moral a mesma importância que atribui à intelectual. Os dois caminham juntos porque não se pode conhecer sem viver e não se pode viver sem conhecer. A assimilação a Deus e a contemplação d’Ele não podem ser alcançadas unicamente com o conhecimento racional: para esta finalidade é necessária uma vida segundo o Logos, uma vida segundo a verdade. E por conseguinte, as boas obras devem acompanhar o conhecimento intelectual como a sombra segue o corpo.

Principalmente duas virtudes ornamentam a alma do “verdadeiro gnóstico”. A primeira é a liberdade das paixões (apátheia); a outra é o amor, a verdadeira paixão, que garante a união íntima com Deus. O amor doa a paz perfeita, e coloca o “verdadeiro gnóstico” em condições de enfrentar os maiores sacrifícios, também o sacrifício supremo no seguimento de Cristo, e fá-lo subir de degrau em degrau até ao vértice das virtudes. Assim o ideal ético da filosofia antiga, isto é, a libertação das paixões, é definido e conjugado por Clemente com amor, no processo incessante de assimilação a Deus.

Deste modo o Alexandrino constrói a segunda grande ocasião de diálogo entre o anúncio cristão e a filosofia grega. Sabemos que São Paulo no Areópago em Atenas, onde Clemente nasceu, tinha feito a primeira tentativa de diálogo com a filosofia grega e em grande parte tinha falhado mas tinham-lhe dito: “Ouvir-te-emos outra vez”. Agora Clemente, retoma este diálogo, e eleva-o ao mais alto nível na tradição filosófica grega. Como escreveu o meu venerado Predecessor João Paulo II na Encíclica Fides et ratio, o Alexandrino chega a interpretar a filosofia como “uma instrução propedêutica à fé cristã” (n. 38). E, de facto, Clemente chegou a ponto de afirmar que Deus dera a filosofia aos Gregos “como um seu próprio Testamento” (Strom. 6, 8, 67, 1). Para ele a tradição filosófica grega, quase ao nível da Lei para os Judeus, é âmbito de “revelação”, são duas correntes que, em síntese, se dirigem para o próprio Logos. Assim Clemente continua a marcar com decisão o caminho de quem pretende “dizer a razão” da própria fé em Jesus Cristo. Ele pode servir de exemplo para os cristãos, catequistas e teólogos do nosso tempo, aos quais João Paulo II, na mesma Encíclica, recomendava que “recuperassem e evidenciassem do melhor modo a dimensão metafísica da verdade, para entrar num diálogo crítico e exigente com o pensamento filosófico contemporâneo”.

Concluímos fazendo nossas algumas expressões da célebre “oração a Cristo Logos”, com a qual Clemente encerra o seu Pedagogo. Ele suplica assim: “Sê propício aos teus filhos”; “Concede que vivamos na tua paz, que sejamos transferidos para a tua cidade, que atravessemos sem ser submergidos as ondas do pecado, que sejamos transportados em tranquilidade pelo Espírito Santo e pela Sabedoria inefável: nós, que de noite e de dia, até ao último dia cantamos um cântico de acção de graças ao único Pai,… ao Filho pedagogo e mestre, juntamente com o Espírito Santo. Amém!” (Ped. 3, 12, 101).


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Priscila e Áquila

mai 24, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Bíblia, Santos da Igreja

Por Papa bento XVI
Tradução: Vaticano
Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Dando um novo passo nesta espécie de galeria de retratos das primeiras testemunhas da fé cristã, que iniciámos há algumas semanas, tomamos hoje em consideração um casal de esposos. Trata-se dos cônjuges Priscila e Áquila, que se colocam na órbita dos numerosos colaboradores que gravitam em volta do apóstolo Paulo, dos quais já falei brevemente na quarta-feira passada. Com base nas notícias que possuímos, este casal desempenhou um papel muito activo no tempo das origens pós-pascais da Igreja.

