Notícias e novidades da Igreja Católica no mundo
Por Bob Stanley
Tradução: n/c
Fonte: http://www.veritatis.com.br
Verdade: o que é?
A definição de “Verdade” é “o contrário de erro”. Verdade significa estar em harmonia com um fato. É correto. Verdade é ação, é quando a consciência humana concorda com o intelecto. A Verdade é “UMA”. Só pode haver uma verdade, Jo 17,17-23. Qualquer variação de uma verdade não é mais verdade, é erro.
A Verdade é uma pessoa. Jesus Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, Jo 14,6. Quando DEUS criou cada um de nós, Ele escreveu Sua lei em nossos corações…”Os pagãos, que não têm a lei, fazendo naturalmente as coisas que são da lei, emboram não tenham a lei, a si mesmos servem de lei; ELES MOSTRAM QUE O OBJETO DA LEI ESTÁ GRAVADO NOS SEUS CORAÇÕES, DANDO-LHES TESTEMUNHO A SUA CONSCIÊNCIA, BEM COMO OS SEUS RACIOCÍNIOS, COM OS QUAIS SE ACUSAM OU SE ESCUSAM MUTUALMENTE.”, Rom 2,14-15. Leia também Heb 8,10 e Heb 10,16.
É a nossa consciência que examina essas leis. O “livre arbítrio”, que nos foi dado quando fomos criados, faz uma decição baseado no que a consciência está lhe dizendo, e o que o intelecto está afirmando. “Livre arbítrio” nos dá a abilidade de tomar as decisões certas ou erradas aos olhos de DEUS. DEUS fez as leis e, repetidamente, nos instruiu a fazer o que é correto, e nos advertiu contra fazer o mal. Se não tivéssemos livre arbítrio, não haveria necessidade de instruções e advertências. DEUS poderia simplesmente nos mandar fazer a Sua vontade e nós não teríamos como nos opôr. Usando o livre arbítrio, decidimos qual curso de ação será tomada para cada incidente individual com o qual nos deparamos na vida. Usando o livre arbítrio, cada um decide por si mesmo onde passará a eternidade..
DEUS não manda ninguém para o inferno. Nós mandamos a nós mesmos, através das decisões que fazemos nesta vida. Em acréscimo às leis de DEUS escritas em nossos corações, DEUS também infundiu uma fome e um desejo inato de procurá-Lo. Como DEUS é a “Verdade”, este desejo inato é o de procurar a “verdade” em todas as coisas. Quando procuramos a verdade e a encontramos, então encontramos DEUS.
Isto nos leva ao propósito deste arquivo. A fim de encontrar a verdade, nós temos que fazer testes. Temos a obrigação de questionar se estamos no processo de entrar pelo larga porta da perdição ou a porta estreita da salvação. “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida E RAROS SÃO OS QUE O ENCONTRAM.”, Mat 7,13-14. Estes versículos dizem claramente que a maioria de nós está no largo caminho da destruição. Você não quer estar no caminho estreito que leva ao Céu?
A fim de se assegurar de que está no caminho certo, você tem que fazer testes. Você é obrigado a verificar todas as opções, examiná-las com o intelecto e fazer com que elas concordem com a consciência. Satanás sabe muito bem se disfarçar e nos enganar, a fim de que acreditemos que algo parece verdade enquanto, na realidade, é erro. . Leia Is 5,20: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas”. Ele é o responsável por tantos que caminharem pelo caminho largo. Ele está constantemente lhe dizendo que você está no caminho estreito quando, de fato, ele já te colocou no caminho largo, a super rodovia para os seus domínios.
