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Paulo de Tarso

mai 16, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Bíblia, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Vaticano
Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Concluímos as nossas reflexões sobre os doze Apóstolos chamados directamente por Jesus durante a sua vida terrena. Iniciamos hoje a aproximar as figuras de outras personagens importantes da Igreja primitiva. Também elas dedicaram a sua vida ao Senhor, ao Evangelho e à Igreja. Trata-se de homens, e também de mulheres que, como escreve Lucas no Livro dos Actos, “expuseram as suas vidas pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (15, 26).

O primeiro deles, chamado pelo próprio Senhor, pelo Ressuscitado, para ser também ele um verdadeiro Apóstolo, é sem dúvida Paulo de Tarso. Ele brilha como estrela de primeira grandeza na história da Igreja, e não só da primitiva. São João Crisóstomo exalta-o como personagem superior até a muitos anjos e arcanjos (cf. Panegirico, 7, 3). Dante Alighieri na Divina Comédia, inspirando-se na narração de Lucas feita nos Actos (cf. 9, 15), define-o simplesmente “vaso de eleição” (Inf. 2, 28), que significa: instrumento pré-escolhido por Deus. Outros chamaram-no o “décimo terceiro Apóstolo” e realmente ele insiste muito para ser um verdadeiro Apóstolo, tendo sido chamado pelo Ressuscitado ou até “o primeiro depois do Único”. Sem dúvida, depois de Jesus, ele é o personagem das origens sobre a qual estamos mais informados. De facto, possuímos não só a narração que dele faz Lucas nos Actos dos Apóstolos, mas também um grupo de Cartas que provêm directamente da sua mão e sem intermediários nos revelam a sua personalidade e o seu pensamento. Lucas informa-nos que o seu nome originário era Saulo (cf. Act 7, 58; 8, 1, etc.), aliás em hebraico Saul (cf. Act 9, 14.17; 22, 7.13; 26, 14), como o rei Saul (cf. Act 13, 21), e era um judeu da diáspora, estando a cidade de Tarso situada entre a Anatólia e a Síria. Tinha ido muito cedo a Jerusalém para estudar profundamente a Lei moisaica aos pés do grande Rabi Gamaliel (cf. Act 22, 3). Tinha aprendido também uma profissão manual e áspera, era fabricante de tendas (cf. Act 18, 3), que sucessivamente lhe permitiu sustentar-se pessoalmente sem pesar sobre as Igrejas (cf. Act 20, 34; 1 Cor 4, 12; 2 Cor 12, 13-14).

Para ele foi decisivo conhecer a comunidade dos que se professavam discípulos de Jesus. Por eles tinha sabido a notícia de uma nova fé um novo “caminho”, como se dizia que colocava no seu centro não tanto a Lei de Deus, quanto a pessoa de Jesus, crucificado e ressuscitado, com o qual estava relacionada a remissão dos pecados. Como judeu zeloso, ele considerava esta mensagem inaceitável, aliás escandalosa, e por isso sentiu o dever de perseguir os seguidores de Cristo também fora de Jerusalém. Foi precisamente no caminho para Damasco, no início dos anos 30, que Saulo, segundo as suas palavras, foi “alcançado por Cristo” (Fl 3, 12). Enquanto Lucas narra os factos com riqueza de pormenores de como a luz do Ressuscitado o alcançou e mudou fundamentalmente toda a sua vida ele nas suas Cartas vai directamente ao essencial e fala não só da visão (cf. 1 Cor 9, 1), mas de iluminação (cf. 2 Cor 4, 6) e sobretudo de revelação e de vocação no encontro com o Ressuscitado (cf. Gl 1, 15-16). De facto, definir-se-á explicitamente “apóstolo por vocação” (cf. Rm 1, 1; 1 Cor 1, 1) ou “apóstolo por vontade de Deus” (2 Cor 1, 1; Ef 1, 1; Col 1, 1), para realçar que a sua conversão não era o resultado de um desenvolvimento de pensamentos, de reflexões, mas o fruto de uma intervenção divina, de uma imprevisível graça divina. A partir daquele momento, tudo o que antes constituía para ele um valor tornou-se paradoxalmente, segundo as suas palavras, perda e lixo (cf. Fl 3, 7-10). A partir daquele momento todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Agora a sua existência será a de um Apóstolo desejoso de “se fazer tudo em todos” (1 Cor 9, 22) sem reservas.

Isto constitui para nós uma lição muito importante: o mais importante é colocar no centro da própria vida Jesus Cristo, de modo que a nossa identidade se distinga essencialmente pelo encontro, pela comunhão com Cristo e com a sua Palavra. À sua luz todos os outros valores são recuperados e ao mesmo tempo purificados de eventuais impurezas. Outra lição fundamental oferecida por Paulo é o alcance universal que caracteriza o seu apostolado. Vendo a agudeza do problema do acesso dos Gentios, isto é dos pagãos, a Deus, que em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado oferece a salvação a todos os homens sem excepções, dedicou-se totalmente a dar a conhecer este Evangelho, literalmente “boa notícia”, isto é, anúncio de graça destinado a reconciliar o homem com Deus, consigo mesmo e com os outros. Desde o primeiro momento ele tinha compreendido que esta era uma realidade que não dizia respeito só aos judeus ou a um certo grupo de homens, mas que tinha um valor universal e se referia a todos, porque Deus é o Deus de todos.

O ponto de partida para as suas viagens foi a Igreja de Antioquia da Síria, onde pela primeira vez o Evangelho foi anunciado aos Gregos e onde também foi cunhado o nome de “cristãos” (cf. Act 11, 20.26), isto é, de crentes em Cristo. Dali ele dirigiu-se primeiro para Chipre e depois várias vezes para as regiões da Ásia Menor (Pisídia, Licaónia, Galácia), depois para as da Europa (Macedónia, Grécia). Mais relevantes foram as cidades de Éfeso, Filipos, Tessalônica, Corinto, sem contudo esquecer Beréia, Atenas e Mileto.