Os nomes Áquila e Priscila são latinos, mas este homem e esta mulher são de origem hebraica. Pelo menos Áquila provinha geograficamente da diáspora da Anatólia setentrional, diante do mar Negro na actual Turquia enquanto Priscila, cujo nome se encontra por vezes abreviado em Prisca, era provavelmente uma judia proveniente de Roma (cf. Act 18, 2). Contudo, foi de Roma que eles partiram para Corinto, onde Paulo se encontrou com eles no início dos anos 50; lá associou-se a eles porque, como narra Lucas, exerciam a mesma profissão de fabricantes de tendas ou toldos para uso doméstico, e foi acolhido até na sua casa (cf, Act 18, 3). O motivo da sua ida a Corinto tinha sido a decisão do imperador Cláudio de expulsar de Roma os Judeus residentes na Cidade.

O historiador romano Suetónio diz-nos sobre este acontecimento que tinha expulso os Judeus porque “provocavam tumultos por causa de um certo Cresto” (cf. Vita dei dodici Cesari, Claudio”, 25). Vê-se que não conhecia bem o nome em vez de Cristo escreve “Cresto” e tinha apenas uma ideia muito vaga de quanto tinha acontecido. Contudo, haviam discórdias no interior da comunidade judaica sobre a questão se Jesus era o Cristo. E estes problemas eram para o imperador o motivo para simplesmente expulsar de Roma todos os Judeus. Disto se deduz que o casal tinha abraçado a fé cristã já em Roma nos anos 40, e agora tinham encontrado em Paulo alguém que não só partilhava com eles esta fé que Jesus é o Cristo mas que também era apóstolo, chamado pessoalmente pelo Senhor Ressuscitado. Por conseguinte, o primeiro encontro dá-se em Corinto, onde o recebem em casa e trabalham juntos na fabricação de tendas.

Num segundo momento, eles transferem-se para a Ásia Menor, para Éfeso. Ali tiveram uma parte determinante em completar a formação cristã do judeu alexandrino Apolo, do qual falámos na quarta-feira passada. Dado que ele conhecia apenas superficialmente a fé cristã, “Priscila e Áquila, que o tinham ouvido, tomaram-no consigo e expuseram-lhe, com mais clareza, o Caminho do Senhor” (Act 18, 26). Quando de Éfeso o Apóstolo Paulo escreve a sua Primeira Carta aos Coríntios, junta explicitamente às suas saudações também as de “Áquila e Prisca, com a comunidade que se reúne na sua casa” (16, 19). Assim chegamos ao conhecimento do papel importantíssimo que este casal desempenha no âmbito da Igreja primitiva: isto é, o de receber na própria casa o grupo dos cristãos locais, quando eles se reuniam para ouvir a Palavra de Deus e para celebrar a Eucaristia. É precisamente aquele tipo de reunião que em grego se chama “ekklesìa” a palavra latina é “ecclesia”, a italiana “chiesa” que significa convocação, assembleia, reunião.

Portanto, na casa de Áquila e Priscila reúne-se a Igreja, a convocação de Cristo, que celebra os Mistérios sagrados. E assim podemos ver o nascimento precisamente da realidade da Igreja nas casas dos crentes. De facto, os cristãos até finais do século III não tinham lugares próprios de culto: foram estas, num primeiro tempo, as sinagogas judaicas, até quando a originária simbiose entre Antigo e Novo Testamento se dissolveu e a Igreja das Nações foi obrigada a dar-se uma própria identidade, sempre profundamente enraizada no Antigo Testamento. Depois desta “ruptura”, os cristãos reunem-se nas casas, tornam-se assim “Igreja”. E por fim, no século III, surgem verdadeiros e próprios edifícios de culto cristão. Mas na primeira metade do século I e no século II, as casas dos cristãos tornam-se verdadeira e própria “igreja”. Como disse, lêem juntos as Sagradas Escrituras e celebram a Eucaristia. Acontecia assim, por exemplo, em Corinto, onde Paulo menciona “Gaio, que me recebe como hóspede, assim como a toda a igreja” (Rm 16, 23), ou em Laodiceia, onde a comunidade re reunia na casa de uma certa Ninfa (cf. Cl 4, 15), ou em Colossos, onde o encontro se realizava em casa de um certo Arquipo (cf. Fm 2).