Nós não devemos nos acomodar e aceitar que temos a verdade sem pô-la a prova constantemente. Se você se acomoda e se recusa a testar, existe a chance de que esteja no caminho largo, conforme Mat 7,13-14 está tentando lhe dizer…
Mas como testamos a verdade? Já lhe dei a resposta no primeiro parágrafo. Você deve procurar pelo erro, você tem que ver se a verdade se ajusta ao fato. Aqui estão algumas dicas. Consulte sua consciência enquanto as estuda …
Esta é uma mensagem muito séria, que todos deveriam prestar atenção se realmente se importam com sua salvação. Afinal de contas, vocês estão jogando uma Roleta-Russa com as suas almas imortais. Todos nós passaremos a eternidade no céu ou no inferno. Nós próprios fazemos esta escolha com o nosso livre arbítrio. Só temos esta vida para fazer a escolha. Quem sabe quando esta vida vai terminar? Pode ser nos próximos minutos. Não há uma segunda chance. A hora é AGORA!
Você já parou para comparar a eternidade com a vida neste mundo? Este período na terra é insignificante, somente um piscar de olhos, comparado com uma eternidade de torturas no inferno ou com as felicidades inimagináveis do céu. “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que DEUS tem preparado para aqueles que O amam.” 1Cor 2,9…
Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit
Queridos irmãos e irmãs:
O padre da Igreja que apresentaremos hoje é São Paulino de Nola. Da mesma época de Santo Agostinho, com quem esteve unido através de uma intensa amizade, Paulino exerceu seu ministério em Campânia, em Nola, onde foi monge, e depois presbítero e bispo. Era originário de Aquitânia, no sul da França, mais concretamente de Bordeaux, onde nasceu no seio de uma família de alta ascendência. Lá recebeu uma fina educação literária, tendo por mestre o poeta Ausônio. Afastou-se de sua terra em um primeiro momento para seguir sua precoce carreira política. Sendo ainda jovem, desempenhou o papel de governador de Campânia. Neste cargo público, destacou-se por sua sabedoria e mansidão. Neste período, a graça fez germinar em seu coração a semente da conversão. A chama surgiu da fé simples e intensa com a qual o povo honrava o túmulo de um santo, o mártir Félix, no santuário da atual Cimitile. Como responsável público, Paulino se preocupou por este santuário e fez construir um hospital para os pobres e um caminho para tornar mais fácil o acesso dos numerosos peregrinos.
Enquanto se dedicava a construir a cidade terrena, descobria o caminho para a cidade celestial. O encontro com Cristo foi o ponto de chegada, depois de um caminho árduo, semeado de provas. Circunstâncias dolorosas, começando pela perda do favor da autoridade política, fizeram-no tocar a caducidade do terreno. Após descobrir a fé, escreveria: «o homem sem Cristo é pó e sombra» (Carmen X, 289). Buscando o sentido da existência, viajou a Milão para aprender de Santo Ambrósio. Depois completou a formação cristã em sua terra natal, onde recebeu o batismo das mãos do bispo Delfim, de Burdeos. Em seu caminho de fé aparece também o matrimônio. Casou-se com Teresa, uma mulher nobre de Barcelona, com quem teve um filho. Teria seguido sendo um bom leigo cristão, se a morte do filho poucos dias depois não lhe tivesse afetado interiormente, mostrando-lhe que Deus tinha outro desígnio para sua vida. Sentiu-se chamado a entregar-se a Cristo em uma rigorosa vida ascética.
Em pleno acordo com sua mulher, Teresa, vendeu seus bens para ajudar os pobres e, junto com ela, deixou Aquitânia para morar em Nola, junto à basílica do protetor São Félix, em casta fraternidade, segundo uma forma de vida à qual outros se uniram. O ritmo era tipicamente monástico, mas Paulino, que foi ordenado presbítero em Barcelona, começou a exercer também o ministério sacerdotal com os peregrinos.
Isso lhe trouxe a simpatia e a confiança da comunidade cristã que, ao morrer o bispo, no ano 409, escolheu-o como sucessor na cátedra de Nola. Sua ação pastoral se intensificou, caracterizando-se por uma atenção aos pobres. Deixou a imagem de um autêntico pastor da caridade, como o descreveu São Gregório Magno no capítulo III de seu Diálogos, onde Paulino é retratado no heróico gesto de oferecer-se como prisioneiro no lugar do filho de uma viúva. O episódio é discutido historicamente, mas resta-nos a figura de um bispo de grande coração, que soube estar junto a seu povo nas tristes contingências das invasões dos bárbaros.