No apostolado de Paulo não faltaram dificuldades, que ele enfrentou com coragem por amor de Cristo. Ele mesmo recorda ter agido “pelos trabalhos… pelas prisões… pelos açoites, pelos frequentes perigos de morte… três vezes fui açoitado com varas, uma vez apedrejado; três vezes naufraguei… viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus concidadãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre os falsos irmãos; trabalhos e fadigas, repetidas vigílias com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! E além de tudo isto, a minha obsessão de cada dia: cuidado de todas as Igrejas” (2 Cor 11, 23-28). De um trecho da Carta aos Romanos (cf. 15, 24.28) transparece o seu propósito de chegar até à Espanha, às extremidades do Ocidente, para anunciar o Evangelho em toda a parte, até aos confins da terra então conhecida. Como não admirar um homem como este? Como não agradecer ao Senhor por nos ter dado um Apóstolo desta estatura? É claro que não lhe teria sido possível enfrentar situações tão difíceis e por vezes desesperadas, se não tivesse havido uma razão de valor absoluto, perante a qual nenhum limite se podia considerar insuperável. Para Paulo, esta razão, sabemo-lo, é Jesus Cristo, do qual ele escreve: “O amor de Cristo nos impulsiona… para que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Cor 5, 14-15), por nós, por todos.

De facto, o Apóstolo dará o testemunho supremo do sangue sob o imperador Nero aqui em Roma, onde conservamos e veneramos os seus despojos mortais. Assim escreveu acerca dele Clemente Romano, meu predecessor nesta Sede Apostólica nos últimos anos do século I: “Por causa dos ciúmes e da discórdia Paulo foi obrigado a mostrar-nos como se obtém o prémio da paciência… Depois de ter pregado a justiça a todo o mundo, e depois de ter chegado até aos extremos confins do Ocidente, sofreu o martírio diante dos governantes; assim partiu deste mundo e chegou ao lugar sagrado, que com isso se tornou o maior modelo de perseverança” (Aos Coríntios, 5). O Senhor nos ajude a pôr em prática a exortação que nos foi deixada pelo Apóstolo nas suas Cartas: “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1 Cor 11, 1).

CRISTOCENTRISMO

Na catequese precedente, há quinze dias, procurei traçar os aspectos essenciais da biografia do apóstolo Paulo. Vimos como o encontro com Cristo pelo caminho de Damasco revolucionou literalmente a sua vida. Cristo tornou-se a sua razão de ser e o motivo profundo de todo o seu trabalho apostólico. Nas suas cartas, depois do nome de Deus, que aparece mais de 500 vezes, o nome que é mencionado com mais frequência é o de Cristo (380 vezes). Por conseguinte, é importante que nos apercebamos de quanto Jesus Cristo possa incidir na vida de um homem e portanto também na nossa própria vida. Na realidade, Jesus Cristo é o ápice da história salvífica e, desta forma, o verdadeiro ponto discriminante também no diálogo com as outras religiões.

Olhando para Paulo, poderíamos formular assim a pergunta fundamental: como acontece o encontro de um ser humano com Cristo? E em que consiste a relação que dele deriva? A resposta de Paulo pode ser compreendida em dois momentos. Em primeiro lugar, Paulo ajuda-nos a compreender o valor absolutamente fundante e insubstituível da fé. Eis quanto escreve na Carta aos Romanos: “Pois estamos convencidos de que é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da lei” (3, 28). E também na Carta aos Gálatas: “O homem não é justificado pelas obras da Lei, mas unicamente pela fé em Jesus Cristo; por isso, também nós acreditámos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da Lei; porque pelas obras da Lei nenhuma criatura será justificada” (2, 16). “Ser justificados” significa ser tornados justos, isto é, ser acolhidos pela justiça misericordiosa de Deus, e entrar em comunhão com Ele, e por conseguinte poder estabelecer uma relação muito mais autêntica com todos os nossos irmãos: e isto com base num perdão total dos nossos pecados. Pois bem, Paulo diz com muita clareza que esta condição de vida não depende das nossas eventuais boas obras, mas de uma mera graça de Deus: “Sem o merecerem, são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (Rm 3, 24).

Com estas palavras São Paulo expressa o conteúdo fundamental da sua conversão, o novo rumo da sua vida que resultou do seu encontro com Cristo ressuscitado. Paulo, antes da conversão, não tinha sido um homem afastado de Deus e da sua Lei. Ao contrário, era um observante, com uma observância fiel até ao fanatismo. Mas à luz do encontro com Cristo compreendeu que com isso tinha procurado edificar-se a si mesmo, à sua própria justiça, e que com toda essa justiça tinha vivido para si mesmo. Compreendeu que era absolutamente necessária uma nova orientação da sua vida. E encontramos expressa nas suas palavras esta nova orientação: “E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2, 20).

Por conseguinte, Paulo já não vive para si, para a sua própria justiça. Vive de Cristo e com Cristo: entregando-se a si mesmo, não mais procurando e construindo-se a si mesmo. Esta é a nova justiça, a nova orientação que o Senhor nos deu, que a fé nos deu. Diante da cruz de Cristo, expressão extrema da sua autodoação, não há ninguém que possa vangloriar-se a si, à própria justiça feita por si e para si! Noutra carta Paulo, fazendo eco a Jeremias, expressa este pensamento escrevendo: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1 Cor 1, 31 = Jr 9, 22s); ou: “Quanto a mim, porém, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6, 14).

Reflectindo sobre o significado de justificação não pelas obras mas pela fé, chegamos ao segundo aspecto que define a identidade cristã descrita por São Paulo na própria vida. Identidade cristã que se compõe precisamente por dois elementos: este não procurar-se por si, mas receber-se de Cristo e doar-se com Cristo, e desta forma participar pessoalmente na vicissitude do próprio Cristo, até se imergir n’Ele e partilhar quer a sua morte quer a sua vida. É quanto escreve Paulo na Carta aos Romanos: “fomos baptizados na sua morte… fomos sepultados com Ele na morte… estamos integrados n’Ele… Assim vós também: considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6, 3.4.5.11). Precisamente esta última expressão é sintomática: para Paulo, de facto, não é suficiente dizer que os cristãos são baptizados ou crentes; para ele é de igual modo importante dizer que eles são “em Cristo Jesus” (cf. também Rm 8, 1.2.39; 12, 5; 16, 3.7.10; 1 Cor 1, 2.3, etc.). Outras vezes ele inverte as palavras e escreve que “Cristo está em nós/vós” (Rm 8, 10; 2 Cor 13, 5) ou “em mim” (Gl 2, 20). Esta mútua compenetração entre Cristo e o cristão, característica do ensinamento de Paulo, completa o seu discurso sobre a fé. A fé, de facto, mesmo unindo-nos intimamente a Cristo, realça a distinção entre nós e Ele. Mas, segundo Paulo, a vida do cristão tem também um componente que poderíamos dizer “místico”, porque obriga a uma nossa identificação com Cristo e de Cristo connosco. Neste sentido, o Apóstolo chega até a qualificar os nossos sofrimentos como os “sofrimentos de Cristo em nós” (2 Cor 1, 5), de modo que “trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo” (2 Cor 4, 10).

