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São João Crisóstomo de Antioquia

jun 23, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs!

Este ano se completa o décimo sexto centenário da morte de São João Crisóstomo (407-2007). João de Antioquia, chamado Crisóstomo, isto é, «Boca de ouro» por sua eloqüência, pode dizer-se que segue vivo hoje, também por suas obras. Um anônimo copista deixou escrito que estas «atravessam todo o orbe como raios fulminantes». Seus escritos também permitem a nós, como aos fiéis de seu tempo, que repetidamente se viram privados dele por causa de seus exílios, viver com seus livros, apesar de sua ausência. É tudo que ele mesmo sugeria desde o exílio em uma carta (cf. A Olimpiade, Carta 8, 45).

Nascido em torno do ano 349, em Antioquia da Síria (atualmente Antakya, no sul da Turquia), desenvolveu lá o ministério presbiteral durante cerca de onze anos, até o ano 397, quando, nomeado bispo de Constantinopla, exerceu na capital do Império o ministério episcopal antes dos dois exílios, seguidos em breve distância um do outro, entre o ano 403 e 407. Nós nos limitamos hoje a considerar os anos de Crisóstomo na Antioquia.

Órfão de pai em terna idade, viveu com sua mãe, Antusa, que lhe transmitiu uma profunda sensibilidade humana e uma profunda fé cristã. Freqüentados os estudos inferiores e superiores, coroados pelos cursos de filosofia e de retórica, teve como mestre Libânio, pagão, o mais célebre reitor do tempo. Em sua escola, João se converteu no maior orador da antiguidade tardia grega. Batizado no ano 368 e formado na vida eclesiástica pelo bispo Melécio, foi por ele instituído leitor em 371, o Asceterio, um tipo de seminário de Antioquia, junto a um grupo de jovens, alguns dos quais foram depois bispos, sob a guia do famoso exegeta Diodoro de Tarso, que encaminhou João à exegese histórico-literal, característica da tradição de Antioquia.

Ele se retirou depois durante quatro anos entre os eremitas do próximo monte Silpio. Prosseguiu aquele retiro por outros dois anos que viveu sozinho em uma gruta sob a guia de um «ancião». Nesse período se dedicou totalmente a meditar «As leis de Cristo», os Evangelhos e especialmente as Cartas de Paulo. Enfermando-se, ele se encontrou na impossibilidade de cuidar de si mesmo e por isso teve de regressar à comunidade cristã de Antioquia (cf. Palladio, Vita, 5). O Senhor – explica o biógrafo – interveio com a enfermidade no momento justo para permitir a João seguir sua verdadeira vocação. Com efeito, escreverá ele mesmo que, posto na alternativa de escolher entre o governo da Igreja e a tranqüilidade da vida monástica, teria preferido mil vezes o serviço pastoral (cf. Sobre o sacerdócio, 6, 7): precisamente a este se sentia chamado o Crisóstomo. E aqui se realizou o giro decisivo de sua história vocacional: pastor de almas a tempo integral! A intimidade com a Palavra de Deus, cultivada durante os anos da vida eremítica, havia amadurecido nele a urgência de pregar o Evangelho, de dar aos demais o que ele havia recebido nos anos de meditação. O ideal missionário o lançou assim, alma de fogo, à atenção pastoral.

Entre o ano 378 e 379, ele regressou à sua cidade. Diácono em 381 e presbítero em 386, converteu-se em célebre pregador nas igrejas de sua cidade. Pronunciou homilias contra os arianos, seguidas daquelas comemorativas dos mártires de Antioquia e de outras sobre as principais festividades litúrgicas: trata-se de um grande ensinamento da fé de Cristo, também à luz de seus Santos. O ano 387 foi o «ano heróico» de João, o da chamada «revolta das estátuas». O povo derrubou as estátuas imperiais em sinal de protesto contra o aumento dos impostos. Naqueles dias de Quaresma e de angústia por ocasião dos eminentes castigos por parte do imperador, pronunciou suas vinte e duas vibrantes Homilias das estátuas, orientadas à penitência e à conversão. Seguiu-lhe o período de serena atenção pastoral (387-397).

O Crisóstomo se situa entre os Padres mais prolíficos: dele nos chegaram 17 tratados, mais de 700 homilias autênticas, os comentários a Mateus e a Paulo (Cartas aos Romanos, aos Coríntios, aos Efésios e aos Hebreus) e 241 cartas. Não foi um teólogo especulativo. Transmitiu, ao contrário, a doutrina tradicional e segura da Igreja em uma época de controversas teológicas suscitadas sobretudo pelo arianismo, isto é, pela negação da divindade de Cristo. É, portanto, um testemunho fiável do desenvolvimento dogmático alcançado pela Igreja no século IV-V. Sua teologia é maravilhosamente pastoral; nela é constante a preocupação da coerência entre o pensamento expresso pela palavra e a vivência existencial. É este, em particular, o fio condutor das esplêndidas catequeses com as quais preparava os catecúmenos para receber o Batismo. Próximo da morte, escreveu que o valor do homem está no «conhecimento exato da verdade e na retidão na vida» (Carta desde o exílio). As duas coisas, conhecimento exato da verdade e retidão na vida, vão juntas: o conhecimento deve traduzir-se em vida. Toda intervenção sua se orientou sempre a desenvolver nos fiéis o exercício da inteligência, da verdadeira razão, para compreender e traduzir na prática as exigências morais e espirituais da fé.

João Crisóstomo se preocupa por acompanhar com seus escritos o desenvolvimento integral da pessoa, nas dimensões físicas, intelectual e religiosa. As diversas etapas do crescimento são comparadas a outros tantos mares de um imenso oceano: «O primeiro destes mares é a infância» (Homilia 81, 5 sobre o Evangelho de Mateus). Com efeito, «precisamente nesta primeira idade se manifestam as inclinações ao vício e à virtude». Por isso, a lei de Deus deve ser desde o princípio impressa na alma «como em um bloco de cera» (Homilia 3, 1 sobre o Evangelho de João): de fato, é esta a idade mais importante. Devemos ter presente quão fundamental é que nesta primeira fase da vida entrem realmente no homem as grandes orientações que dão a perspectiva justa à existência. Crisóstomo por isso recomenda: «Desde a mais terna idade abastecei as crianças de armas espirituais e ensinai-as a persignar-se» (Homilia 12, 7 sobre a Primeira Carta aos Coríntios). Chegam depois a adolescência e a juventude: «À infância segue o mar da adolescência, onde os ventos sopram violentos…, porque em nós cresce… a concupiscência» (Homilia 81, 5 sobre o Evangelho de Mateus). Chegam finalmente o noivado e o matrimônio: «À juventude sucede a idade da pessoa madura, na qual sobrevêm os compromissos de família: é o tempo de buscar esposa» (Ibid). Do matrimônio ele recorda os fins, enriquecendo-os – com a alusão à virtude da temperança – de uma rica trama de relações personalizadas. Os esposos bem preparados cortam assim o caminho do divórcio: tudo se desenvolve com alegria e se podem educar aos filhos na virtude. Quando nasce o primeiro filho, este é «como uma ponte; os três se convertem em uma só carne, dado que o filho reúne as duas partes» (Homilia 12, 5 sobre a Carta aos Colossenses), e os três constituem «uma família, pequena Igreja» (Homilia 20, 6 sobre a Carta aos Efésios).

A pregação do Crisóstomo acontecia habitualmente no curso da liturgia, «lugar» no qual a comunidade se constrói com a Palavra e a Eucaristia. Aqui a assembléia reunida expressa a única Igreja (Homilia 8, 7 sobre a Carta aos Romanos), a mesma palavra se dirige em todo lugar a todos (Homilia 24, 2 sobre a Primeira Carta aos Coríntios) e a comunhão eucarística se faz sinal eficaz de unidade (Homilia 32,7 sobre o Evangelho de Mateus). Seu projeto pastoral se inseria na vida da Igreja, na qual os fiéis leigos com o Batismo assumem o ofício sacerdotal, real e profético. Ao fiel leigo ele diz: «Também a ti o Batismo te faz rei, sacerdote e profeta» (Homilia 3, 5 sobre a Segunda Carta aos Coríntios). Surge daqui o dever fundamental da missão, porque cada um em alguma medida é responsável pela salvação dos demais: «Este é o princípio de nossa vida social… não interessar-nos só por nós!» (). Tudo se desenvolve entre dois pólos: a grande Igreja e a «pequena Igreja», a família, em recíproca relação.

Como podeis ver, queridos irmãos e irmãs, esta lição do Crisóstomo sobre a presença autenticamente cristã dos fiéis leigos na família e na sociedade, é hoje mais atual que nunca. Roguemos ao Senhor para que nos torne dóceis aos ensinamentos deste grande mestre da fé.