A conversão de Paulino impressionou seus contemporâneos. Seu mestre, Ausônio, poeta pagão, sentiu-se «traído» e lhe dirigiu palavras duras, repreendendo-lhe por seu «desprezo», considerado irracional, dos bens materiais, e por abandonar sua vocação de escritor. Paulino replicou que sua ajuda aos pobres não significava desprezo pelos bens terrenos, mas sim valorização deles com o fim mais elevado da caridade. Pelo que se refere a suas capacidades literárias, Paulino não havia abandonado o talento poético, que seguiria cultivando, mas sim as fórmulas poéticas inspiradas na mitologia e nos ideais pagãos. Uma nova ascética regia sua sensibilidade: era a beleza do Deus encarnado, crucificado e ressuscitado de quem agora se havia convertido em trovador. Na realidade, não havia deixado a poesia, mas passava a buscar inspiração no Evangelho, como diz neste verso: «Para mim a única arte é a fé, e Cristo é minha poesia» («At nobis ars una fides, et musica Christus»: Carmen XX, 32).
Seus poemas são cantos de fé e de amor, nos quais a história diária dos pequenos e grandes acontecimentos é vista como história de salvação, como história de Deus conosco. Muitas dessas composições estão ligados à festa anual do mártir Félix, a quem havia escolhido como padroeiro celeste. Recordando São Félix, queria glorificar o próprio Cristo, certo de que a intercessão do santo lhe havia alcançado a graça da conversão: «Em tua luz, glorioso, amei a Cristo» (Carmen XXI, 373). Expressou este mesmo conceito ampliando o espaço do santuário com uma nova basílica, que decorou de forma que as pinturas, ilustradas com explicações adequadas, converteram-se para os peregrinos em uma catequese visual. Deste modo, explicava seu projeto em um «carmen», dedicado a outro grande catequista, São Niceto de Remesiana, enquanto o acompanhava em uma visita a suas basílicas: «Agora quero que contemples a longa série de pinturas das paredes dos pórticos… Pareceu-nos útil representar com a pintura argumentos sagrados em toda a casa de Félix, com a esperança de que, ao ver estas imagens, a figura desenhada suscite o interesse das mentes surpreendidas dos camponeses» (Carmen XXVII, versículos 511.580.583). Ainda hoje se podem admirar aqueles vestígios que fazem do santo de Nola uma das figuras de referência da arqueologia cristã.
No cenóbio de Cimitile, a vida discorria em pobreza, oração e totalmente submersa na lectio divina. A Escritura lida, meditada, assimilada, era o raio de luz através do qual o santo de Nola escrutava sua alma em sua busca da perfeição. A quem se surpreendia pela sua decisão de abandonar os bens materiais, ele recordava que este gesto não representava nem de longe a plena conversão: «Abandonar ou vender os bens temporais possuídos neste mundo não significa o cumprimento, mas só o início da carreira no estágio; não é, por assim dizer, a meta, mas só a saída. O atleta não ganha quando tira sua roupa, pois a deixa de lado para poder começar a lutar. Só recebe a coroa de vencedor depois de ter combatido como se deve» (cf. Epístola XXIV, 7 a Sulpício Severo).
Junto à ascese e à Palavra de Deus, a caridade: na comunidade monástica, os pobres se sentiam em sua casa. Paulino não se limitava a dar-lhes esmola: acolhia-os como se fossem o próprio Cristo. Reservava-lhes uma ala do mosteiro e, deste modo, não tinha a impressão de dar, mas de receber, no intercâmbio de dons entre a acolhida oferecida e a gratidão feita oração daqueles a quem ajudava. Chamava os pobres de seus «donos» (cf. Epístola XIII, 11 a Pamáquio) e, ao observar que eles ficavam no andar inferior, dizia-lhes que sua oração desempenhava a função dos fundamentos de sua casa (cf. Carmen XXI, 393-394).