Devemos inserir tudo isto na nossa vida quotidiana seguindo o exemplo de Paulo que viveu sempre com este grande alcance espiritual. Por um lado, a fé deve manter-nos numa atitude constante de humildade perante Deus, aliás, de adoração e de louvor em relação a ele. De facto, o que nós somos como cristãos devemo-lo unicamente a Ele e à sua graça. Dado que nada nem ninguém pode ocupar o seu lugar, é preciso portanto que não tributemos a nada nem a ninguém a homenagem que a Ele prestamos. Ídolo algum deve contaminar o nosso universo espiritual, porque neste caso, em vez de gozar da liberdade adquirida cairíamos de novo numa espécie de escravidão humilhante. Por outro lado, a nossa pertença radical a Cristo e o facto que “existimos n’Ele” deve infundir-nos uma atitude de total confiança e de imensa alegria. Para concluir, de facto, devemos exclamar com São Paulo:”Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?” (Rm 8, 31). E a resposta é que ninguém “poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso” (Rm 8, 39). Por conseguinte, a nossa vida cristã baseia-se na rocha mais estável e segura que se possa imaginar. E dela tiramos toda a nossa energia, como escreve precisamente o Apóstolo: “De tudo sou capaz naquele que me dá força” (Fl 4, 13).

Enfrentemos portanto a nossa existência, com as suas alegrias e com os seus sofrimentos, amparados por estes grandes sentimentos que Paulo nos oferece. Fazendo deles experiência poderemos compreender como é verdadeiro o que o próprio Apóstolo escreve: “sei em quem acredito e estou persuadido de que Ele tem poder para guardar, até aquele dia, o bem que me foi confiado” (2 Tm 1, 12) do nosso encontro com Cristo Juiz, Salvador do mundo e nosso.

O ESPÍRITO SANTO

Também hoje, como nas duas catequeses precedentes, voltamos a São Paulo e ao seu pensamento. Estamos diante de um gigante não só a nível do apóstolo concreto, mas também da doutrina teológica, extraordinariamente profunda e estimulante. Depois de ter meditado na semana passada sobre o que Paulo escreveu acerca do lugar central que Jesus Cristo ocupa na nossa vida de fé, vemos hoje o que ele diz sobre o Espírito Santo e sobre a sua presença em nós, porque também aqui o Apóstolo tem algo muito importante para nos ensinar.

Conhecemos o que São Lucas nos diz do Espírito Santo nos Actos dos Apóstolos, descrevendo o evento do Pentecostes. O Espírito pentecostal traz consigo um vigoroso estímulo a assumir um compromisso da missão para testemunhar o Evangelho pelos caminhos do mundo. De facto, o Livro dos Actos narra uma série de missões realizadas pelos Apóstolos, primeiro na Samaria, depois ao longo da Palestina, e depois, em direcção à Síria. São narradas sobretudo as três grandes viagens missionárias realizadas por Paulo, como já recordei num precedente encontro de quarta-feira. Mas São Paulo, nas suas Cartas fala-nos do Espírito também sob outra perspectiva.

Ele não se detém a ilustrar apenas a dimensão dinâmica e operativa da terceira Pessoa da Santíssima Trindade, mas analisa também a presença na vida do cristão, cuja identidade é marcada por ele. Em outras palavras, Paulo reflecte sobre o Espírito expondo a sua influência não só no agir do cristão, mas também no seu ser. De facto, ele diz que o Espírito de Deus habita em nós (cf. Rm 8, 9; 1 Cor 3, 16) e que “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho” (Gl 4, 6).

Portanto, para Paulo o Espírito conota-nos até às nossas profundezas pessoais mais íntimas. Em relação a isto, eis algumas das suas palavras de importante significado: “A lei do Espírito que dá a vida libertou-te, em Cristo Jesus, da lei do pecado e da morte… Vós não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamámos: Abbá, ó Pai!” (Rm 8, 2.15), porque somos filhos, podemos chamar “Pai” a Deus. Portanto, vemos bem que o cristão, ainda antes de agir, já possui uma interioridade rica e fecunda, que lhe é concedida nos sacramentos do Baptismo e da Confirmação, uma interioridade que o estabelece num relacionamento objectivo e original de filiação em relação a Deus.

Eis a nossa grande dignidade: a de não ser apenas imagem, mas filhos de Deus. Trata-se de um convite a viver esta nossa filiação, a estarmos cada vez mais conscientes de que somos filhos adoptivos na grande família de Deus. É um convite a transformar este dom objectivo numa realidade subjectiva, determinante para o nosso pensar, para o nosso agir, para o nosso ser. Deus considera-nos seus filhos, tendo-nos elevado a uma tal dignidade, mesmo se não é igual, à do próprio Jesus, o único Filho em sentido pleno. Nele é-nos dada, ou restituída, a condição filial e a liberdade confiante em relação ao Pai.

Assim descobrimos que para o cristão o Espírito já não é apenas o “Espírito de Deus”, como se diz normalmente no Antigo Testamento e se continua a repetir na linguagem cristã (cf. Gn 41, 38; Êx 31, 3; 1 Cor 2, 11.12; Fl 3, 3; etc.). E também não é apenas um “Espírito Santo” entendido em sentido genérico, segundo o modo de expressar-se do Antigo Testamento (cf. Is 63,10.11; Sl 51, 13), e do próprio Judaísmo nos seu escritos (Qunram, rabinismo).

De facto, pertence à especificidade da fé cristã a confissão de uma original partilha deste Espírito por parte do Senhor ressuscitado, o qual se tornou Ele mesmo “Espírito que dá vida” (1 Cor 15, 45). Precisamente por isso São Paulo fala directamente do “Espírito de Cristo” (Rm 8, 9), do “Espírito do Filho” (Gl 4, 6) ou do “Espírito de Jesus Cristo” (Fl 1, 19). É como se quisesse dizer que não só Deus Pai é visível no Filho (cf. Jo 14, 9), mas que também o Espírito de Deus se expressa na vida e nas acções do Senhor crucificado e ressuscitado!