PAI DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

Continuamos nossa reflexão sobre São João Crisóstomo. Após o período passado em Antioquia, no ano 397, foi nomeado bispo de Constantinopla, capital do Império romano do Oriente. Desde o início, João projetou a reforma de sua Igreja: a austeridade do palácio episcopal tinha de ser um exemplo para todos: clero, viúvas, monges, pessoas da corte e ricos.

Infelizmente, não poucos deles, tocados por seus juízos, se afastaram dele. Solícito com os pobres, João foi chamado também de «o esmoleiro». Como administrador atento, conseguiu criar instituições caritativas muito apreciadas. Sua capacidade empreendedora nos diferentes campos fez que alguns o vissem como um perigoso rival. Contudo, como autêntico pastor, tratava todos de maneira cordial e paterna. Em particular, sempre tinha gestos de ternura especial pela mulher e dedicava uma atenção particular ao matrimônio e à família. Convidava os fiéis a participar da vida litúrgica, que tornou esplêndida e atrativa com uma criatividade genial.

Apesar de sua bondade, não teve uma vida tranqüila. Pastor da capital do Império, ele se viu envolvido com freqüência nas intrigas políticas por suas contínuas relações com as autoridades e as instituições civis. No âmbito nível eclesiástico, dado que havia deposto na Ásia, no ano 401, seis bispos indignamente eleitos, foi acusado de ter superado os limites de sua jurisdição, convertendo-se em alvo de acusações fáceis. Outro pretexto de ataques contra ele foi a presença de alguns monges egípcios, excomungados pelo patriarca Teófilo de Alexandria, que se refugiaram em Constantinopla. Depois se criou uma forte polêmica causada pelas críticas de Crisóstomo à imperatriz Eudóxia e a suas cortesãs, que reagiram desacreditando-o e insultando-o. Deste modo, foi deposto, no sínodo organizado pelo próprio patriarca Teófilo, no ano 403, e condenado a um primeiro exílio breve. Após regressar, a hostilidade que suscitou por causa de seus protestos contra as festas em honra da imperatriz, que o bispo considerava como festas pagãs, luxuosas, e a expulsão dos presbíteros encarregados dos batismos na Vigília Pascoal do ano 404 marcaram o início da perseguição contra João Crisóstomo e seus seguidores, chamados «joanistas».

Então, João denunciou com uma carta os fatos ao bispo de Roma, Inocêncio I. Mas já era tarde demais. No ano 406 foi exilado novamente, esta vez em Cucusa, Armênia. O Papa estava certo de sua inocência, mas não tinha poder para ajudá-lo. Não se pôde celebrar um concílio, promovido por Roma para conseguir a pacificação entre as duas partes do Império e entre suas Igrejas. A dura viagem de Cucusa a Pitionte, destino ao qual nunca chegou, devia impedir as visitas dos fiéis e romper a resistência do prelado esgotado: a condenação ao exílio foi uma autêntica condenação à morte! São comovedoras as numerosas cartas do exílio, nas quais João manifesta suas preocupações pastorais com tons de dor pelas perseguições contra os seus. A marcha para a morte se deteve em Comana Pontica. Lá, João foi levado à capela do mártir São Basilisco, onde entregou o espírito a Deus e foi sepultado, como mártir junto ao mártir (Paládio, «Vida» 119). Era o dia 14 de setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. A reabilitação aconteceu no ano 438, com Teodósio II. As relíquias do santo bispo, colocadas na igreja dos Apóstolos, em Constantinopla, foram transportadas no ano 1204 a Roma, na primitiva Basílica de Constantino, e jazem agora na capela do Coro dos Canônicos da Basílica de São Pedro.

Em 24 de agosto de 2004, uma parte importante da mesma foi entregue pelo Papa João Paulo II ao patriarca Bartolomeu I de Constantinopla. A memória litúrgica do santo se celebra em 13 de setembro. O beato João XXIII o proclamou padroeiro do Concílio Vaticano II.

De João Crisóstomo se disse que, quando se sentou no trono da Nova Roma, ou seja, Constantinopla, Deus fez ver nele um segundo Paulo, um doutor do universo. Na realidade, em Crisóstomo se dá uma unidade essencial de pensamento e de ação, tanto em Antioquia como em Constantinopla. Só mudam seu papel e as situações. Ao meditar nas oito obras realizadas por Deus na seqüência dos seis dias, no comentário do Gênesis, João Crisóstomo quer fazer que os fiéis se remontem da criação ao Criador: «É de grande ajuda saber o que é a criatura e o que é o Criador», diz. Ele nos mostra a beleza da criação e a transparência de Deus em sua criação, que se converte deste modo em uma espécie de «escada» para ascender a Deus, para conhecê-lo.

Mas a este primeiro passo segue outro: esse Deus criador é também o Deus da condescendência («synkatabasis»). Nós somos fracos para «ascender», nossos olhos são fracos. Deste modo, Deus se converte no Deus da condescendência, que envia ao homem caído e estrangeiro uma carta, a Sagrada Escritura. Deste modo, a criação e a escritura se completam. À luz da Escritura, da carta que Deus nos deu, podemos decifrar a criação. Deus é chamado «pai terno» («philostorgios») (ibidem), médico das almas (Homilia, 40, 3 sobre o Gênesis), mãe (ibidem) e amigo carinhoso («Sobre a Providência» 8, 11-12).

Mas ao primeiro passo da criação como «escada» para Deus, e ao segundo da condescendência de Deus, através da carta que nos deu, a Sagrada Escritura, é acrescentado um terceiro passo: Deus não só nos transmite uma carta; em definitivo, Ele mesmo desce, encarna-se, converte-se realmente em «Deus conosco», nosso irmão até a morte na Cruz.

E com estes três passos – Deus que se torna visível na criação, Deus que nos envia uma carta, Deus que desce e se converte em um de nós – chega-se finalmente a um quarto passo: na vida e ação do cristão, o princípio vital e dinâmico é o Espírito Santo («Pneuma»), que transforma a realidade do mundo. Deus entra em nossa própria existência através do Espírito Santo e nos transforma desde dentro de nosso coração.

Com este pano de fundo, precisamente em Constantinopla, João, ao comentar os Atos dos Apóstolos, propõe o modelo da Igreja primitiva (Atos 4, 32-37) como modelo para a sociedade, desenvolvendo uma «utopia» social (como uma «cidade ideal»). Tratava-se, de fato, de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Em outras palavras, Crisóstomo compreendeu que não é suficiente dar esmola, ajudar os pobres de vez em quando, mas é necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade; um modelo baseado na perspectiva do Novo Testamento. É a nova sociedade que se revela na Igreja nascente. Portanto, João Crisóstomo se converte deste modo em um dos grandes pais da Doutrina Social da Igreja: a velha idéia da «pólis» grega é substituída por uma nova idéia de cidade inspirada na fé cristã. Crisóstomo defendeu, como Paulo (cf. 1 Coríntios 8, 11), o primado de cada cristão, da pessoa enquanto tal, inclusive do escravo e do pobre. Seu projeto corrige deste modo a tradicional visão da «pólis» grega, da cidade, enquanto na cidade cristã todos são irmãos e irmãs com os mesmos direitos. O primado da pessoa é também a conseqüência do fato de que, baseando-se nela se constrói a cidade, enquanto na «pólis» grega a pátria era colocada acima do indivíduo, que ficava totalmente subordinado à cidade em seu conjunto. Deste modo, com Crisóstomo começa a visão de uma sociedade construída com a consciência cristã. Ele nos diz que nossa «pólis» é outra, «nossa pátria está nos céus» (Filipenses 3, 20) e esta nossa pátria, inclusive nesta terra, torna todos iguais, irmãos e irmãs, e nos obriga à solidariedade.

Ao final de sua vida, desde o exílio nas fronteiras de Armênia, «o lugar mais remoto do mundo», João, enlaçando com sua primeira pregação do ano 386, retomou o tema que tanto gostava do plano que Deus tem para a humanidade: é um plano «inefável e incompreensível», mas certamente guiado por Ele com amor (cf. «Sobre a providência» 2, 6). Esta é a nossa certeza. Ainda que não possamos decifrar os detalhes da história pessoal e coletiva, sabemos que o plano de Deus está sempre inspirado por seu amor. Deste modo, apesar de seus sofrimentos, João Crisóstomo reafirmava a descoberta de que Deus ama cada um de nós com um amor infinito, e por este motivo quer a salvação de todos. Por sua parte, o santo bispo cooperou com esta salvação com generosidade, sem poupar esforços, durante toda a sua vida. De fato, considerava como último fim de sua existência essa glória de Deus; já moribundo, deixou como último testamento: «Glória a Deus por tudo!» (Paládio, «Vida» 11).