São Paulino não escreveu tratados de teologia, mas seus «carmens» e seu denso epistolário estão repletos de uma teologia vivida, penetrada pela Palavra de Deus, escrutada constantemente como luz para a vida. Em particular, expressa o sentido da Igreja como mistério de unidade. Vivia a comunhão sobretudo através de uma profunda prática da amizade espiritual. Neste sentido, Paulino foi um verdadeiro mestre, fazendo de sua vida um cruzamento de caminhos de espíritos escolhidos: de Martinho de Tours a Jerônimo, de Ambrósio a Agostinho, de Delfin de Burdeos a Niceto de Remesiana, de Vitricio de Rouen a Rufino de Aquiléia, de Pamáquio a Sulpício Severo, e muitos mais, sejam conhecidos ou não. Neste clima nascem as intensas páginas que dirigiu a Agostinho. Independentemente dos conteúdos das diferentes cartas, impressiona o ardor com o qual o santo de Nola canta a própria amizade, como manifestação do único corpo de Cristo animado pelo Espírito Santo.
Esta é uma significativa passagem dos inícios da correspondência entre os dois amigos: «Não é de surpreender que nós, apesar da distância, estejamos juntos, e sem ter-nos conhecido nos conhecemos, pois somos membros de um só corpo, temos uma só cabeça, ficamos inundados por uma só graça, vivemos de um só pão, caminhamos por um caminho único, vivemos na mesma casa» (Epístola 6, 2). Como se pode ver, trata-se de uma belíssima descrição do que significa ser cristãos, ser Corpo de Cristo, viver na comunhão da Igreja. A teologia em nosso tempo encontrou precisamente no conceito de comunhão a chave para enfrentar o mistério da Igreja. O testemunho de São Paulino de Nola nos ajuda a experimentar a Igreja como o Concílio Vaticano II a apresenta: sacramento da íntima união com Deus e, deste modo, da unidade de todos nós e por último, de todo o gênero humano (cf. Lumen gentium, 1). Com esta perspectiva, eu desejo a todos vós um feliz tempo de Advento.
Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit
Queridos irmãos:
Segundo uma opinião comum hoje, o cristianismo seria uma religião européia, que teria exportado a cultura deste continente a outros países. Mas a realidade é muito mais complexa, pois a raiz da religião cristã se encontra no Antigo Testamento e, portanto, em Jerusalém e no mundo semítico. O cristianismo se alimenta sempre desta raiz do Antigo Testamento. Sua expansão nos primeiros séculos aconteceu tanto para o Ocidente como para o mundo greco-latino, onde depois inspirou a cultura Européia, como para o Oriente, até a Pérsia, Índia, ajudando deste modo a suscitar uma cultura específica, com línguas semíticas, e com uma identidade própria.
Para mostrar esta multiformidade cultural da única fé cristã dos inícios, na catequese da quarta-feira passada falei de um representante deste outro cristianismo, Afraates o sábio persa, para nós quase desconhecido. Nesta mesma linha, quero falar hoje de Santo Efrém o sírio, nascido em Nisibis em torno do ano 306, no seio de uma família cristã.
Foi o representante mais importante do cristianismo no idioma sírio e conseguiu conciliar de maneira única a vocação de teólogo com a de poeta. Formou-se e cresceu junto a Tiago, bispo de Nisibis (303-338), e junto a ele fundou a escola teológica de sua cidade. Ordenado diácono, viveu intensamente a vida da comunidade local até o ano 363, no qual Nisibis caiu nas mãos dos persas. Então Efrém imigrou para Edesa, onde continuou pregando. Morreu nesta cidade no ano 373, ao ser contagiado de peste em sua obra de atenção aos enfermos.
Não se sabe realmente se ele era monge, mas em todo caso é certo que decidiu continuar sendo diácono durante toda a sua vida, abraçando a virgindade e a pobreza. Deste modo, no caráter específico de sua cultura, pode-se ver a comum e fundamental identidade cristã: a fé, a esperança – essa esperança que permite viver pobre e casto neste mundo, pondo toda expectativa no Senhor – e por último a caridade, até oferecer o dom de si mesmo no cuidado dos enfermos de peste.