Paulo ensina-nos também outra coisa importante: ele diz que não existe verdadeira oração sem a presença do Espírito em nós. De facto, escreve: “O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir como é verdade que não sabemos como falar com Deus! ; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que examina os corações conhece as intenções do Espírito, porque é de acordo com Deus que o Espírito intercede pelos santos” (Rm 8, 26-27). É como dizer que o Espírito Santo, isto é, o Espírito do Pai e do Filho, é como a alma da nossa alma, a parte mais secreta do nosso ser, de onde se eleva incessantemente a Deus um dístico de oração, da qual nem sequer podemos esclarecer as palavras.

De facto, o Espírito sempre activo em nós, supre às nossas carências e oferece ao Pai a nossa adoração, juntamente com as nossas aspirações mais profundas. Naturalmente isto exige um nível de maior comunhão vital com o Espírito. É um convite a ser cada vez mais sensíveis, mais atentos a esta presença do Espírito em nós, a transformá-la em oração, a ouvir esta presença e a aprender assim a rezar, a falar com o Pai como filhos no Espírito Santo.

Há também outro aspecto típico do Espírito que nos foi ensinado por São Paulo: é a sua ligação com o amor. De facto, São Paulo escreve: “A esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5). Na minha Carta encíclica “Deus caritas est” citei uma frase muito eloquente de Santo Agostinho: “Se vês a caridade, vês a Trindade” (n. 19), e prossegui explicando: “O Espírito é aquela força que harmoniza seus corações [dos crentes] com o coração de Cristo e leva-os a amar os irmãos como Ele os amou” (ibid.). O Espírito insere-nos no próprio ritmo da vida divina, que é vida de amor, fazendo-nos pessoalmente partícipes dos relacionamentos existentes entre o Pai e o Filho. Não é sem significado que Paulo, quando elenca as várias componentes da frutificação do Espírito, coloque em primeiro lugar o amor: “O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, etc.” (cf. Gl 5, 22).

E dado que por definição o amor une, isto significa antes de tudo que o Espírito é criador de comunhão no âmbito da comunidade cristã, como dizemos no início da Santa Missa com uma expressão paulina: “… a comunhão do Espírito Santo [ou seja, a que é realizada por ele] esteja com todos vós!” (2 Cor 13, 13). Mas, por outro lado, é também verdade que o Espírito nos estimula a estabelecer relacionamentos de caridade com todos os homens. Dado que, quando amamos damos espaço ao Espírito, permitimos que se expresse em plenitude. Compreende-se assim por que Paulo coloca na mesma página da Carta aos Romanos as duas exortações: “deixai-vos inflamar pelo Espírito” e “não pagueis a ninguém o mal com o mal” (Rm 12, 11.17).

Por fim, o Espírito segundo São Paulo é um penhor generoso que nos é dado pelo próprio Deus como antecipação e ao mesmo tempo como garantia da nossa herança futura (cf. 2 Cor 1, 22; 5, 5 Ef 1, 13-14). Aprendemos assim de Paulo que a acção do Espírito orienta a nossa vida para os grandes valores do amor, da alegria, da comunhão e da esperança. Compete a nós fazer deles experiência quotidiana acompanhadas pelas sugestões interiores do Espírito, ajudados no discernimento pela orientação iluminadora do Apóstolo.

A VIDA NA IGREJA

Completamos hoje os nossos encontros com o apóstolo Paulo, dedicando-lhe uma última reflexão. De facto, não podemos despedir-nos dele, sem considerar uma das componentes decisivas da sua actividade e um dos temas mais importantes do seu pensamento: a realidade da Igreja. Devemos antes de tudo constatar que o seu primeiro contacto com a pessoa de Jesus se realiza através do testemunho da comunidade cristã de Jerusalém. Foi um contacto conturbado. Tendo conhecido o novo grupo de crentes, ele tornou-se imediatamente um seu orgulhoso perseguidor. Ele mesmo o reconhece nas suas três Cartas: “Persegui a Igreja de Deus”, escreve (1 Cor 15, 9; Gl 1, 13; Fl 3, 6), quase como a apresentar este seu comportamento como o pior dos crimes.

A história mostra-nos que se alcança normalmente Jesus através da Igreja! Num certo sentido, isto verificou-se, dizíamos, também para Paulo, o qual encontrou a Igreja antes de encontrar Jesus.

Mas este contacto, no seu caso, foi contraproducente, não causou a adesão, mas uma violenta repulsa. Para Paulo, a adesão à Igreja foi propiciada por uma intervenção directa de Cristo, o qual, tendo-se-lhe revelado no caminho de Damasco, se identificou com a Igreja e lhe fez compreender que perseguir a Igreja era perseguir o Senhor. De facto, o Ressuscitado disse a Paulo, o perseguidor da Igreja: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Act 9, 4). Perseguindo a Igreja, perseguia Cristo. Então Paulo converteu-se, ao mesmo tempo, a Cristo e à Igreja. Disto compreende-se depois porque a Igreja tenha estado tão presente nos pensamentos, no coração e na actividade de Paulo. Em primeiro lugar, porque ele fundou literalmente muitas Igrejas nas várias cidades onde foi para evangelizar. Quando fala da sua “solicitude por todas as Igrejas” (2 Cor 11, 28), ele pensa nas várias comunidades cristãs suscitadas de cada vez na Galácia, na Iónia, na Macedónia e na Acaia. Algumas daquelas Igrejas também lhe deram preocupações e desgostos, como aconteceu por exemplo nas Igrejas da Galácia, que ele viu seguir “outro Evangelho” (Gl 1, 6), ao que se opôs com firme determinação. Contudo ele sentia-se ligado às Comunidades por ele fundadas de maneira não fria nem burocrática, mas intensa e apaixonada. Assim, por exemplo, define os Filipenses “meus caríssimos e saudosos irmãos, minha coroa e alegria” (4, 1). Outras vezes compara as várias Comunidades com uma carta de apresentação única no seu género: “A nossa carta sois vós, uma carta escrita nos nossos corações, conhecida e lida por todos os homens” (2 Cor 3, 2). Outras vezes ainda mostra em relação a eles um verdadeiro sentimento não só de paternidade mas até de maternidade, como quando se dirige aos seus destinatários interpelando-os como “Meus filhos, por quem sinto outra vez as dores de parto, até que Cristo se forme entre vós!” (Gl 4, 19; cf. também 1 Cor 4, 14-15; 1 Ts 2, 7-8).