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São Pedro e São Paulo: «inseparáveis»

jun 20, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Igreja

Bispo de Terrassa explica o que o Papa pretende com o ano jubilar paulino

Por Miriam Díez i Bosch

TERRASSA, quinta-feira, 19 de junho de 2008 (ZENIT.org).- Josep Angel Saiz Meneses, bispo da diocese de Terrassa, recorda o vínculo intrínseco que une São Pedro e São Paulo diante do iminente ano paulino que começa em 28 de junho.

«Desde o início da era cristã, a tradição considerou São Pedro e São Paulo inseparáveis um do outro, ainda que cada um teve uma missão diversa a cumprir: São Pedro foi o primeiro a confessar a fé em Cristo; São Paulo obteve o dom de poder aprofundar em sua riqueza», escreve em sua carta dominical.

«São Pedro fundou a primeira comunidade de cristãos provenientes do povo escolhido; São Paulo se converteu no apóstolo dos pagãos. Com carismas diversos – e não sem algumas tensões entre eles – trabalharam ambos por uma única causa: o testemunho de Jesus Cristo e a construção de sua Igreja», reconhece.

«O que Bento XVI pretende ao proclamar este ano jubilar paulino?», pergunta-se este jovem bispo: «A resposta nos foi dada pelo próprio Papa na homilia no curso da qual fez o anúncio: aproveitar esta ocasião para unir-nos mais profundamente a Cristo mediante a fé, a esperança e o amor, e para dar testemunho dele diante da nossa sociedade de hoje».

«Será bom acolher as mesmas palavras do Santo Padre. Em sua homilia, o Papa aludiu a um detalhe muito pessoal de São Paulo. É uma circunstância que pode iluminar a nós, cristãos de hoje, que sentimos a responsabilidade de dar testemunho de Cristo e, «com temor e tremor» – como Paulo – talvez sentimos a dificuldade de fazê-lo com coerência e o medo de que não sejamos escutados», alenta.

O bispo da nova diocese de Terrassa, a qual acaba de completar quatro anos depois de ser desmembrada da antiga arquidiocese de Barcelona, escreve que São Paulo não sabia falar muito bem, mas isso não impediu que seu trabalho apostólico tocasse as pessoas.

«Por suas cartas, sabemos que São Paulo não sabia falar muito bem; mais ainda, compartilhava com Moisés e Jeremias a falta de talento oratório. ‘Sua presença física é pobre a sua palavra depreciável’ (2 Co 10, 10). Portanto, os extraordinários resultados apostólicos que pôde conseguir não devem ser atribuídos a uma brilhante retórica ou a refinadas estratégias apologéticas e missionárias. O êxito de seu apostolado depende, sobretudo, de seu compromisso pessoal ao anunciar o Evangelho com total entrega a Cristo», afirma.

«Este acho que deve ser o primeiro fruto deste ano paulino: imitar o grande apóstolo na entrega a Cristo e na valentia em dar testemunho de nossa fé», anima o bispo Saiz Meneses.


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São Gregório de Nissa

jun 19, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Nas últimas catequeses, falei de dois grandes doutores da Igreja do século IV, Basílio e Gregório de Nazianzeno, bispo em Capadócia, na atual Turquia. Hoje falaremos de um terceiro, o irmão de Basílio, São Gregório de Nisa, homem de caráter meditativo, com grande capacidade de reflexão e uma inteligência desperta, aberta à cultura de seu tempo. Converteu-se assim em um pensador original e profundo da história do cristianismo.

Nasceu por volta do ano 335; sua formação cristã foi atendida particularmente por seu irmão Basílio, definido por ele como «pai e mestre» (Epístola 13, 4:SC 363, 198), e por sua irmã Macrina. Em seus estudos, gostava particularmente da filosofia e da retórica. Em um primeiro momento, ele se dedicou ao ensino e se casou. Depois, como seu irmão e sua irmã, entregou-se totalmente à vida ascética. Mais tarde, foi eleito bispo de Nisa, convertendo-se em pastor zeloso, conquistando a estima da comunidade. Acusado de malversações econômicas por seus adversários hereges, teve de abandonar brevemente sua sede episcopal, mas depois regressou triunfantemente (cF. Epístola 6:SC 363, 164-170), e continuou comprometendo-se na luta por defender a autêntica fé.

Após a morte de Basílio, recolhendo sua herança espiritual, cooperou sobretudo no triunfo da ortodoxia. Participou de vários sínodos; procurou dirimir os enfrentamentos entre as Igrejas; participou na reorganização eclesiástica e, como «coluna da ortodoxia», foi um dos protagonistas do Concílio de Constantinopla do ano 381, que definiu a divindade do Espírito Santo.

Teve vários encargos oficiais por parte do imperador Teodósio, pronunciou importantes homilias e discursos fúnebres, compôs várias obras teológicas. No ano 394 voltou a participar de um sínodo que se celebrou em Constantinopla. Desconhece-se a data de sua morte.

Gregório expressa com clareza a finalidade de seus estudos, objetivo supremo ao que dedica seu trabalho teológico: não entregar a vida a coisas banais, mas encontrar a luz que permita discernir o que é verdadeiramente útil (cf. «In Ecclesiasten hom. »1: SC 416, 106-146).

Encontrou este bem supremo no cristianismo, graças ao qual é possível «a imitação da natureza divina» («De professione christiana»: PG 46, 244C). Com sua aguda inteligência e seus amplos conhecimentos filosóficos e teológicos, defendeu a fé cristã contra os hereges, que negavam a divindade do Espírito Santo (como Eunômio e os macedônios), ou questionavam a perfeita humanidade de Cristo (como Apolinário). Comentou a Sagrada Escritura, meditando na criação do homem. A criação era para ele um tema central. Ele via na criatura um reflexo do Criador e a partir daí encontrava o caminho para Deus.

Mas também escreveu um importante livro sobre a vida de Moisés, a quem apresenta como homem em caminho para Deus: esta ascensão para o Monte Sinai se converte para ele em uma imagem de nossa ascensão na vida humana para a verdadeira vida, para o encontro com Deus. Interpretou também a oração do Senhor, o Pai Nosso e as Bem-aventuranças. Em seu «Grande discurso catequético» («Oratio catechetica magna»), expôs as linhas fundamentais da teologia, não de uma teologia acadêmica, fechada em si mesma, mas ofereceu aos catequistas um sistema de referência para seus ensinamentos, como uma espécie de padrão no qual se move depois a interpretação pedagógica da fé.

Gregório também é insigne por sua doutrina espiritual. Sua teologia não era uma reflexão acadêmica, mas a expressão de uma vida espiritual de uma vida de fé vivida. Como grande «padre de mística», apresentou em vários tratados – como o «De professione christiana» e o «De perfectione christiana» – o caminho que os cristãos têm de empreender para alcançar a verdadeira vida, a perfeição.

Exaltou a virgindade consagrada («De virginitate»), e propôs um modelo insigne na vida de sua irmã Macrina, que foi para ele sempre uma guia, um exemplo (cf. «Vita Macrinae»). Pronunciou vários discursos e homilias, escreveu numerosas cartas. Comentando a criação do homem, Gregório sublinha que Deus, «o melhor dos artistas, forja nossa natureza de maneira que seja capaz do exercício da realeza. Por causa da superioridade da alma, e graças à própria conformação do corpo, faz que o homem seja realmente idôneo para desempenhar o poder régio» («De hominis opificio» 4: PG 44, 136B).

Mas vemos como o homem, na rede dos pecados, com freqüência abusa da criação e não exerce a verdadeira realeza. Por este motivo, para desempenhar uma verdadeira responsabilidade ante as criaturas, tem de ser penetrado por Deus e viver em sua luz. O homem, de fato, é um reflexo dessa beleza original que é Deus: «Tudo o que Deus criou era ótimo», escreve o santo bispo. E acrescenta: «A narração da criação testemunha isso (cf. Gêneses 1, 31). Entre as coisas ótimas também se encontrava o homem, dotado de uma beleza muito superior à de todas as coisas belas. Que outra coisa podia ser tão bela como a que era semelhante à beleza pura e incorruptível?… Reflexo e imagem da vida eterna, ele era realmente belo, mais ainda, belíssimo, com o sinal radiante da vida em seu rosto» («Homilia in Canticum» 12: PG 44, 1020).

O homem foi honrado por Deus e colocado acima de toda criatura: «O céu não foi feito à imagem de Deus, nem a lua, nem o sol, nem a beleza das estrelas, nem nada do que aparece na criação. Só tu (alma humana) foste feita à imagem da natureza que supera toda inteligência, semelhante à beleza incorruptível, marca da verdadeira divindade, espaço de vida bem-aventurada, imagem da verdadeira luz, e ao contemplar-te te convertes no que Ele é, pois por meio do raio refletido que provém de tua pureza tu imitas aquele que brilha em ti. Nada do que existe é tão grande que possa ser comparado à tua grandeza» («Homilia in Canticum 2»: PG 44, 805D).