Santo Efrém nos deixou uma grande herança teológica: sua considerável produção pode reagrupar-se em quatro categorias: obras escritas em prosa (suas obras polêmicas e os comentários bíblicos); obras em prosa poética; homilias em verso; e por último, os hinos, sem dúvida a obra mais ampla de Efrém. É um autor prolífico e interessante em muitos aspectos, mas sobretudo desde o ponto de vista teológico.
O caráter específico de seu trabalho consiste em unir teologia e poesia. Ao aproximar-nos de sua doutrina, temos de insistir desde o início nisso: ele faz teologia de forma poética. A poesia lhe permite aprofundar na reflexão teológica através de paradoxos e imagens. Ao mesmo tempo, sua teologia se torna liturgia, se torna música: de fato, era um grande compositor, um músico. Teologia, reflexão sobre a fé, poesia, canto, louvor a Deus, estão unidos; e precisamente por este caráter litúrgico, aparece com nitidez na teologia de Efrém a verdade divina. Na busca de Deus, ao fazer teologia, segue o caminho do paradoxo e do símbolo. Privilegia as imagens opostas, pois lhe servem para sublinhar o mistério de Deus.
Agora não posso falar muito dele, em parte porque é difícil traduzir a poesia, mas para dar ao menos uma idéia de sua teologia poética, quero citar passagens de dois hinos. Antes de tudo, e frente também ao próximo Advento, eu vos proponho umas esplêndidas imagens tomadas dos hinos «Sobre a natividade de Cristo». Diante de Nossa Senhora, Efrém manifesta com inspiração sua maravilha:
«O Senhor veio a ela
para tornar-se servo.
O Verbo veio a ela
para calar em seu seio.
O raio veio a ela
para não fazer ruído.
O pastor veio a ela,
e nasceu o Cordeiro, que chora docemente.
O seio de Maria
trocou os papéis:
quem criou tudo
apoderou-se dele, mas na pobreza.
O Altíssimo veio a ela (Maria),
mas entrou humildemente.
O esplendor veio a ela,
mas vestido com roupas humildes.
Quem tudo dá
experimentou a fome.
Quem dá de beber a todos
sofreu a sede.
Saiu dela nu,
quem tudo reveste (de beleza)» (Himno «De Nativitate» 11, 6-8) (more…)

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Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit
Caríssimos irmãos e irmãs,
Em nossa excursão ao mundo dos Padres da Igreja, irei hoje vos guiar a uma parte pouco conhecida deste universo da fé, que são os territórios nos quais floresceram as Igrejas de língua semítica, ainda não influenciadas pelo pensamento grego. Essas Igrejas se desenvolveram ao longo do século IV no Oriente Médio, desde a Terra Santa até o Líbano e a Mesopotâmia.
Durante aquele século, que foi um período de formação no âmbito eclesial e literário, em tais comunidades se manifestou o fenômeno ascético-monástico com características autóctones, que não experimentaram a influência do monaquismo egípcio. Deste modo, as comunidades sírias do século IV foram uma representação do mundo semítico do qual saiu a própria Bíblia, e foram expressão de um cristianismo cuja formulação teológica ainda não havia entrado em contato com correntes culturais diversas, mas que vivia de formas de pensamento próprias. Foram Igrejas nas quais o ascetismo, sob várias formas eremíticas (eremitas no deserto, nas grutas, reclusos e estilistas), e o monaquismo, sob formas de vida comunitária, desempenharam um papel de vital importância para o desenvolvimento do pensamento teológico e espiritual.
Quero apresentar este mundo através da grande figura de Afraates, conhecido também como «Sábio», um dos personagens mais importantes e, ao mesmo tempo, mais enigmáticos do cristianismo sírio do século IV.