Nas suas Cartas Paulo ilustra-nos a sua doutrina sobre a Igreja como tal. Portanto, é muito conhecida a sua original definição da Igreja como “corpo de Cristo”, que não encontramos noutros autores cristãos do I século (cf. 1 Cor 12, 27: Ef 4, 12; 5, 30; Cl 1, 24). A raiz mais profunda desta surpreendente designação da Igreja encontrámo-la no Sacramento do corpo de Cristo. Diz São Paulo: “Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1 Cor 10, 17). Na mesma Eucaristia Cristo dá-nos o seu Corpo e faz-nos seu Corpo. Neste sentido São Paulo diz aos Gálatas: “todos sois um em Cristo” (Gl 3, 28). Com tudo isto Paulo faz-nos compreender que existe não só uma pertença da Igreja a Cristo, mas também uma certa forma de equiparação e de identificação da Igreja com o próprio Cristo. Portanto, é daqui que deriva a grandeza e a nobreza da Igreja, ou seja, de todos nós que a ela pertencemos por sermos membros de Cristo, quase uma extensão da sua presença pessoal no mundo. E daqui se origina, naturalmente, o nosso dever de viver realmente em conformidade com Cristo. Daqui derivam também as exortações de Paulo a propósito dos vários carismas que animam e estruturam a comunidade cristã. Todos eles reconduzem a uma única fonte, que é o Espírito do Pai e do Filho, sabendo bem que na Igreja ninguém está desprovido dele, porque, como escreve o Apóstolo, “a cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum” (1 Cor 12, 7). Mas é importante que todos os carismas cooperem juntos na edificação da comunidade e não se tornem ao contrário motivo de dilaceração. A este propósito, Paulo pergunta rectoricamente: “Estará Cristo dividido?” (1 Cor 1, 13). Ele sabe bem e ensina-nos que é necessário “manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim como a vossa vocação vos chamou a uma só esperança” (Ef 4, 3-4).

Sem dúvida, realçar a exigência da unidade não significa afirmar que se deva uniformizar ou nivelar a vida eclesial segundo um único modo de agir. Noutro texto Paulo ensina a “não apagar o Espírito” (1 Ts 5, 19), isto é, a dar generosamente espaço ao dinamismo imprevisível das manifestações carismáticas do Espírito, o qual é fonte de energia e de vitalidade sempre nova. Mas se há um critério do qual Paulo não prescinde é a mútua edificação: “que tudo se faça de modo a edificar” (1 Cor 14, 26). Tudo deve concorrer para construir ordenadamente o tecido eclesial, não só sem estagnação, mas também sem fugas ou excepções. Depois, há outra Carta paulina que chega a apresentar a Igreja como esposa de Cristo (cf. Ef 5, 21-33). Com isto retoma-se uma antiga metáfora profética, que fazia do povo de Israel a esposa do Deus da aliança (cf. Os 2, 4.21; Is 54, 5-8): com isto pretende-se dizer quanto sejam íntimas as relações entre Cristo e a sua Igreja, quer no sentido de que ela é objecto do amor mais terno da parte do seu Senhor, quer também no sentido de que o amor deve ser recíproco e que, por conseguinte também nós, como membros da Igreja, devemos demonstrar fidelidade apaixonada em relação a Ele.

Definitivamente, está em jogo a relação de comunhão: a vertical entre Jesus Cristo e todos nós, e também a horizontal entre todos os que se distinguem no mundo pelo facto de “invocar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 1, 2). Esta é a nossa definição: nós pertencemos àqueles que invocam o nome do Senhor Jesus Cristo. Portanto compreende-se bem quanto seja desejável que se realize o que o próprio Paulo deseja ao escrever aos Coríntios: “Mas se todos começarem a profetizar e entrar ali um descrente qualquer ou simples ouvinte, há-de sentir-se tocado por todos, julgado por todos; os segredos do seu coração serão desvendados e, prostrando-se com o rosto por terra, adorará a Deus, proclamando que Deus está realmente no meio de vós” (1 Cor 24-25). Assim deveriam ser os nossos encontros litúrgicos. Um não cristão que entra numa assembleia nossa, no final deveria poder dizer: “Verdadeiramente Deus está convosco”. Peçamos ao Senhor que sejamos assim, em comunhão com Cristo e em comunhão entre nós.


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Patriarca Karekin II: Igreja católica e armênia juntas pelos direitos humanos

mai 10, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Igreja, Santa Sé

Ressurge a Igreja apostólica da primeira nação cristã da história

Por Mirko Testa

ROMA, sexta-feira, 9 de maio de 2008 (ZENIT.org).- A Igreja católica e a armênia, ainda que não tenham conseguido a unidade plena, têm o dever de unir cada vez mais seus esforços em defesa dos direitos humanos e da paz, disse nesta sexta-feira Sua Santidade Karekin II, patriarca supremo e catholicos de todos os armênios.

Em uma coletiva de imprensa, celebrada em Roma na sede da «Rádio Vaticano», poucas horas depois de ter sido recebido em audiência por Bento XVI, o chefe da Igreja Armênia sublinhou o ótimo estado de saúde das relações entre as duas Igrejas.

Lendo uma mensagem em inglês aos jornalistas presentes, o patriarca repassou brevemente a historia da Armênia, o primeiro país oficialmente cristão da história, e o primeiro em ter padecido um genocídio moderno no século XX, entre 1915 e 1922, nas mãos dos turcos.

Segundo algumas fontes, fala-se de um milhão e meio de vítimas, de dois milhões de deportados e de mais de 500 mil pessoas que tiveram que abandonar sua terra para fugir ao exterior.

Logo seu país experimentou a perseguição religiosa comunista em tempos da União Soviética, recuperando a independência em 1991, após a queda da cortina de ferro.

O catholicos considera que as relações entre católicos e cristãos armênios se encontram em um momento único na história.

«Esta visita minha acontece para reforçar a cálida atmosfera de amor e respeito que se formou entre nossas duas Igrejas.»

«O amor recebido de nosso Senhor Jesus Cristo traz muito fruto no campo do ecumenismo hoje. Fiéis aos pais da Igreja e à sua herança, apesar de nossas diferenças e características únicas, devemos dar mais importância ao que nos une.»