Meditemos neste elogio do homem. Vejamos também como o homem foi degradado pelo pecado. E procuremos voltar à grandeza originária: somente se Deus está presente, o homem alcança sua verdadeira grandeza.

O homem, portanto, reconhece dentro de si o reflexo da luz divina: purificando seu coração, volta a ser, como era no início, uma imagem límpida de Deus, Beleza exemplar (cf. «Oratio catechetica 6»: SC 453, 174). Deste modo, o homem, purificando-se, pode ver Deus, como os puros de coração (cf. Mateus 5, 8):«Se, com um estilo de vida diligente e atento, lavas as fealdades que se depositaram em teu coração, resplandecerá em ti a beleza divina… Contemplando-te a ti mesmo, verás em ti o desejo de teu coração e serás feliz» («De beatitudinibus, 6»:PG 44, 1272AB). Portanto, é preciso lavar as fealdades que se depositaram em nosso coração e voltar a encontrar em nós mesmos a luz de Deus.

O homem tem como fim, portanto, a contemplação de Deus. Só nela poderá encontrar sua plenitude. Para antecipar em certo sentido este objetivo já nesta vida, tem de avançar incessantemente a uma vida espiritual, uma vida de diálogo com Deus. Em outras palavras – e esta é a lição importante que São Gregório de Nisa nos deixa – a plena realização do homem consiste na santidade, em uma vida vivida no encontro com Deus, que deste modo se torna luminosa também para os demais, também para o mundo.

ENSINAMENTOS

Eu vos proponho alguns aspectos da doutrina de São Gregório de Nisa, de quem já falamos na quarta-feira passada. Antes de tudo, Gregório manifesta uma concepção muito elevada da dignidade do homem. O fim do homem, diz o santo bispo, é o de tornar-se semelhante a Deus, e este fim se alcança sobretudo através do amor, do conhecimento e da prática das virtudes, «raios luminosos que descendem da natureza divina» («De beatitudinibus» 6: PG 44, 1272C), com um movimento perpétuo de adesão ao bem, como o corredor que tende para frente.

Gregório utiliza neste sentido uma imagem eficaz, que já estava presente na carta de Paulo aos Filipenses: «épekteinómenos» (3, 13), ou seja, «tendendo-me» para o que é maior, para a verdade e o amor. Esta expressão plástica indica uma realidade profunda: a perfeição que queremos encontrar não é algo que se conquista para sempre; perfeição é seguir o caminho, é uma contínua disponibilidade para seguir adiante, pois nunca se alcança a plena semelhança com Deus; sempre estamos a caminho (cf. «Homilia in Canticum 12»: PG 44, 1025d). A história de cada alma é a de um amor que é cumulado em cada ocasião, e que ao mesmo temo está aberto a novos horizontes, pois Deus dilata continuamente as possibilidades da alma para torná-la capaz de bens sempre maiores. O próprio Deus semeou em nós sementes de bem e d’Ele surge toda iniciativa de santidade, «modela o bloco… Limando e polindo nosso espírito forma, Cristo em nós» («In Psalmos 2», 11: PG 44, 544B).

Gregório declara: «Não é obra nossa, e não é tampouco o êxito de uma potência humana o chegar a ser semelhantes à Divindade, mas o resultado da generosidade de Deus, que desde sua origem ofereceu à nossa natureza a graça da semelhança com Ele» («De virginitate 12», 2:SC 119, 408-410). Para a alma, portanto, «não se trata de conhecer algo de Deus, mas de ter Deus em si» («De beatitudinibus 6»: PG 44,1269c). De fato, constata agudamente Gregório, «a divindade é pureza, é libertação das paixões e remoção de todo mal: se tudo isso está em ti, Deus realmente está em ti» («De beatitudinibus 6»: PG 44,1272C).

Quando temos Deus em nós, quando o homem ama Deus, por essa reciprocidade que é própria da lei do amor, quer o que Deus mesmo quer (cf. «Homilia in Canticum 9»: PG 44,956ac), e, portanto, coopera com Deus para modelar em si a imagem divina, de maneira que «nosso nascimento espiritual é o resultado de uma opção livre, e nós somos em certo sentido os pais de nós mesmos, criando-nos de uma opção livre, e nós mesmos queremos ser, e formando-nos por nossa vontade segundo o modelo que escolhemos» («Vita Moysis 2», 3: SC 1bis, 108).

Para ascender a Deus, o homem deve purificar-se: «A vida que reconduz a natureza humana ao céu não é mais que se afastar dos maus deste mundo… Tornar-se semelhante a Deus significa chegar a ser justo, santo e bom… Se, portanto, segundo o Eclesiastes (5,1), ‘Deus está no céu’ e se, segundo o profeta (Salmo 72, 28), vós ‘estais com Deus’, isso quer dizer necessariamente que tendes de estar ali onde está Deus, pois estais unidos a Ele. Dado que Ele vos ordenou que, quando rezardes, deveis chamar Deus de Pai, está vos dizendo que sejais semelhantes ao vosso Pai celestial, com uma vida digna de Deus, como o Senhor nos ordena com mais clareza em outro momento, quando diz: ‘Sede perfeitos como é perfeito vosso Pai celestial’ (Mateus 5, 48)» («De oratione dominica 2»: PG 44, 1145ac).

Neste caminho de ascensão espiritual, Cristo é o modelo e o mestre que nos permite ver a bela imagem de Deus (cf. «De perfectione christiana»: PG 46,272a ). Cada um de nós, contemplando-O, se converte no «pintor da própria vida», fazendo que a vontade seja a realizadora do trabalho e as virtudes, como as pinturas das quais pode servir-se (ibidem: PG 46, 272b). Portanto, se o homem é considerado digno do nome de Cristo, como deve comportar-se? Gregório responde assim: tem de «examinar sempre em sua intimidade os pensamentos, as palavras e as ações, para ver se estão dirigidos a Cristo ou se afastam dele» (ibidem: PG 46,284c). E este ponto é importante para o valor que dá à palavra «cristão». Cristão é quem leva o nome de Cristo e, portanto, deve assemelhar-se a Ele também na vida. Nós, os cristãos com o Batismo, assumimos uma grande responsabilidade.

Pois bem, Cristo, recorda Gregório, está presente também nos pobres, de maneira que eles jamais podem ser ultrajados: «Não desprezeis aqueles que estão prostrados, como se por este motivo não valessem nada. Considera quem são e descobrirás qual é a sua dignidade: representam a Pessoa do Salvador. E assim é, pois o Senhor, em sua bondade, lhes prestou sua própria Pessoa para que, através dela, tenham compaixão por aqueles que são duros de coração e inimigos dos pobres» («De pauperibus amandis»: PG 46,460bc). Gregório, como dizíamos, fala de uma ascensão: ascensão a Deus na oração através da pureza de coração; mas ascensão a Deus também mediante o amor ao próximo. O amor é a escada que leva a Deus. Portanto, Gregório de Nisa exorta vivamente aos que o escutavam: «Sê generoso com estes irmãos, vítimas da desventura. Dá ao faminto o que tiras do teu estômago» (ibidem: PG 46,457c).

Com muita clareza, Gregório recorda que todos nós dependemos de Deus, e por isso exclama: «Não penseis que tudo é vosso! Tem de haver também uma parte para os pobres, os amigos de Deus. A verdade, de fato, é que tudo procede de Deus, Pai universal, e que somos irmãos, e pertencemos a uma mesma estirpe» (Ibidem:PG 46, 465b). Então, o cristão deve examinar-se, continua insistindo Gregório: «Mas, de que te serve jejuar e fazer abstinência, se depois com tua maldade não fazes mais que dano a teu irmão? O que ganhas, ante Deus, pelo fato de não comer do teu, se depois, atuando injustamente, arrancas das mãos do pobre o que é seu?» (Ibidem: PG 46,456a).

Concluamos nossas catequeses sobre os três grandes padres da Capadócia recordando mais uma vez esse aspecto importante da doutrina espiritual de Gregório de Nisa, que é a oração. Para avançar no caminho para a perfeição e acolher Deus em si, levando em si o Espírito de Deus, o amor de Deus, o homem tem de dirigir-se com confiança a Ele na oração: «Através da oração conseguimos estar com Deus. E quem está com Deus, está longe do inimigo. A oração é apoio e defesa da castidade, freio da ira, sossego e domínio da soberba. A oração é custódia da virgindade, proteção da fidelidade no matrimônio, esperança para quem vela, abundância de frutos para os agricultores, segurança para os navegantes» («De oratione dominica 1»:PG 44,1124A-B).