Tendo sucessivamente regressado a Roma, Áquila e Priscila continuaram a desempenhar esta preciosíssima função também na capital do Império. De facto, Paulo escrevendo aos Romanos, envia esta saudação: “Saudai Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus, pessoas que, pela minha vida, expuseram a sua cabeça. Não sou apenas eu a estar-lhes agradecido, mas todas as igrejas dos gentios. Saudai também a igreja que se reúne em casa deles” (Rm 16, 3-5). Que extraordinário elogio do casal nestas palavras! E quem a faz é precisamente o Apóstolo Paulo. Ele reconhece explicitamente neles dois verdadeiros colaboradores do seu apostolado. A referência ao facto de ter arriscado a vida por ele deve relacionar-se provavelmente com intervenções em seu favor durante algum seu aprisionamento, talvez em Éfeso (cf. Act 19, 23; 1 Cor 15, 32; 2 Cor 1, 8-9). E que à própria gratidão Paulo associe até a de todas as Igrejas das Nações, mesmo considerando a expressão talvez bastante hiperbólica, deixa intuir como é vasto o seu raio de acção e, contudo, a sua influência em benefício do Evangelho.

A tradição hagiográfica posterior conferiu um realce muito particular a Priscila, mesmo se permanece o problema de uma sua identificação com outra Priscila mártir. Contudo, aqui em Roma temos quer uma igreja dedicada a Santa Prisca no Aventino quer as Catacumbas de Priscila na via Salária. Deste modo perpetua-se a memória de uma mulher, que certamente foi uma pessoa activa e de muito valor na história do cristianismo romano. Uma coisa é certa: juntamente com a gratidão daquelas primeiras Igrejas, das quais fala São Paulo, deve juntar-se também a nossa, porque graças à fé e ao compromisso apostólico dos fiéis leigos, de famílias, esposos como Priscila e Áquila o cristianismo chegou à nossa geração. Podia crescer não só graças aos Apóstolos que o anunciavam. Para se radicar na terra do povo, para se desenvolver vivamente, era necessário o compromisso destas famílias, destes esposos, destas comunidades cristãs, de fiéis leigos que ofereceram o “húmus” ao crescimento da fé. E sempre, só assim a Igreja cresce. Em particular, este casal demonstra como é importante a acção dos casais cristãos. Quando eles são amparados pela fé e por uma forte espiritualidade, torna-se natural um seu compromisso pela Igreja e na Igreja. A comunhão quotidiana da sua vida prolonga-se e de certa forma sublima-se na assunção de uma responsabilidade comum em favor do Corpo místico de Cristo, mesmo que fosse de uma pequena parte dele. Assim era na minha geração e assim será com frequência.

Do seu exemplo podemos tirar outra lição que não devemos descuidar: cada casa pode transformar-se numa pequena igreja. Não só no sentido de que nela deve reinar o típico amor cristão feito de altruísmo e de solicitude recíproca, mas ainda mais no sentido de que toda a vida familiar, com base na fé, está chamada a girar em volta da única senhoria de Jesus Cristo. Não é ocasionalmente que na Carta aos Efésios Paulo compara a relação matrimonial com a comunhão esponsal que existe entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5, 25-33). Aliás, poderíamos considerar que o Apóstolo modele indirectamente a vida da Igreja inteira sobre a da família. E a Igreja, na realidade, é a família de Deus. Por isso honramos Áquila e Priscila como modelos de uma vida conjugal responsavelmente comprometida ao serviço de toda a comunidade cristã. E encontramos neles o modelo da Igreja, família de Deus para todos os tempos.


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Pregador do Papa: «nosso verdadeiro céu é Cristo Ressuscitado»

mai 4, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Bíblia, Espiritualidade, Santa Sé

Comentário do Pe. Cantalamessa sobre a liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 2 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – sobre a Liturgia da Palavra do próximo domingo, Ascensão do Senhor.

* * *

Ascensão do Senhor

Atos 1, 1-11; Efésios 1, 17-23; Mateus 28, 16-20

«Por que ficais aqui parados, olhando para o céu?»