Nestes tempos de rápidas mudanças políticas, sociais e econômicas, amplificados pela globalização, acrescentou, «a consolidação de esforços e o trabalho em comum são um imperativo para as Igrejas cristãs».

«Só através da cooperação seremos capazes de servir melhor ao estabelecimento da paz no mundo e a uma melhor defesa dos direitos humanos, dos direitos das nações, das famílias, e das classes sociais que correm maior riscos.»

«A transfiguração da vida através dos valores do Evangelho deve ser nossa senda para a criação de um mundo próspero e virtuoso», concluiu.

A Igreja Apostólica Armênia faz parte das Igrejas chamadas com freqüência «do antigo oriente cristão», ou também «ortodoxas orientais», que se separaram de Roma e do resto do oriente cristão no Concílio de Calcedônia (ano 451). Fazem parte deste grupo além da Igreja copta, a etíope, a assíria, jacobita, e malankar.

Os apóstolos Tadeu e Bartolomeu prepararam o terreno para a conversão da Armênia ao cristianismo que aconteceu no ano 301, convertendo-se na primeira nação que adotou oficialmente a fé cristã como religião do Estado.

Um século depois, o monge Mesrop Mastoc inventou o alfabeto armênio para poder traduzir a Bíblia.


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Tomé

mai 8, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Bíblia, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Vaticano
Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Prosseguindo os nossos encontros com os doze Apóstolos escolhidos directamente por Jesus, hoje dedicamos a nossa atenção a Tomé. Sempre presente nas quatro listas contempladas pelo Novo Testamento, ele, nos primeiros três Evangelhos, é colocado ao lado de Mateus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15), enquanto nos Actos está próximo de Filipe (cf. Act 1, 13). O seu nome deriva de uma raiz hebraica, ta’am, que significa “junto”, “gémeo”. De facto, o Evangelho chama-o várias vezes com o sobrenome de “Dídimo” (cf. Jo 11, 16; 20, 24; 21, 2), que em grego significa precisamente “gémeo”. Não é claro o porquê deste apelativo.

Sobretudo o Quarto Evangelho oferece-nos informações que reproduzem alguns traços significativos da sua personalidade. O primeiro refere-se à exortação, que ele fez aos outros Apóstolos, quando Jesus, num momento crítico da sua vida, decidiu ir a Betânia para ressuscitar Lázaro, aproximando-se assim perigosamente de Jerusalém (cf. Mc 10, 32). Naquela ocasião Tomé disse aos seus condiscípulos: “Vamos nós também, para morrermos com Ele” (Jo 11, 16).

Esta sua determinação em seguir o Mestre é deveras exemplar e oferece-nos um precioso ensinamento: revela a disponibilidade total a aderir a Jesus, até identificar o próprio destino com o d’Ele e querer partilhar com Ele a prova suprema da morte. De facto, o mais importante é nunca separar-se de Jesus. Por outro lado, quando os Evangelhos usam o verbo “seguir” é para significar que para onde Ele se dirige, para lá deve ir também o seu discípulo. Deste modo, a vida cristã define-se como uma vida com Jesus Cristo, uma vida a ser transcorrida juntamente com Ele. São Paulo escreve algo semelhante, quando tranquiliza os cristãos de Corinto com estas palavras: “estais no nosso coração para a vida e para a morte” (2 Cor 7, 3). O que se verifica entre o Apóstolo e os seus cristãos deve, obviamente, valer antes de tudo para a relação entre os cristãos e o próprio Jesus: morrer juntos, viver juntos, estar no seu coração como Ele está no nosso.

Uma segunda intervenção de Tomé está registada na Última Ceia. Naquela ocasião Jesus, predizendo a sua partida iminente, anuncia que vai preparar um lugar para os discípulos para que também eles estejam onde Ele estiver; e esclarece: “E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho” (Jo 14, 4). É então que Tomé intervém e diz: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?” (Jo 14, 5). Na realidade, com esta expressão ele coloca-se a um nível de compreensão bastante baixo; mas estas suas palavras fornecem a Jesus a ocasião para pronunciar a célebre definição: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Portanto, Tomé é o primeiro a quem é feita esta revelação, mas ela é válida também para todos nós e para sempre. Todas as vezes que ouvimos ou lemos estas palavras, podemos colocar-nos com o pensamento ao lado de Tomé e imaginar que o Senhor fala também connosco como falou com ele.

Ao mesmo tempo, a sua pergunta confere também a nós o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Com frequência nós não o compreendemos. Temos a coragem para dizer: não te compreendo, Senhor, ouve-me, ajuda-me a compreender. Desta forma, com esta franqueza que é o verdadeiro modo de rezar, de falar com Jesus, exprimimos a insuficiência da nossa capacidade de compreender, ao mesmo tempo colocamo-nos na atitude confiante de quem espera luz e força de quem é capaz de as doar.

Depois, muito conhecida e até proverbial é a cena de Tomé incrédulo, que aconteceu oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, ele não tinha acreditado em Jesus que apareceu na sua ausência, e dissera: “Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito” (Jo 20, 25). No fundo, destas palavras sobressai a convicção de que Jesus já é reconhecível não tanto pelo rosto quanto pelas chagas. Tomé considera que os sinais qualificadores da identidade de Jesus são agora sobretudo as chagas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisto o Apóstolo não se engana. Como sabemos, oito dias depois Jesus aparece no meio dos seus discípulos, e desta vez Tomé está presente. E Jesus interpela-o: “Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!” (Jo 20, 27). Tomé reage com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28). A este propósito, Santo Agostinho comenta: Tomé via e tocava o homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via nem tocava. Mas o que via e tocava levava-o a crer naquilo de que até àquele momento tinha duvidado” (In Iohann. 121, 5). O evangelista prossegue com uma última palavra de Jesus a Tomé: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que, sem terem visto, crerão” (cf. Jo 20, 29). Esta frase também se pode conjugar no presente; “Bem-aventurados os que crêem sem terem visto”.