O cristão reza inspirando-se sempre na oração do Senhor: «Se, portanto, queremos pedir que desça sobre nós o Reino de Deus, pedimos com a potência da Palavra: que eu seja afastado da corrupção, que seja libertado da morte e das correntes do erro; que nunca reine sobre mim a morte, que não tenha nunca poder sobre nós a tirania do mal, que não me domine o adversário nem me torne seu prisioneiro com o pecado, mas que venha a mim teu Reino para que se afastem de mim, ou melhor ainda, se anulem as paixões que agora me dominam» (ibidem 3:PG 44,1156d-1157a).

Terminada sua vida terrena, o cristão poderá dirigir-se com serenidade a Deus. Falando disso, são Gregório pensa na morte de sua irmã Macrina e escreve que ela, no momento da morte, rezava a Deus com estas palavras: «Tu, que tens na terra o poder de perdoar os pecados, perdoa-me para que possa ter descanso (cf. Salmo 38, 14), e para que me apresente em tua presença sem mancha, no momento no qual fico despojada de meu corpo (cf. Colossenses 2, 11), de maneira que meu espírito, santo e imaculado (cf. Efésios 5, 27) seja acolhido em tuas mãos, ‘como incenso ante ti’ (Salmo 140,2)» («Vita Macrinae 24»: SC 178, 224). Este ensinamento de São Gregório continua sendo válido sempre: não podemos somente falar de Deus, mas levar Deus em nós mesmos. E o fazemos com o compromisso da oração e vivendo no espírito de amor por todos os nossos irmãos.


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Orígenes de Alexandria

jun 1, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Vaticano
Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Nas nossas meditações sobre as grandes personalidades da Igreja antiga, hoje conhecemos uma das mais relevantes. Orígenes de Alexandria é realmente uma das personalidades determinantes para todo o desenvolvimento do pensamento cristão. Ele recebe a herança de Clemente de Alexandria, sobre o qual meditámos na passada quarta-feira, e impele para o futuro de modo totalmente inovativo, imprimindo uma mudança irreversível ao desenvolvimento do pensamento cristão. Foi um “mestre” verdadeiro, e assim o recordavam com saudades e emoção os seus alunos: não só um brilhante teólogo, mas uma testemunha exemplar da doutrina que transmitia. “Ele ensinou”, escreve Eusébio de Cesareia, seu biógrafo entusiasta, “que o comportamento deve corresponder exactamente às palavras e foi sobretudo por isso que, ajudado pela graça de Deus, induziu muitos a imitá-lo” (Hist. Eccl. 6, 3, 7).

Toda a sua vida foi percorrida por um profundo anseio pelo martírio. Tinha dezassete anos quando, no décimo ano do imperador Setímio Severo, se desencadeou em Alexandria a perseguição contra os cristãos. Clemente, seu mestre, abandonou a cidade, e o pai de Orígenes, Leónidas, foi encarcerado. O seu filho bramava ardentemente pelo martírio, mas não pôde realizar este desejo.

Então escreveu ao pai, exortando-o a não desistir do testemunho supremo da fé. E quando Leónidas foi decapitado, o pequeno Orígenes sentiu que devia acolher o exemplo da sua vida. Quarenta anos mais tarde, quando pregava em Cesareia, fez esta confissão: “Não me é útil ter tido um pai mártir, se não tenho um bom comportamento e não honro a nobreza da minha estirpe, isto é, o martírio de meu pai e o testemunho que o tornou ilustre em Cristo” (Hom. Ex. 4, 8). Numa homilia sucessiva quando, graças à extrema tolerância do imperador Filipe o Árabe, já parecia não haver a eventualidade de um testemunho cruento Orígenes exclama: “Se Deus me concedesse ser lavado no meu sangue, de modo a receber o segundo baptismo tendo aceite a morte por Cristo, afastar-me-ia deste mundo seguro… Mas são bem aventurados os que merecem estas coisas” (Hom. Iud. 7, 12). Estas expressões revelam toda a nostalgia de Orígenes pelo baptismo de sangue. E finalmente este anseio irresistível foi, pelo menos em parte, satisfeito. Em 250, durante a perseguição de Décio, Orígenes foi preso e torturado cruelmente. Debilitado pelos sofrimentos suportados, faleceu alguns anos mais tarde. Ainda não tinha setenta anos.

Mencionámos aquela “mudança irreversível” que Orígenes imprimiu à história da teologia e do pensamento cristão. Mas em que consiste esta “mudança”, esta novidade tão cheia de consequências? Ela corresponde substancialmente à fundação da teologia na explicação das Escrituras. Fazer teologia era para ele essencialmente explicar, compreender a Escritura; ou poderíamos dizer também que a sua teologia é a perfeita simbiose entre teologia e exegese. Na verdade, a sigla própria da doutrina ogigeniana parece residir precisamente no convite incessante a passar das palavras ao espírito das Escrituas, para progredir no conhecimento de Deus. E este chamado “alegorismo”, escreveu von Balthasar, coincide precisamente “com o desenvolvimento do dogma cristão realizado pelo ensinamento dos doutores da Igreja”, os quais de uma forma ou de outra receberam a “lição” de Orígenes. Assim a tradição e o magistério, fundamento e garantia da busca teológica, chegam a configurar-se como “Escritura em acto” (cf. Origene: il mondo, Cristo e la Chiesa, tr. it, Milão 1972, p. 43). Por isso, podemos afirmar que o núcleo central da imensa obra literária de Orígenes consiste na sua “tríplice leitura” da Bíblia. Mas antes de ilustrar esta “leitura” convém lançar um olhar de conjunto à produção literária do Alexandrino. São Jerónimo na sua Epístola 33 elenca os títulos de 320 livros e de 310 homilias de Orígenes. Infelizmente a maior parte desta obra perdeu-se, mas também o pouco que permaneceu faz dele o autor mais fecundo dos primeiros três séculos cristãos. O seu raio de interesses alarga-se da exegese ao dogma, à filosofia, à apologética, à ascética e à mística. É uma visão fundamental e global da vida cristã.

O centro inspirador desta obra é, como mencionámos, a “tríplice leitura” das Escrituras desenvolvida por Orígenes ao longo da sua vida. Com esta expressão pretendemos aludir às três modalidades mais importantes entre si não sucessivas, aliás com mais frequência sobrepostas com as quais Orígenes se dedicou ao estudo das Escrituras. Em primeiro lugar ele leu a Bíblia com a intenção de verificar do melhor modo o seu texto e de oferecer a edição mais fidedigna. Este, por exemplo, é o primeiro passo: conhecer realmente o que está escrito e conhecer o que esta escritura pretendia intencional e inicialmente dizer. Fez um grande estudo com esta finalidade e redigiu uma edição da Bíblia com seis colunas paralelas, da esquerda para a direita, com o texto hebraico em caracteres hebraicos teve também contactos com os rabinos para compreender bem o texto original hebraico da Bíblia depois o texto hebraico transliterado em caracteres gregos e depois quatro traduções diversas em língua grega, que lhe permitiam comparar as diversas possibilidades de tradução. Isto originou o título de “Hexapla” (”seis colunas”) atribuído a esta imane sinopse. Este é o primeiro ponto: conhecer exactamente o que está escrito, o texto como tal.

Em segundo lugar Orígenes leu sistematicamente a Bíblia com os seus célebres Comentários. Eles reproduzem fielmente as explicações que o mestre oferecia durante a escola, tanto em Alexandria como em Cesareia. Orígenes procede quase versículo por versículo, em forma minuciosa, ampla e aprofundada, com notas de carácter filológico e doutrinal. Ele trabalha com grande rigor para conhecer bem o que queriam dizer os autores sagrados.

Por fim, também antes da sua ordenação presbiteral, Orígenes dedicou-se muitíssimo à pregação da Bíblia, adaptando-se a um público muito variado. Contudo, sente-se também nas suas Homelias o mestre, totalmente dedicado à interpretação sistemática da perícope em exame, pouco a pouco fraccionada nos versículos seguintes. Também nas Homilias Orígenes aproveita todas as ocasiões para recordar as diversas dimensões do sentido da Sagrada Escritura, que ajudam ou expressam um caminho no crescimento da fé: há o sentido “literal”, mas ele esconde profundidades que não se vêem num primeiro momento; a segunda dimensão é o sentido “moral”: o que devemos fazer vivendo a palavra; e por fim, o sentido “espiritual”, isto é, a unidade da Escritura, que em todo o seu desenvolvimento fala de Cristo. É o Espírito Santo que nos faz compreender o conteúdo cristológico e assim a unidade da Escritura na sua diversidade. Seria interessante mostrar isto.