Na primeira leitura, um anjo diz aos discípulos: «Homens da Galiléia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu». É a ocasião para declarar-nos as idéias sobre o que entendemos por «céu». Em quase todos os povos, por céu se indica a morada da divindade. Também a Bíblia usa esta linguagem espacial: «Glória a Deus no alto céu e paz na terra aos homens».

Com a chegada da era científica, todos estes significados religiosos da palavra «céu» entraram em crise. O céu é o espaço no qual nosso planeta e todo o sistema solar se movem, e nada mais. Conhecemos a ocorrência atribuída a um astronauta soviético, ao regresso de sua viagem pelo cosmo: «Percorri o espaço e não encontrei Deus em lugar nenhum!».

Assim, é importante que tentemos esclarecer o que entendemos nós, cristãos, quando dizemos «Pai nosso que estais nos céus», ou quando dizemos que alguém «foi para o céu». A Bíblia se adapta, nestes casos, ao modo de falar popular (também o fazemos atualmente, na era científica, quando dizemos que o sol «sai» ou se «põe»); mas ela bem sabe e ensina que Deus «está no céu, na terra e em todo lugar», que é Ele quem «criou os céus», e se os criou não pode estar «fechado» neles. Que Deus esteja «nos céus» significa que «habita em uma luz inacessível»; que dista de nós «o quanto o céu se eleva sobre a terra».

Desta forma nós, os cristãos, concordamos em dizer que o céu, como lugar da morada de Deus, é mais um estado que um lugar. Quando se fala dele, não tem sentido algum dizer «no alto» ou «abaixo». Com isso não estamos afirmando que o paraíso não existe, mas só que para nós nos faltam as categorias para poder representá-lo. Peçamos a uma pessoa completamente cega de nascença que nos descreva o que são as cores: o vermelho, o verde, o azul… Não poderá dizer absolutamente nada, nem outro será capaz de explicar-lhe, pois as cores são percebidas com a visão. Assim acontece conosco com relação ao além e à vida eterna, que estão fora do espaço e do tempo.

À luz do que dissemos, o que significa proclamar que Jesus «subiu ao céu»? A resposta está no Credo: «Subiu aos céus, e está sentado à direita do Pai». Que Cristo tenha subido ao céu significa que «está sentado à direita do Pai», isto é, que também como homem entrou no mundo de Deus; que foi constituído, como diz São Paulo na segunda leitura, Senhor e cabeça de todas as coisas. Em nosso caso, «ir ao céu» ou «ao paraíso» significa ir para estar «com Cristo» (Fil 1, 23). Nosso verdadeiro céu é Cristo ressuscitado, com quem iremos encontrar-nos e formar um «corpo» depois de nossa ressurreição, e de modo provisório e imperfeito imediatamente depois da morte. Objeta-se às vezes que, contudo, ninguém voltou do além para assegurar-nos que ele existe de verdade e que não se trata de uma piedosa ilusão. Não é verdade! Há alguém que a cada dia, na Eucaristia, volta do além para dar-nos garantias e renovar suas promessas, se sabemos reconhecê-lo.

As palavras do anjo, «homens da Galiléia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu?», contêm também uma reprovação velada: não devem ficar olhando para o céu e especulando sobre o além, mas viver à espera do retorno [de Jesus], prosseguir sua missão, levar seu Evangelho até os confins da terra, melhorar a própria vida na terra. Ele subiu ao céu, mas sem deixar a terra. Só saiu de nosso campo visual. Precisamente na passagem evangélica Ele mesmo nos assegura: «Eis que eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo».


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André

abr 29, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Bíblia, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Vaticano
Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Nas últimas duas catequeses falámos da figura de São Pedro. Agora queremos, na medida em que as fontes o permitem, conhecer mais de perto também os outros onze Apóstolos. Portanto, falamos hoje do irmão de Simão Pedro, Santo André, também ele um dos Doze. A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, como teríamos pensado, mas grego, sinal de que não deve ser minimizada uma certa abertura cultural da sua família. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão bastante presentes. Nas listas dos Doze, André ocupa o segundo lugar, como em Mateus (10, 1-4) e em Lucas (6, 13-16), ou o quarto lugar como em Marcos (3, 13-18) e nos Actos (1, 13-14). Contudo, ele gozava certamente de grande prestígio nas primeiras comunidades cristãs.