Contudo, aqui Jesus enuncia um princípio fundamental para os cristãos que virão depois de Tomé, portanto para todos nós. É interessante observar como o grande teólogo medieval Tomás de Aquino, compara com esta fórmula de bem-aventurança aquela aparentemente oposta citada por Lucas: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver” (Lc 10, 23). Mas o Aquinate comenta: “Merece muito mais quem crê sem ver do que quem crê porque vê” (In Johann. XX lectio VI 2566). De facto, a Carta aos Hebreus, recordando toda a série dos antigos Patriarcas bíblicos, que acreditaram em Deus sem ver o cumprimento das suas promessas, define a fé como “fundamento das coisas que se esperam e comprovação das que não se vêem” (11, 1). O caso do Apóstolo Tomé é importante para nós pelo menos por três motivos: primeiro, porque nos conforta nas nossas inseguranças; segundo porque nos demonstra que qualquer dúvida pode levar a um êxito luminoso além de qualquer incerteza; e por fim, porque as palavras dirigidas a ele por Jesus nos recordam o verdadeiro sentido da fé madura e nos encorajam a prosseguir, apesar das dificuldades, pelo nosso caminho de adesão a Ele.

Uma última anotação sobre Tomé é-nos conservada no Quarto Evangelho, que o apresenta como testemunha do Ressuscitado no momento seguinte à pesca milagrosa no Lago de Tiberíades (cf. Jo 21, 2). Naquela ocasião ele é mencionado inclusivamente logo depois de Simão Pedro: sinal evidente da grande importância de que gozava no âmbito das primeiras comunidades cristãs. Com efeito, em seu nome foram escritos depois os Actos e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos mas contudo importantes para o estudo das origens cristãs. Por fim recordamos que segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assim refere já Orígenes, citado por Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. 3, 1) depois foi até à Índia ocidental (cf. Actos de Tomé 1-2 e 17ss.), de onde enfim alcançou também a Índia meridional. Nesta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão, expressando votos de que o exemplo de Tomé corrobore cada vez mais a nossa fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.


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Conversão de Paulo é exemplo de encontro com Cristo, diz arcebispo

abr 12, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Espiritualidade, Igreja

Dom Geraldo Lyrio Rocha presidiu missa de encerramento de assembléia da CNBB

Por Alexandre Ribeiro

INDAIATUBA, sexta-feira, 11 de abril de 2008 (ZENIT.org).- A narração da conversão de Paulo é exemplo de encontro com Cristo e remete à Conferência de Aparecida e suas indicações sobre discípulos e missionários, afirma o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Na missa de encerramento da 46ª Assembléia Geral do episcopado, esta manhã, Dom Geraldo Lyrio Rocha, no contexto da primeira leitura (At 9, 1-20), explicou que «o sempre comovente relato da conversão de Paulo» se constrói em dois pólos.

Primeiro, «o diálogo da aparição» e, conseqüentemente, «a missão confiada àquele que de perseguidor dos cristãos se torna ‘um instrumento escolhido para levar o nome de Jesus aos pagãos, aos reis e ao povo de Israel’».

Segundo o arcebispo de Mariana (Minas Gerais), no caminho de Damasco, Saulo «reconhece Jesus de Nazaré e descobre a identidade entre Jesus que agora encontrou e os cristãos que tanto havia perseguido».

«Revela-se a Paulo o mistério de Cristo Cabeça e seu corpo que é a Igreja. Esse duplo reconhecimento é que vai motivar Paulo para a urgência da missão: “Depois de passar alguns dias com os discípulos em Damasco, ele logo começou a pregar nas sinagogas, afirmando que Jesus é Filho de Deus”.»

De acordo com Dom Geraldo Lyrio, a narração da conversão de Saulo traz consigo a apresentação de sua vocação apostólica.

«Como os demais Apóstolos também Paulo viu o Ressuscitado e foi por ele enviado a pregar.»

Entretanto –prossegue o arcebispo–, de acordo com a narração de Lucas, «o chamado que Cristo dirigiu a Saulo deveria ser ratificado pela Igreja. Cristo manda Paulo à Igreja que, por Ananias, o batiza e lhe abre os olhos».

«A experiência do encontro pessoal com o Ressuscitado transformou Saulo em discípulo e missionário de Jesus Cristo», afirma.

Ao recordar que «essa verdade logo nos remete à Conferência de Aparecida», o arcebispo lembrou que o esforço da 46ª assembléia plenária da CNBB foi justamente traduzir as reflexões da Quinta Conferência em indicações pastorais concretas para o país, tendo como eixo central «o acontecimento de Cristo».


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Por Robert A. Sungenis
Tradução: Carlos Martins Nabeto
Fonte: http://www.catholicintl.com/

Os pesquisadores críticos costumam a afirmar que Jesus provavelmente nasceu no ano 6 a.C. ou talvez até antes. Tal afirmação se baseia na informação fornecida por Flávio Josefo, de que Herodes morreu no ano 4 a.C. Considerando que Herodes teria ordenado matar as criancinhas de até dois anos de idade, isto levaria alguém a conjecturar que o nascimento de Cristo se deu entre os anos 5 e 6 a.C.

As obras de Josefo que nos interessam aqui são “A Guerra Judaica” e “Antiguidades Judaicas”, as quais compreendem o período que vai de 170 a.C a 70 d.C. Embora muitos pesquisadores confiem totalmente em Josefo, suas obras contêm muitos erros e discrepâncias, que podem ser atribuídas ao próprio Josefo, ou ainda pelo fato de que na Idade Média existiaram dúzias de manuscritos das suas obras, cada uma diferenciando significativamente das demais. De fato, um artigo sobre Josefo na “Grande Encyclopédie” de Ladmirault (publicada em Paris, em 1893) afirmava que ele era “orgulhoso, arrogante e pretencioso; alguém que falsificava a história em vantagem própria e que tratava os eventos muitas vezes de forma inadequada”. Várias edições críticas das obras de Josefo foram publicadas a partir de então (p.ex.: Niese, 1881; Reinach 1902-1932). Reinach chega a acrescentar comentários nos relatos de Josefo tais como “isto é um erro” ou “em outro livro…as coisas são diferentes…”[1]

Graças ao trabalho de Hughes de Nateuil, descobrimos que os críticos modernos estão equivocados. Pouco conhecido (ou divulgado) pelos pesquisadores modernos é que Josefo usou duas formas diferentes para datar a morte de Herodes e a interpretação da fonte que aponta o ano 4 a.C. é extremamente discutível. Em outra obra, ele chega a afirmar que Herodes morreu em 7 ou 8 a.C.

Por outro lado, no ano 532 o monge Dionísio, o Exíguo, declarou que Cristo havia nascido em 25 de dezembro do ano 1 a.C. Ele também estabeleceu que o ano 1 d.C. correspondia ao ano 754 da fundação de Roma.