Tentei um pouco, no meu livro “Jesus de Nazaré”, mostrar na situação de hoje estas numerosas dimensões da Palavra, da Sagrada Escritura, que primeiro deve ser respeitada precisamente no sentido histórico. Mas este sentido transcende-nos para Cristo, na luz do Espírito Santo, e mostra-nos o caminho, como viver. Isto é mencionado, por exemplo, na nona Homilia sobre os números, onde Orígenes compara a Escritura com as nozes: “Assim é a doutrina da Lei e dos Profetas na escola de Cristo”, afirma o homileta; “amarga é a casca, que é como a letra; em segundo lugar, chegarás à semente, que é a doutrina moral; em terceiro encontrarás o sentido dos mistérios, do qual se alimentam as almas dos santos na vida presente e na futura” (Hom. Num. 9, 7).

Sobretudo por este caminho Orígenes consegue promover eficazmente a “leitura cristã” do Antigo Testamento, contestando de maneira brilhante o desafio daqueles hereges sobretudo gnósticos e marcionitas que opunham entre si os dois Testamentos até rejeitar o Antigo. A este propósito, na mesma Homilia sobre os Números o Alexandrino afirma: “Eu não chamo à Lei “Antigo Testamento”, se a compreendo no Espírito. A Lei torna-se um “Antigo Testamento” só para aqueles que a desejam compreender carnalmente”, isto é, detendo-se no sentido literal. Mas “para nós, que a compreendemos e aplicamos no Espírito e no sentido do Evangelho, a Lei é sempre nova, e os dois Testamentos são para nós um novo Testamento, não por causa da data temporal, mas pela novidade do sentido… Ao contrário, para o pecador e para quantos não respeitam o pacto da caridade, também os Evangelhos envelhecem” (Hom. Num. 9, 4).

Convido-vos e assim concluo a acolher no vosso coração o ensinamento deste grande mestre na fé. Ele recorda-nos com íntimo arrebatamento que, na leitura orante da Escritura e no compromisso coerente da vida, a Igreja renova-se e rejuvenesce sempre. A Palavra de Deus, que nunca envelhece, e nunca termina, é o meio privilegiado para esta finalidade. De facto, é a Palavra de Deus que, por obra do Espírito Santo, nos guia sempre de novo à verdade total (cf. Bento XVI, Aos participantes no Congresso Internacional no XL aniversário da Constituição dogmática “Dei Verbum”, 16/9/2005). E rezemos ao Senhor para que nos dê hoje pensadores, teólogos, exegetas que encontrem esta multidimensão, esta actualidade permanente da Sagrada Escritura, a sua novidade para hoje. Rezemos para que o Senhor nos ajude a ler de modo orante a Sagrada Escritura, a alimentar-nos realmente do verdadeiro pão da vida, da sua Palavra.

O PENSAMENTO

A catequese de quarta-feira passada foi dedicada à grande figura de Orígenes, doutor de Alexandria dos séculos II-III. Naquela catequese tomámos em consideração a vida e a produção literária do grande mestre de Alexandria, indicando na “tríplice leitura” da Bíblia, por ele conotada, o núcleo animador de toda a sua obra. Deixei de parte para os retomar hoje dois aspectos da doutrina origeniana, que considero entre os mais importantes e actuais: pretendo falar dos seus ensinamentos sobre a oração e sobre a Igreja.

Na verdade Orígenes autor de um importante e sempre actual tratado Sobre a oração entrelaça constantemente a sua produção exegética e teológica com experiências e sugestões relativas à adoração. Não obstante toda a riqueza teológica de pensamento, nunca é um desenvolvimento meramente académico; está sempre fundado na experiência da oração, do contacto com Deus. De facto, na sua opinião, a compreensão das Escrituras exige, ainda mais do que o estudo, a intimidade com Cristo e a oração. Ele está convicto de que o caminho privilegiado para conhecer Deus seja o amor, e que não se verifica a autêntica scientia Christi sem se apaixonar por Ele. Na Carta a Gregório Orígenes recomenda: “Dedica-te à lectio das divinas Escrituras; aplica-te a isto com perseverança. Compromete-te na lectio com intenção de acreditar e de agradar a Deus. Se durante a lectio te encontrares diante de uma porta fechada, bate e abrir-te-á aquele guardião, do qual Jesus disse: “O guardião abri-la-á”. Aplicando-te assim à lectio divina, procura com lealdade e confiança inabalável em Deus o sentido das Escrituras divinas, que nelas se encontra com grande amplitude. Mas não deves contentar-te com bater e procurar: para compreender as coisas de Deus é-te absolutamente necessária a oratio“. Precisamente para nos exortar a ela o Salvador nos disse não só: “Procurai e encontrareis”, e “Batei e servos-á aberta”, mas acrescentou: “Pedi e recebereis” (Ep. Gr. 4). Sobressai imediatamente o “papel primordial” desempenhado por Orígenes na história da lectio divina. O Bispo Ambrósio de Milão que aprenderá a ler as Escrituras das obras de Orígenes introduzi-la-á depois no Ocidente, para a entregar a Agostinho e à tradição monástica sucessiva.

Como já dissemos, o mais alto nível do conhecimento de Deus, segundo Orígenes, brota do amor. É assim também entre os homens: um só conhece realmente em profundidade o outro se tem amor, se se abrem os corações. Para demonstrar isto, ele baseia-se num significado dado por vezes ao verbo conhecer em hebraico, isto é, quando é utilizado para expressar o acto do amor humano: “Adão conheceu Eva, sua mulher. Ela concebeu…” (Gn 4, 1). Assim é sugerido que a união no amor origina o conhecimento mais autêntico. Assim como o homem e a mulher são “dois numa só carne”, assim Deus e o crente se tornam “dois num mesmo espírito”. Desta forma a oração do Alexandrino alcança os níveis mais elevados da mística, como é confirmado pelas suas Homilias sobre o Cântico dos Cânticos. Vem a propósito um trecho da primeira Homilia, onde Orígenes confessa. “Com frequência, disto Deus é minha testemunha senti que o Esposo se aproximava de mim no máximo grau; depois afastava-se improvisamente, e eu não pude encontrar o que procurava. De novo sinto o desejo da sua vinda, e por vezes ele volta, e quando me apareceu, quando o tenho entre as mãos, de novo me evita, e quando desaparece ponho-me de novo a procurá-lo…” (Hom. Cant. 1, 7).

Volta à mente o que o meu venerado Predecessor escreveu, como autêntica testemunha, na Novo millennio ineunte, onde mostrava aos fiéis “como a oração pode progredir, como verdadeiro e próprio diálogo de amor, até tornar a pessoa humana totalmente possuída pelo Amado divino, vibrante ao toque do Espírito, filialmente abandonada ao coração do Pai… Trata-se prosseguia João Paulo II de um caminho totalmente apoiado pela graça, que contudo exige um forte compromisso espiritual e conhece também dolorosas purificações, mas que leva, de diversas formas possíveis, à indizível alegria vivida pelos místicos como “união esponsal”" (n. 33).

Por fim, tratemos um ensinamento de Orígenes sobre a Igreja, e precisamente no interior dela sobre o sacerdócio comum dos fiéis. De facto, como o Alexandrino afirma na sua Homilia sobre o Levítico, “este discurso refere-se a todos nós” (Hom. Lev. 9, 1). Na mesma Homilia Orígenes referindo-se à proibição feita a Aarão, depois da morte dos seus dois filhos, de entrar na Sancta sanctorum “em qualquer tempo” (Lv 16, 2) assim admoesta os fiéis: “Por isto se demonstra que se alguém entrar em qualquer momento no santuário, sem a devida preparação, não revestido das vestes pontifícias, sem ter preparado as ofertas prescritas e tendo-se tornado Deus propício, morrerá… Este discurso refere-se a todos nós. De facto, ordena que saibamos como aceder ao altar de Deus. Ou não sabes que também a ti, isto é, a toda a Igreja de Deus e ao povo dos crentes, foi conferido o sacerdócio? Ouve como Pedro fala dos fiéis: “Raça eleita”, diz, “real, sacerdotal, nação santa, povo adquirido por Deus”. Portanto, tu tens o sacerdócio porque és “raça eleita”, e por isso deves oferecer a Deus o sacrifício… Mas para que tu o possas oferecer dignamente, tens necessidade de vestes puras e distintas das dos outros homens comuns, e é-te necessário o fogo divino” (ibid.).