O laço de sangue entre Pedro e André, assim como a comum chamada que Jesus lhes faz, sobressaem explicitamente nos Evangelhos. Neles lê-se: “Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu os dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens”" (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). Do Quarto Evangelho tiramos outro pormenor: num primeiro momento, André era discípulo de João Baptista; e isto mostra-nos que era um homem que procurava, que partilhava a esperança de Israel, que queria conhecer mais de perto a palavra do Senhor, a realidade do Senhor presente. Era verdadeiramente um homem de fé e de esperança; e certa vez, de João Baptista ouviu proclamar Jesus como “o cordeiro de Deus” (Jo 1, 36); então ele voltou-se e, juntamente com outro discípulo que não é nomeado, seguiu Jesus, Aquele que era chamado por João o “Cordeiro de Deus”. O evangelista narra: eles “viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia” (Jo 1, 37-39). Portanto, André viveu momentos preciosos de familiaridade com Jesus.

A narração continua com uma anotação significativa: “André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: “Encontramos o Messias” que quer dizer Cristo. E levou-o até Jesus” (Jo 1, 40-43), demonstrando imediatamente um espírito apostólico não comum. Portanto, André foi o primeiro dos Apóstolos a ser chamado para seguir Jesus. Precisamente sobre esta base a liturgia da Igreja Bizantina o honra com o apelativo de Protóklitos, que significa exactamente “primeiro chamado”. E não há dúvida de que devido ao relacionamento fraterno entre Pedro e André a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla se sentem irmãs entre si de modo especial. Para realçar este relacionamento, o meu Predecessor, o Papa Paulo VI, em 1964, restituiu as insignes relíquias de Santo André, até então conservadas na Basílica Vaticana, ao Bispo metropolita Ortodoxo da cidade de Patrasso na Grécia, onde segundo a tradição o Apóstolo foi crucificado.

As tradições evangélicas recordam particularmente o nome de André noutras três ocasiões, que nos fazem conhecer um pouco mais este homem. A primeira é a da multiplicação dos pães na Galileia. Naquele momento foi André quem assinalou a Jesus a presença de um jovem que tinha cinco pães de cevada e dois peixes: era muito pouco observou ele para todas as pessoas reunidas naquele lugar (cf. Jo 6, 8-9). Merece ser realçado, neste caso, o realismo de André: ele viu o jovem portanto já se tinha perguntado: “mas o que é isto para tantas pessoas?” (ibid.) mas apercebeu-se da insuficiência dos seus poucos recursos. Contudo, Jesus soube fazê-los bastar para a multidão de pessoas que vieram ouvi-lo. A segunda ocasião foi em Jerusalém. Saindo da cidade, um discípulo fez notar a Jesus o espectáculo dos muros sólidos sobre os quais o Templo se apoiava. A resposta do Mestre foi surpreendente: disse que não teria ficado em pé nem sequer uma pedra daqueles muros. Então André, juntamente com Pedro, Tiago e João, interrogou-o: “Diz-nos quando tudo isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar” (Mc 13, 1-4).

Para responder a esta pergunta Jesus pronunciou um importante discurso sobre a destruição de Jerusalém e sobre o fim do mundo, convidando os seus discípulos a ler com atenção os sinais do tempo e a permanecer sempre vigilantes. Podemos deduzir deste episódio que não devemos ter receio de fazer perguntas a Jesus, mas ao mesmo tempo devemos estar prontos para receber os ensinamentos, até surpreendentes e difíceis, que Ele nos oferece.

Por fim, nos Evangelhos está registrada uma terceira iniciativa de André. O Cenário ainda é Jerusalém, pouco antes da Paixão. Para a festa da Páscoa narra João tinham vindo à cidade santa alguns Gregos, provavelmente prosélitos ou tementes a Deus, que vinham para adorar o Deus de Israel na festa da Páscoa. André e Filipe, os dois apóstolos com nomes gregos, servem como intérpretes e mediadores deste pequeno grupo de Gregos junto de Jesus. A resposta do Senhor à sua pergunta parece como muitas vezes no Evangelho de João enigmática, mas precisamente por isso revela-se rica de significado. Jesus diz aos dois discípulos e, através deles, ao mundo grego: “Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (12, 23-24).

