Notícias e novidades da Igreja Católica no mundo
Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit
Queridos irmãos e irmãs:
O padre da Igreja que apresentaremos hoje é São Paulino de Nola. Da mesma época de Santo Agostinho, com quem esteve unido através de uma intensa amizade, Paulino exerceu seu ministério em Campânia, em Nola, onde foi monge, e depois presbítero e bispo. Era originário de Aquitânia, no sul da França, mais concretamente de Bordeaux, onde nasceu no seio de uma família de alta ascendência. Lá recebeu uma fina educação literária, tendo por mestre o poeta Ausônio. Afastou-se de sua terra em um primeiro momento para seguir sua precoce carreira política. Sendo ainda jovem, desempenhou o papel de governador de Campânia. Neste cargo público, destacou-se por sua sabedoria e mansidão. Neste período, a graça fez germinar em seu coração a semente da conversão. A chama surgiu da fé simples e intensa com a qual o povo honrava o túmulo de um santo, o mártir Félix, no santuário da atual Cimitile. Como responsável público, Paulino se preocupou por este santuário e fez construir um hospital para os pobres e um caminho para tornar mais fácil o acesso dos numerosos peregrinos.
Enquanto se dedicava a construir a cidade terrena, descobria o caminho para a cidade celestial. O encontro com Cristo foi o ponto de chegada, depois de um caminho árduo, semeado de provas. Circunstâncias dolorosas, começando pela perda do favor da autoridade política, fizeram-no tocar a caducidade do terreno. Após descobrir a fé, escreveria: «o homem sem Cristo é pó e sombra» (Carmen X, 289). Buscando o sentido da existência, viajou a Milão para aprender de Santo Ambrósio. Depois completou a formação cristã em sua terra natal, onde recebeu o batismo das mãos do bispo Delfim, de Burdeos. Em seu caminho de fé aparece também o matrimônio. Casou-se com Teresa, uma mulher nobre de Barcelona, com quem teve um filho. Teria seguido sendo um bom leigo cristão, se a morte do filho poucos dias depois não lhe tivesse afetado interiormente, mostrando-lhe que Deus tinha outro desígnio para sua vida. Sentiu-se chamado a entregar-se a Cristo em uma rigorosa vida ascética.
Em pleno acordo com sua mulher, Teresa, vendeu seus bens para ajudar os pobres e, junto com ela, deixou Aquitânia para morar em Nola, junto à basílica do protetor São Félix, em casta fraternidade, segundo uma forma de vida à qual outros se uniram. O ritmo era tipicamente monástico, mas Paulino, que foi ordenado presbítero em Barcelona, começou a exercer também o ministério sacerdotal com os peregrinos.
Isso lhe trouxe a simpatia e a confiança da comunidade cristã que, ao morrer o bispo, no ano 409, escolheu-o como sucessor na cátedra de Nola. Sua ação pastoral se intensificou, caracterizando-se por uma atenção aos pobres. Deixou a imagem de um autêntico pastor da caridade, como o descreveu São Gregório Magno no capítulo III de seu Diálogos, onde Paulino é retratado no heróico gesto de oferecer-se como prisioneiro no lugar do filho de uma viúva. O episódio é discutido historicamente, mas resta-nos a figura de um bispo de grande coração, que soube estar junto a seu povo nas tristes contingências das invasões dos bárbaros.
A conversão de Paulino impressionou seus contemporâneos. Seu mestre, Ausônio, poeta pagão, sentiu-se «traído» e lhe dirigiu palavras duras, repreendendo-lhe por seu «desprezo», considerado irracional, dos bens materiais, e por abandonar sua vocação de escritor. Paulino replicou que sua ajuda aos pobres não significava desprezo pelos bens terrenos, mas sim valorização deles com o fim mais elevado da caridade. Pelo que se refere a suas capacidades literárias, Paulino não havia abandonado o talento poético, que seguiria cultivando, mas sim as fórmulas poéticas inspiradas na mitologia e nos ideais pagãos. Uma nova ascética regia sua sensibilidade: era a beleza do Deus encarnado, crucificado e ressuscitado de quem agora se havia convertido em trovador. Na realidade, não havia deixado a poesia, mas passava a buscar inspiração no Evangelho, como diz neste verso: «Para mim a única arte é a fé, e Cristo é minha poesia» («At nobis ars una fides, et musica Christus»: Carmen XX, 32).