Assim por um lado, com o “lado cingido” e as “vestes sacerdotais”, isto é, a pureza e a honestidade da vida, por outro a “lanterna sempre acesa”, isto é, a fé e a ciência das Escrituras, configuram-se como as condições indispensáveis para a prática do sacerdócio universal, que exige pureza e honestidade de vida, fé e ciência das Escrituras. Com razão estas condições são indispensáveis, evidentemente, para a prática do sacerdócio ministerial. Estas condições de íntegro comportamento de vida, mas sobretudo de acolhimento e de estudo da Palavra estabelecem uma verdadeira “hierarquia da santidade” no sacerdócio comum dos cristãos. No vértice deste caminho de perfeição Orígenes coloca o martírio. Sempre na nona Homilia sobre o Levítico alude ao “fogo para o holocausto”, isto é, à fé e à ciência das Escrituras, que nunca se deve apagar no altar de quem exerce o sacerdócio. Depois acrescenta: “Mas cada um de nós tem em si” não só o fogo; tem “também o holocausto, e do seu holocausto acende o altar, para que arda sempre. Eu, se renuncio a tudo quanto possuo e tomo a minha cruz e sigo Cristo, ofereço o meu holocausto no altar de Deus; e se entregar o meu corpo para que arda, tendo a caridade, e obtiver a glória do martírio, ofereço o meu holocausto no altar de Deus” (Hom. Lev. 9, 9).

Este inexaurível caminho de perfeição “refere-se a todos nós”, sob a condição de que “o olhar do nosso coração” esteja voltado para a contemplação da Sabedoria e da Verdade, que é Jesus Cristo. Pregando sobre o discurso de Jesus de Nazaré quando “os olhos de toda a sinagoga estavam fixos nele” (cf. Lc 4, 16-30) parecia que Orígenes se dirigia precisamente a nós: “Também hoje, se o quiserdes, nesta assembleia os vossos olhos podem fixar o Salvador. De facto, quando dirigires o olhar mais profundo do coração para a contemplação da Sabedoria, da Verdade e do Filho único de Deus, então os teus olhos verão a Deus. Feliz assembleia, a que a Escritura afirma que os olhos de todos estavam fixos nele! Como desejaria que esta assembleia recebesse um testemunho semelhante, que os olhos de todos, dos não baptizados e dos fiéis, das mulheres, dos homens e das crianças, não os olhos do corpo, mas da alma, olhassem para Jesus!… Impressa sobre nós está a luz do teu rosto, Ó Senhor, ao qual pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém!” (Hom. Lc 32, 6).


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A uma época «saturada e desesperada», Maria continua a falar

mai 13, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Igreja

Destaca o cardeal Saraiva Martins na celebração de 13 de maio em Fátima

Por Alexandre Ribeiro

FÁTIMA, terça-feira, 13 de maio de 2008 (ZENIT.org).- O cardeal José Saraiva Martins considera que Maria continua a falar à sociedade também hoje, uma época «saturada e desesperada».

Na homilia da peregrinação deste 13 de maio ao Santuário de Fátima, onde a Virgem apareceu aos pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta há 91 anos, o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos afirmou que Maria convida os fiéis a contemplarem as coisas de Deus.

Segundo o cardeal, a Virgem, «com solicitude maternal previa as feridas e contradições da nossa época».

«Não foi por acaso que apareceu nos começos de um século ensanguentado pela loucura de duas Guerras Mundiais, marcado por nacionalismos exasperados, por ideologias ateias e materialistas, que procuraram sufocar a luz da Fé no coração dos homens, no decorrer de sucessivas gerações.»

Dom Saraiva Martins afirma que se estende até os nossos dias «esta sombra escura de suspeita acerca de Deus e da sua obra».

«Até ao presente continua esta ‘apostasia da Fé’ – como a definiu o Papa João Paulo II – que progressivamente comprometeu e contagiou a nossa Europa cristã, que sempre ofereceu ao mundo, ao longo dos séculos, uma cultura rica em humanidade, criativa, respeitadora do Homem e da sua altíssima dignidade de filho de Deus e irmão de Cristo.»

De acordo com o purpurado português, «é precisamente à nossa época, saturada e desesperada, que continua a falar o Coração desta Mãe, traduzindo as coisas de Deus numa linguagem familiar, simples, facilmente compreensível por todos».

«À silenciosa ou manifesta ‘apostasia da Fé’ – há também a ‘apostasia da razão’ – a Virgem Maria não contrapõe as vazias palavras do mundo ou a mentira de uma nova ideologia, mas propõe novamente Cristo», afirma o cardeal.

O homem de hoje, «iludido e desiludido da vida» –prossegue Dom Saraiva Martins–, «por vezes parece ter desistido de esperar».

«Caíram as consideradas certezas das ideologias; o bem-estar e o consumismo – que aparentemente satisfazem as nossas necessidades e exigências. Caíram todos estes sistemas que revelam de fato, cada vez mais, a sua inconsistência. A radical incapacidade de fazer o homem feliz.»

Nesse contexto, «só em Deus o homem se encontra plenamente a si mesmo».

Segundo o cardeal, diante da perda do sentido dos valores e a desorientação das consciências, «Nossa Senhora indica os princípios não negociáveis, dos quais inevitavelmente se deve partir para fundar uma correta convivência, civil e cristã».

«A vida; a família; o matrimônio, como união estável e fiel de um homem e de uma mulher, e não de qualquer outro modo; a caridade concreta; a dignidade pessoal, estendida a todos os momentos e a todas as dimensões da existência.»

«Este é o fundo e o ambiente – humano e cristão – no qual se colocam a Mensagem e os acontecimentos da Cova da Iria», afirma Dom Saraiva Martins.


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Igreja, unidade na diversidade; explica Bento XVI em Pentecostes

mai 12, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Santa Sé

Convertendo-se assim em mensageira da paz de Cristo ao mundo

CIDADE DO VATICANO, domingo, 11 de maio de 2008 (ZENIT.org).- A Igreja constitui uma unidade na diversidade, chamada a transmitir a verdadeira paz de Cristo a toda a humanidade, assegurou Bento XVI na solenidade de Pentecostes.

Assim explicou o Santo Padre durante a homilia da celebração eucarística deste domingo, presidida em uma Basílica de São Pedro do Vaticano cheia de peregrinos, na qual declarou que a Igreja não é «uma federação de Igrejas».

Como explicou o pontífice comentando as escrituras da liturgia, a Igreja teve seu «batismo de fogo» na vinda do Espírito Santo sobre os discípulos, reunidos junto com a Virgem Maria em Jerusalém.

«Em Pentecostes a Igreja não fica constituída pela vontade humana, mas pela fortaleza do Espírito de Deus. E imediatamente pode-se ver que este Espírito dá vida a uma comunidade que é ao mesmo tempo única e universal, superando assim a maldição de Babel», assegurou.

Multiplicidade e unidade

«De fato, só o Espírito Santo - sublinhou -, que cria unidade no amor e na recíproca aceitação das diversidades, pode libertar a humanidade da constante tentação de uma vontade de potência que quer dominá-lo e uniformizá-lo totalmente».

O Papa quis deter-se em «um aspecto peculiar da ação do Espírito Santo», ou seja, na relação entre «multiplicidade e unidade».

Já em Pentecostes fica claro, disse, que «pertencem à Igreja os diferentes idiomas e culturas; na fé podem compreender-se e fecundar-se mutuamente», desde seu nascimento a Igreja «já é “católica, universal».

«Fala desde o início todos os idiomas, pois o Evangelho que se confiou está destinado a todos os povos, segundo a vontade e o mandato de Cristo ressuscitado».

«A Igreja que nasce em Pentecostes não é antes de tudo uma comunidade particular, a Igreja de Jerusalém, mas a Igreja universal, que fala os idiomas de todos os povos».

«Dela nascerão depois as demais comunidades em todas as partes do mundo, Igrejas particulares que são sempre expressão da única Igreja de Cristo».

«Portanto, a Igreja Católica não é uma federação de Igrejas, mas uma realidade única: a prioridade ontológica corresponde à Igreja universal - indicou -. Uma comunidade que não fosse neste sentido católica não seria nem sequer Igreja».

Vínculo de paz para a humanidade

Mas esta unidade não só deve ser vivida dentro da Igreja, mas tem de ser anunciada também «até os confins da terra».

Uma mensagem que Jesus ressuscitado pronuncia com a palavra hebraica «Shalom, paz a vós!».

«A expressão shalom não é uma simples saudação - declarou o bispo de Roma -; é muito mais: é o dom da paz prometida, conquistada por Jesus com o preço de seu sangue, é o fruto da vitória na luta contra o espírito do mal».

Em Pentecostes, o Papa pediu voltar a tomar consciência da «responsabilidade que implica este dom: responsabilidade da Igreja de ser constitucionalmente sinal e instrumento da paz de Deus para todos os povos».

«Tentei transmitir esta mensagem ao visitar recentemente a sede da ONU para dirigir minha palavra aos representantes dos povos», confessou.