O que significam estas palavras neste contexto? Jesus quer dizer: sim, o encontro entre mim e os Gregos terá lugar, mas não como simples e breve diálogo entre mim e algumas pessoas, estimuladas sobretudo pela curiosidade. Com a minha morte, comparável à queda na terra de um grão de trigo, chagará a hora da minha glorificação. A minha morte na cruz originará grande fecundidade: o “grão de trigo morto” símbolo de mim crucificado tornar-se-á na ressurreição pão de vida para o mundo; será luz para os povos e para as culturas. Sim, o encontro com a alma grega, com o mundo grego, realizar-se-á naquela profundidade à qual faz alusão a vicissitude do grão de trigo que atrai para si as forças da terra e do céu e se torna pão. Por outras palavras, Jesus profetiza a Igreja dos gregos, a Igreja dos pagãos, a Igreja do mundo como fruto da sua Páscoa.

Tradições muito antigas vêem em André, o qual transmitiu aos gregos esta palavra, não só o intérprete de alguns Gregos no encontro com Jesus agora recordado, mas consideram-no como apóstolo dos Gregos nos anos que sucederam ao Pentecostes; fazem-nos saber que no restante da sua vida ele foi anunciador e intérprete de Jesus para o mundo grego. Pedro, seu irmão, de Jerusalém, passando por Antioquia, chegou a Roma para aí exercer a sua missão universal; André, ao contrário, foi o apóstolo do mundo grego: assim, eles são vistos, na vida e na morte, como verdadeiros irmãos uma irmandade que se exprime simbolicamente no relacionamento especial das Sedes de Roma e de Constantinopla, Igrejas verdadeiramente irmãs.

Uma tradição sucessiva, como foi mencionado, narra a morte de André em Patrasso, onde também ele sofreu o suplício da crucifixão. Mas, naquele momento supremo, de modo análogo ao do irmão Pedro, ele pediu para ser posto numa cruz diferente da de Jesus. No seu caso tratou-se de uma cruz decussada, isto é, cruzada transversalmente inclinada, que por isso foi chamada “cruz de Santo André”. Eis o que o Apóstolo dissera naquela ocasião, segundo uma antiga narração (início do século VI) intitulada Paixão de André: “Salve, ó Cruz, inaugurada por meio do corpo de Cristo e que se tornou adorno dos seus membros, como se fossem pérolas preciosas. Antes que o Senhor fosse elevado sobre ti, tu incutias um temor terreno.

Agora, ao contrário, dotada de um amor celeste, és recebida como um dom. Os crentes sabem, a teu respeito, quanta alegria possuis, quantos dons tens preparados. Portanto, certo e cheio de alegria venho a ti, para que também tu me recebas exultante como discípulo daquele que em ti foi suspenso… Ó Cruz bem-aventurada, que recebestes a majestade e a beleza dos membros do Senhor!… Toma-me e leva-me para longe dos homens e entrega-me ao meu Mestre, para que por teu intermédio me receba quem por ti me redimiu. Salve, ó Cruz; sim, salve verdadeiramente!”.

Como se vê, há aqui uma profundíssima espiritualidade cristã, que vê na Cruz não tanto um instrumento de tortura como, ao contrário, o meio incomparável de uma plena assimilação ao Redentor, ao grão de trigo que caiu na terra. Nós devemos aprender disto uma lição muito importante: as nossas cruzes adquirem valor se forem consideradas e aceites como parte da cruz de Cristo, se forem alcançadas pelo reflexo da sua luz. Só daquela Cruz também os nossos sofrimentos são nobilitados e adquirem o seu verdadeiro sentido.

Portanto, o apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf. Mt 4, 20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo d’Ele a quantos encontramos, e sobretudo a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que só n’Ele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte.


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