Originário da região de Nínive-Mosul, hoje Iraque, viveu na primeira metade do século IV. Temos poucas notícias sobre sua vida; de qualquer forma, ele manteve relações estreitas com os ambientes ascético-monásticos da Igreja síria, sobre a qual nos transmitiu algumas notícias em sua obra e à qual dedicou parte de sua reflexão. Segundo algumas fontes, dirigiu inclusive um mosteiro e, por último, foi ordenado bispo. Escreveu vinte e três discursos conhecidos com o nome de «Exposições» ou «Demonstrações», nos quais tratou diversos temas de vida cristã, como a fé, o amor, o jejum, a humildade, a oração, a própria vida ascética e também a relação entre judaísmo e cristianismo, entre Antigo e Novo Testamento. Escreveu com um estilo simples, com frases breves e com paralelismos às vezes contrastantes; contudo, conseguiu fazer uma reflexão coerente, com um desenvolvimento bem articulado dos vários temas que enfrentou.
Afraates era originário de uma comunidade eclesial que se encontrava na fronteira entre o judaísmo e o cristianismo. Era uma comunidade muito unida à Igreja de Jerusalém, e seus bispos eram eleitos tradicionalmente dentre os assim chamados «familiares» de Tiago, o «irmão do Senhor» (cf. Marcos 6, 3), ou seja, eram pessoas com vínculos de sangue e de fé com a Igreja jerosolimita. A língua de Afraates era o sírio, portanto, uma língua semítica como o hebraico do Antigo Testamento e o aramaico falado pelo próprio Jesus. A comunidade eclesial na qual Afraates viveu era uma comunidade que procurava permanecer fiel à tradição judaico-cristã, da qual se sentia filha. Por isso, mantinha uma relação estreita com o mundo judaico e com seus livros sagrados. Afraates se definia significativamente como «discípulo da Sagrada Escritura» do Antigo e do Novo Testamento («Exposição» 22, 26), que considerava sua única fonte de inspiração, recorrendo a ela tão freqüentemente até o ponto de convertê-la no centro de sua reflexão.
Os argumentos que Afraates desenvolveu em suas «Exposições» são variados. Fiel à tradição síria, apresentou com freqüência a salvação realizada por Cristo como uma cura e, por conseguinte, o próprio Cristo como o médico. No entanto, considera o pecado como uma ferida, que só a penitência pode sanar: «Um homem que foi ferido em batalha – dizia Afraates –, não se envergonha de colocar-se nas mãos de um médico sábio (…); do mesmo modo, quem foi ferido por Satanás não deve envergonhar-se de reconhecer sua culpa e afastar-se dela, pedindo o remédio da penitência» («Exposição» 7, 3).
Outro aspecto importante da obra de Afraates é seu ensinamento sobre a oração e, em especial, sobre Cristo como mestre de oração. O cristão reza seguindo o ensinamento de Jesus e seu exemplo orante: «Nosso Salvador ensinou a rezar dizendo assim: ‘Ora no segredo a quem está escondido, mas vê tudo’; e também: ‘Entra em teu quarto e ora a teu Pai, que está no segredo, e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará’ (Mateus 6, 6) (…). O que nosso Salvador quer mostrar é que Deus conhece os desejos e os pensamentos do coração» («Exposição», 4, 10).
Para Afraates, a vida cristã se centraliza na imitação de Cristo, em tomar seu jugo e em segui-lo pelo caminho do Evangelho. Uma das virtudes mais convenientes para o discípulo de Cristo é a humildade. Não é um aspecto secundário da vida espiritual do cristão: a natureza do homem é humilde, e Deus a eleva à sua própria glória. A humildade – observou Afraates – não é um valor negativo: «Se a raiz do homem está plantada na terra, seus frutos crescem ante o Senhor da grandeza» («Exposição» 9, 14). Sendo humilde, inclusive na realidade terrena que vive, o cristão pode entrar em relação com o Senhor. «O humilde é humilde, mas seu coração se eleva a alturas excelsas. Os olhos de seu rosto observam a terra e os olhos de sua mente, a altura excelsa» («Exposição» 9, 2).
A visão do homem e de sua realidade corporal que Afraates tinha é muito positiva: o corpo humano, seguindo o exemplo de Cristo humilde, está chamado à beleza, à alegria e à luz: «Deus se aproxima do homem que ama, e é justo amar a humildade e permanecer na condição de humilde. Os humildes são simples, pacientes, amados, íntegros, retos, especialistas no bem, prudentes, serenos, sábios, tranqüilos, pacíficos, misericordiosos, dispostos a converter-se, benévolos, profundos, ponderados, maravilhosos e desejáveis» («Exposição» 9, 14).