«A Igreja realiza seu serviço à paz de Cristo sobretudo na presença e ação ordinária em meio dos homens, com a pregação do Evangelho e com os sinais de amor e de misericórdia que a acompanham», acrescentou.

E, entre estes sinais, sublinhou principalmente o serviço que a Igreja oferece ao ministrar o sacramento da Reconciliação.

«Que importante –infelizmente não suficientemente compreendido– é o dom da Reconciliação, que pacifica os corações!», exclamou.

«A paz de Cristo se difunde só através de corações renovados de homens e mulheres reconciliados, servidores da justiça, dispostos a difundir no mundo a paz com a única força da verdade, sem rebaixar-se a compromissos com a mentalidade do mundo, pois o mundo não pode dar a paz de Cristo: deste modo a Igreja pode ser fermento dessa reconciliação que procede de Deus», concluiu.


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Homilia de Bento XVI no 3º aniversário do falecimento de João Paulo II

abr 8, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Santa Sé

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de abril de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou nesta quarta-feira, ao presidir a celebração eucarística no 3º aniversário do falecimento de João Paulo II.

* * *

Queridos irmãos e irmãs:

O dia 2 de abril ficou gravado na memória da Igreja como o dia do «adeus» a este mundo do servo de Deus o Papa João Paulo II. Revivamos com emoção as horas daquele sábado à tarde, quando a notícia do falecimento foi acolhida por uma grande multidão em oração, que enchia a Praça de São Pedro. Durante vários dias, a Basílica Vaticana e esta praça se converteram verdadeiramente no coração do mundo. Um rio ininterrupto de peregrinos prestou homenagem aos restos mortais do venerado pontífice e seus funerais supuseram um ulterior testemunho da estima e do afeto que ele havia conquistado no espírito de tantos crentes e pessoas de todos os lugares da terra.

Assim como três anos atrás, tampouco hoje passou muito tempo desde a Páscoa. O coração da Igreja se encontra ainda submerso no mistério da Ressurreição do Senhor. Realmente podemos ler toda a vida de meu querido predecessor, em particular seu ministério petrino, segundo o sinal de Cristo Ressuscitado. Ele tinha uma fé extraordinária n’Ele, e com Ele mantinha uma conversa íntima, singular, ininterrupta. Entre suas muitas qualidades humanas e sobrenaturais, tinha uma excepcional sensibilidade espiritual e mística.

Bastava observá-lo enquanto rezava: ele se submergia literalmente em Deus e parecia que todo o resto naqueles momentos era distante. Nas celebrações litúrgicas, estava atento ao mistério em ato, com uma aguda capacidade para perceber a eloqüência da Palavra de Deus no devir da história, penetrando no nível profundo do desígnio de Deus. A santa missa, como repetiu com freqüência, era para ele o centro de cada dia e de toda a existência. A realidade «viva e santa» da Eucaristia que lhe dava energia espiritual para guiar o povo de Deus no caminho da história.

João Paulo II expirou na vigília do segundo domingo da Páscoa, «o dia que o Senhor fez para nós». Toda sua agonia aconteceu nesse «dia», em um espaço-tempo novo, que é o «oitavo dia», querido pela Santíssima Trindade através da obra do Verbo encarnado, morto e ressuscitado. O Papa João Paulo II demonstrou em várias ocasiões que já antes, durante sua vida, e especialmente no cumprimento da missão de Sumo Pontífice, ele se encontrava de alguma maneira nesta dimensão espiritual.

Seu pontificado, em seu conjunto e em muitos momentos específicos, é-nos apresentado como um sinal e um testemunho da Ressurreição de Cristo. O dinamismo pascal, que fez da existência de João Paulo II uma resposta total ao chamado do Senhor, não podia expressar-se sem participar nos sofrimentos e na morte do divino Mestre e Redentor. «É certa esta afirmação do apóstolo Paulo: «Se morremos com Ele, também viveremos com ele; se nos mantemos firmes, também reinaremos com ele» (2 Timóteo 2, 11-12).

Desde criança, Karol Wojtyla havia experimentado a verdade destas palavras, ao encontrar a cruz em seu caminho, em sua família e em seu povo. Muito cedo decidiu levá-la junto a Jesus, seguindo seus passos. Quis ser um servidor fiel seu até acolher o chamado ao sacerdócio como dom e compromisso de toda a vida. Com Ele viveu e com Ele quis morrer. E tudo isso através da singular mediação de Maria Santíssima, Mãe da Igreja, mãe do Redentor íntima e realmente associada a seu mistério salvífico de morte e ressurreição.

Nesta reflexão evocativa nos guiam as leituras bíblicas que acabam de ser proclamadas: «Não tenhais medo!» (Mateus 28, 5). As palavras do anjo da ressurreição, dirigidas às mulheres diante do sepulcro vazio, que acabamos de escutar, converteram-se em uma espécie de lema nos lábios do Papa João Paulo II, desde o solene início de seu ministério petrino. Ele as repetiu em várias ocasiões à Igreja e à humanidade na preparação para o ano 2000, e depois ao atravessar aquela histórica etapa, assim como depois, na aurora do terceiro milênio. Ele as pronunciou sempre com inflexível firmeza, primeiro levantando o báculo pastoral coroado pela cruz e, depois, quando as energias físicas iam-se enfraquecendo, quase agarrando-se a ele, até aquela última Sexta-Feira Santa, na qual participou na Via Sacra desde a capela privada, apresentando entre seus braços a cruz. Não podemos esquecer aquele último e silencioso testemunho de amor a Jesus. Aquela eloqüente cena de sofrimento humano e de fé, naquela última Sexta-Feira Santa, também indicava aos crentes e ao mundo o segredo de toda a vida cristã. Aquele «não tenhais medo» não se baseava nas forças humanas, nem nos êxitos conseguidos, mas unicamente na Palavra de Deus, na cruz e na Ressurreição de Cristo. Na medida que ia desnudando-se totalmente, ao final, inclusive da própria palavra, esta entrega total a Cristo se manifestou com crescente clareza. Como aconteceu com Jesus, também no caso de João Paulo II as palavras cederam lugar no final ao último sacrifício, a entrega de si. E a morte foi o selo de uma existência totalmente entregue a Cristo, conformada com ele inclusive fisicamente, com as marcas do sofrimento e do abandono confiado nos braços do Pai celestial. «Deixem que eu vá ao Pai»: estas – testemunha quem esteve a seu lado – foram suas últimas palavras, cumprimento de uma vida totalmente orientada a conhecer e contemplar o rosto do Senhor.

Venerados e queridos irmãos: eu agradeço a todos por ter-vos unidos a mim nesta missa de sufrágio pelo amado João Paulo II. Dirijo um pensamento particular aos participantes do primeiro congresso mundial sobre a Divina Misericórdia, que começa precisamente hoje, e que quer aprofundar em seu rico magistério sobre este tema. A misericórdia de Deus, disse ele mesmo, é uma chave de leitura privilegiada de seu pontificado. Ele queria que a mensagem do amor misericordioso de Deus alcançasse todos os homens e exortava os fiéis a serem suas testemunhas (cf. Homilia em Cracóvia-Lagiewniki, 17 de agosto de 2002).

Por este motivo, ele quis elevar à honra dos altares a irmã Faustina Kowalska, humilde religiosa convertida por um misterioso desígnio divino na mensageira profética da Divina Misericórdia. O servo de Deus João Paulo II havia conhecido e vivido pessoalmente as terríveis tragédias do século XX, e se perguntou durante muito tempo o que poderia deter o avanço do mal. A resposta só podia ser encontrada no amor de Deus. Só a Divina Misericórdia, de fato, é capaz de pôr limites ao mal; só o amor onipotente de Deus pode derrotar a prepotência dos malvados e o poder destruidor do egoísmo e do ódio. Por este motivo, durante sua última visita à Polônia, ao regressar à sua terra natal, ele disse: «Fora da misericórdia de Deus não existe outra fonte de esperança para o homem» (ibidem).

Agradeçamos ao Senhor porque entregou à Igreja este seu servidor fiel e valente. Louvemos e bendigamos a Virgem Maria por ter velado incessantemente por sua pessoa e seu ministério para benefício do povo cristão e de toda a humanidade. E enquanto oferecemos por sua alma escolhida o Sacrifício redentor, nós lhe pedimos que continue intercedendo do céu por cada um de nós, por mim de maneira especial, a quem a Providência chamou a recolher sua inestimável herança espiritual. Que a Igreja, seguindo seus ensinamentos e exemplos, possa continuar fielmente sua missão evangelizadora, difundindo sem cessar o amor misericordioso de Cristo, manancial de verdadeira paz para o mundo inteiro.

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri.

© Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana]


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