Para compreendermos este sistema de datação, precisaremos retornar para a era pré-cristã. Nessa época existiam dois sistemas de datação: (more…)


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É preciso apresentar Jesus Cristo como modelo e referência aos jovens

out 23, 2006 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Bíblia, Igreja, Mundo

Igreja no Brasil celebra Dia Nacional da Juventude

SÃO PAULO, domingo, 22 de outubro de 2006 (ZENIT.org).- Os jovens buscam modelos e referências. Essa busca é uma grande oportunidade de colocá-los em contato com o modelo supremo, Jesus Cristo.

Essa é umas das linhas de orientação que se desprendem do estudo “Evangelização da Juventude”, texto escrito a partir das discussões da 44ª Assembléia Geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), realizada em Itaici (São Paulo), de 9 a 17 de maio de 2006.

Antes de se tornar um documento oficial, este texto, impresso pela Editora Paulus, circula na comunidade eclesial, especialmente entre os jovens, para passar por uma reflexão mais aprofundada e ampliada.

As orientações da CNBB para a evangelização da juventude ganham voz especial neste domingo, ocasião em que a Igreja no Brasil celebra justamente o Dia Nacional da Juventude.

O texto do organismo episcopal afirma que, com criatividade pastoral, «é importante apresentar Jesus Cristo dentro do contexto em que o jovem vive hoje e como resposta às suas angústias e aspirações mais profundas».

«Um Jesus que caminha com o jovem, como caminhava com os discípulos de Emaús, escutando, dialogando e orientando.»

O próprio texto da CNBB lança luzes sobre o contexto de incertezas e dificuldades em que vive o jovem hoje no Brasil.

O recenseamento geral da população feito em 2000 revelava que no Brasil havia 34 milhões de jovens, considerando a faixa etária entre 15 e 24 anos. O número se elevava a 47 milhões de jovens se se considerasse também a faixa dos 25 aos 30 anos de idade.

Segundo afirma o estudo da CNBB, «a maioria dos 34 milhões de jovens brasileiros representa um dos segmentos populacionais mais fortemente atingidos pelos mecanismos de exclusão social».

O censo de 2000 revelava que a maioria dos jovens brasileiros, 56,7%, vivia em famílias que tinham uma renda per capita mensal menor do que um salário mínimo (pouco menos de 170 dólares americanos hoje). Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelam que o desemprego atinge cerca de 20% dos jovens.

O texto da CNBB afirma que, entre os principais problemas que os jovens enfrentam hoje, estão a disparidade de renda, o acesso restrito à educação de qualidade e frágeis condições para a permanência nos sistemas escolares, o desemprego e a inserção no mercado de trabalho.

Há ainda o envolvimento com drogas lícitas (álcool, tabaco) e ilícitas, a gravidez na adolescência, a violência no campo e na cidade, a intensa migração, as mortes por causas externas (homicídio, acidentes de trânsito e suicídio), o limitado acesso às atividades esportivas, lúdicas e culturais.

Diante de todo esse quadro de adversidades é que o episcopado propõe a formação do jovem que seja discípulo de Jesus, pois o «discípulo se compromete com coerência de vida e ação na transformação dos sistemas políticos, econômicos, trabalhistas, culturais e sociais que mantêm na miséria espiritual e material milhões de pessoas em nosso continente».

O jovem, recorda o episcopado, é convidado por Jesus, assim como todo cristão, a ser discípulo. «O convite é pessoal: Vem e segue-me (Lc 18,22).»

E «quem se torna discípulo de Jesus transforma-se em portador de sua mensagem», ou seja, em missionário de seu amor.

«O encontro com Jesus não é algo abstrato. É necessário mostrar aos jovens os lugares e os momentos concretos nos quais é possível encontrá-lo.»

Estes lugares são «a Sagrada Escritura; a Liturgia, sobretudo a Eucaristia; a comunidade reunida em seu nome, os irmãos e irmãs, especialmente os mais necessitados, nos quais Jesus Cristo está misteriosamente presente», escrevem os bispos.


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VATICANO, 11 Out. 06 (ACI) .- 40 mil fiéis se congregaram nesta manhã na Praça de São Pedro para participar da Audiência Geral com o Papa Bento XVI, que ao apresentar as figuras dos apóstolos Simão Cananeu e Judas Tadeu recordou que o diálogo não deve perder de vista as linhas mestras e irrenunciáveis da identidade cristã. Sobre a carta do Novo Testamento atribuída a Judas, cujo apelido Tadeu significa “magnânimo”, o Santo Padre destacou que sua “preocupação central é alertar os cristãos de todos os que com o pretexto da graça de Deus se desculpam de seus desenfreios e enganam os outros com ensinamentos inaceitáveis, introduzindo divisões na Igreja“.

“Possivelmente hoje não estamos acostumados a utilizar uma linguagem tão polêmica -observou o Papa-, que embora com imagens muito formosas não deixa de dizer com muita claridade o que caracteriza o cristianismo e o que é incompatível com ele”.

“É preciso prosseguir com perseverança o caminho da indulgência e do diálogo, felizmente empreendido pelo Concílio Vaticano II. Mas não podemos esquecer o dever de repropor e destacar sempre com igual força as linhas mestras e irrenunciáveis de nossa identidade cristã, que não é apenas cultural, mas sim requer a força, a clareza e a coragem dos desafios próprios da fé“. precisou.

Igualmente, o Bispo de Roma se referiu a Simão Cananeu, chamado também “zelota“, quem como resultado de tal nome poderia ser caracterizado “por um ardente zelo pela identidade judaica, portanto por Deus, por seu povo e pela Lei divina”.

“De ser assim, Simão é completamente diferente de Mateus -disse o Santo Padre-, que como publicano, procedia de uma atividade considerada impura. Este é um sinal evidente de que Jesus chama seus discípulos e colaboradores de todos os níveis sociais e religiosos, sem diferenças. Interessam-lhe as pessoas, não as categorias sociais ou as etiquetas”.

“Seus seguidores, embora diversos, coexistiam superando as imagináveis dificuldades: Jesus era o motivo de coesão. Nós, ao contrário, tendemos freqüentemente a sublinhar as diferenças e inclusive as contraposições, esquecendo que em Jesus Cristo reside a força para resolver nossos conflitos“, apontou.

Finalmente o Papa leu um resumo de suas palavras em diversos idiomas, entoou o Pater Noster e deu a Bênção Apostólica.


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