Em Afraates, a vida cristã se apresenta com freqüência com uma clara dimensão ascética e espiritual: a fé é sua base, seu fundamento; transforma o homem em um templo onde habita o próprio Cristo. Assim, pois, a fé torna possível uma caridade sincera, que se expressa no amor a Deus e ao próximo. Outro aspecto importante em Afraates é o jejum, que ele interpretava em sentido amplo. Falava do jejum do alimento como uma prática necessária para ser caridoso e virgem, do jejum constituído pela continência visando à santidade, do jejum das palavras vãs ou detestáveis, do jejum da cólera, do jejum da propriedade dos bens visando ao ministério, e do jejum do sono para dedicar-se à oração.
Queridos irmãos e irmãs, voltemos mais uma vez – para concluir – ao ensinamento de Afraates sobre a oração. Segundo este antigo «Sábio», a oração se realiza quando Cristo habita no coração do cristão, e o convida a um compromisso coerente de caridade com o próximo. Com efeito, ele escreveu: «Consola os aflitos, visita os enfermos, sê solicito com os pobres: esta é a oração. A oração é boa, e suas obras são maravilhosas. A oração é aceita quando consola o próximo. A oração é escutada quando nela se encontra também o perdão das ofensas. A oração é forte quando está cheia da força de Deus» («Exposição» 4, 14-16).
Com estas palavras, Afraates nos convida a uma oração que se converte em vida cristã, em vida realizada, em vida impregnada de fé, de abertura a Deus e, assim, de amor ao próximo.
Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit
Caros irmãos e irmãs!
Hoje, centraremos nossa atenção em São Jerônimo, um Padre da Igreja que colocou a Bíblia no centro de sua vida: traduziu-a para a língua latina, comentou-a em sua obra e sobretudo se empenhou em vivê-la concretamente em sua longa existência terrena, não obstante o notável caráter difícil e caloroso que recebeu da natureza.
Jerônimo nasceu em Stridone em 347, de uma família cristã, que lhe assegurou uma formação apurada, enviando-o a Roma para aperfeiçoar seus estudos. Quando jovem, sentiu a atração pela vida mundana (cf. Ep. 22,7), mas prevaleceu nele o desejo e o interesse pela religião cristã.
Recebeu o batismo em 366, orientou-se à vida ascética e foi viver em Aquiléia, inserindo-se num grupo de fervorosos cristãos, por ele definido quase como «um coro de beatos» (Chron. ad ann. 374) reunido em torno do Bispo Valeriano. Partiu depois para o Oriente e viveu como eremita no deserto de Calcide, ao sul de Aleppo (cf. Ep. 14, 10), dedicando-se seriamente aos estudos.
Aperfeiçoou seu conhecimento do grego, iniciou o estudo do hebraico (cf. Ep. 125, 12), transcreveu códigos e obras patrísticas (cf. Ep. 5, 2). A meditação, a solidão, o contato com a Palavra de Deus fizeram-no amadurecer sua sensibilidade cristã. Sentiu fortemente o peso das transgressões juvenis (cf. Ep. 22, 7) e experimentou vivamente o contraste entre a mentalidade pagã e a vida cristã: um contraste que ficou famoso pela dramática e vivaz «visão», da qual ele nos deixou o relato. Nela, pareceu-lhe ser flagelado na presença de Deus, porque era «ciceroniano e não cristão» (cf. Ep. 22, 30).
Em 382 transferiu-se a Roma: aqui, o Papa Damaso, conhecendo sua fama de asceta e sua competência de estudioso, nomeou-o secretário e conselheiro; encorajou-o a empreender uma nova tradução latina dos textos bíblicos por motivos pastorais e culturais. Algumas pessoas da aristocracia romana, sobretudo nobres mulheres como Paola, Marcella, Asella, Lea e outras, desejando empenharem-se no caminho da perfeição cristã e de aprofundar seu conhecimento da Palavra de Deus, escolheram-no como seu guia espiritual e mestre na aproximação metódica dos textos sacros. Estas nobres mulheres aprenderam também o grego e o hebraico.
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Primeira catequese do novo ciclo sobre o apóstolo dos gentios
CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Em um mundo multicultural e multirreligioso, São Paulo tem uma mensagem particularmente atual, considera Bento XVI.
O pontífice apresentou nesta quarta-feira o exemplo de apóstolo dos povos, em particular sua capacidade para assimilar os grandes valores filosóficos de sua época e de harmonizá-los sem trair no mínimo a sua fé em Jesus Cristo.
Deste modo, começou um novo ciclo de catequeses –em seu encontro semanal com os fiéis– dedicado a Paulo de Tarso, por ocasião do Ano Paulino (de 28 de junho de 2008 a 29 de junho de 2009), que ele mesmo convocou para celebrar os dois mil anos de nascimento do apóstolo.
Sua primeira intervenção, celebrada na Sala Paulo VI do Vaticano, com a participação de quase dez mil peregrinos, se concentrou em apresentar uma análise do ambiente na qual o santo viveu, pois – como assinalou – «o contexto sócio-cultural de hoje não é muito diferente do de então».
O bispo de Roma apresentou São Paulo como «homem de três culturas», «levando em conta sua origem judaica, seu idioma grego e sua prerrogativa de “civis romanus”, como testemunha também o nome de origem latina».
«A visão universalista típica da personalidade de São Paulo, ao menos do Paulo cristão que surgiu após a queda no caminho de Damasco, deve certamente seu impulso básico à fé em Jesus Cristo, enquanto a figura do Ressuscitado supera todo particularismo», reconheceu o pontífice.
De fato, «para o apóstolo, “já não há judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher, já que todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas3, 28). No entanto, a situação histórico-cultural de seu tempo e ambiente também influíram em suas opções e compromisso».
Em particular, o Papa mencionou como Paulo acolheu os valores positivos da filosofia estóica, que ainda que de maneira marginal, influiu no cristianismo das origens.
«Tudo o que há de verdadeiro, de nobre, de justo, de puro, de amável, de honrável, tudo o que for virtude e coisa digna de elogio, tudo isso levai-o em conta», diz o apóstolo em Filipenses (4, 8).
Um filósofo como Sêneca, superando todo ritualismo exterior, ensinava que «Deus está perto de ti, está contigo, está dentro de ti» (Cartas a Lucilio, 41, 1), recordou Bento XVI.
Do mesmo modo, quando Paulo se dirige a um auditório de filósofos epicuristas e estóicos no Areópago de Atenas, diz textualmente que «Deus… não habita em santuários fabricados por mãos humanas…, pois nele vivemos, nos movemos e existimos» (Atos dos Apóstolos 17, 24.28).
«Deste modo, ele se faz certamente eco da fé judaica em um Deus que não pode ser representado em termos antropomórficos, mas se põe também em uma longitude de onda religiosa que seus ouvintes conheciam bem», declarou o Papa.
Após seu olhar sobre o ambiente cultural do século I da era cristã, o Papa concluiu constatando que «não é possível compreender adequadamente São Paulo sem situá-lo no contexto tanto judeu como pagão de seu tempo».
«Mas tudo isso é igualmente válido para o cristianismo em geral, do qual o apóstolo Paulo é um paradigma de primeiro plano, de quem todos temos ainda tanto que aprender e este é o objetivo do Ano Paulino: aprender de São Paulo a fé, aprender dele quem é Cristo, aprender, em definitivo, o caminho para uma vida reta», concluiu.
Na tarde desta quarta-feira, o Papa se trasladou à residência pontifícia de Castel Gandolfo, a 30 quilômetros de Roma.
A partir desta semana, como é já habitual, o Santo Padre dirigirá a oração do Angelus dos próximos domingos no pátio interno do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo.
Bento XVI viajará de 12 a 21 de julho a Sydney, na Austrália, para presidir a Jornada Mundial da Juventude.