Seus poemas são cantos de fé e de amor, nos quais a história diária dos pequenos e grandes acontecimentos é vista como história de salvação, como história de Deus conosco. Muitas dessas composições estão ligados à festa anual do mártir Félix, a quem havia escolhido como padroeiro celeste. Recordando São Félix, queria glorificar o próprio Cristo, certo de que a intercessão do santo lhe havia alcançado a graça da conversão: «Em tua luz, glorioso, amei a Cristo» (Carmen XXI, 373). Expressou este mesmo conceito ampliando o espaço do santuário com uma nova basílica, que decorou de forma que as pinturas, ilustradas com explicações adequadas, converteram-se para os peregrinos em uma catequese visual. Deste modo, explicava seu projeto em um «carmen», dedicado a outro grande catequista, São Niceto de Remesiana, enquanto o acompanhava em uma visita a suas basílicas: «Agora quero que contemples a longa série de pinturas das paredes dos pórticos… Pareceu-nos útil representar com a pintura argumentos sagrados em toda a casa de Félix, com a esperança de que, ao ver estas imagens, a figura desenhada suscite o interesse das mentes surpreendidas dos camponeses» (Carmen XXVII, versículos 511.580.583). Ainda hoje se podem admirar aqueles vestígios que fazem do santo de Nola uma das figuras de referência da arqueologia cristã.
No cenóbio de Cimitile, a vida discorria em pobreza, oração e totalmente submersa na lectio divina. A Escritura lida, meditada, assimilada, era o raio de luz através do qual o santo de Nola escrutava sua alma em sua busca da perfeição. A quem se surpreendia pela sua decisão de abandonar os bens materiais, ele recordava que este gesto não representava nem de longe a plena conversão: «Abandonar ou vender os bens temporais possuídos neste mundo não significa o cumprimento, mas só o início da carreira no estágio; não é, por assim dizer, a meta, mas só a saída. O atleta não ganha quando tira sua roupa, pois a deixa de lado para poder começar a lutar. Só recebe a coroa de vencedor depois de ter combatido como se deve» (cf. Epístola XXIV, 7 a Sulpício Severo).
Junto à ascese e à Palavra de Deus, a caridade: na comunidade monástica, os pobres se sentiam em sua casa. Paulino não se limitava a dar-lhes esmola: acolhia-os como se fossem o próprio Cristo. Reservava-lhes uma ala do mosteiro e, deste modo, não tinha a impressão de dar, mas de receber, no intercâmbio de dons entre a acolhida oferecida e a gratidão feita oração daqueles a quem ajudava. Chamava os pobres de seus «donos» (cf. Epístola XIII, 11 a Pamáquio) e, ao observar que eles ficavam no andar inferior, dizia-lhes que sua oração desempenhava a função dos fundamentos de sua casa (cf. Carmen XXI, 393-394).
São Paulino não escreveu tratados de teologia, mas seus «carmens» e seu denso epistolário estão repletos de uma teologia vivida, penetrada pela Palavra de Deus, escrutada constantemente como luz para a vida. Em particular, expressa o sentido da Igreja como mistério de unidade. Vivia a comunhão sobretudo através de uma profunda prática da amizade espiritual. Neste sentido, Paulino foi um verdadeiro mestre, fazendo de sua vida um cruzamento de caminhos de espíritos escolhidos: de Martinho de Tours a Jerônimo, de Ambrósio a Agostinho, de Delfin de Burdeos a Niceto de Remesiana, de Vitricio de Rouen a Rufino de Aquiléia, de Pamáquio a Sulpício Severo, e muitos mais, sejam conhecidos ou não. Neste clima nascem as intensas páginas que dirigiu a Agostinho. Independentemente dos conteúdos das diferentes cartas, impressiona o ardor com o qual o santo de Nola canta a própria amizade, como manifestação do único corpo de Cristo animado pelo Espírito Santo.
Esta é uma significativa passagem dos inícios da correspondência entre os dois amigos: «Não é de surpreender que nós, apesar da distância, estejamos juntos, e sem ter-nos conhecido nos conhecemos, pois somos membros de um só corpo, temos uma só cabeça, ficamos inundados por uma só graça, vivemos de um só pão, caminhamos por um caminho único, vivemos na mesma casa» (Epístola 6, 2). Como se pode ver, trata-se de uma belíssima descrição do que significa ser cristãos, ser Corpo de Cristo, viver na comunhão da Igreja. A teologia em nosso tempo encontrou precisamente no conceito de comunhão a chave para enfrentar o mistério da Igreja. O testemunho de São Paulino de Nola nos ajuda a experimentar a Igreja como o Concílio Vaticano II a apresenta: sacramento da íntima união com Deus e, deste modo, da unidade de todos nós e por último, de todo o gênero humano (cf. Lumen gentium, 1). Com esta perspectiva, eu desejo a todos vós um feliz tempo de Advento.
Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit
Queridos irmãos e irmãs:
Nas últimas catequeses, falei de dois grandes doutores da Igreja do século IV, Basílio e Gregório de Nazianzeno, bispo em Capadócia, na atual Turquia. Hoje falaremos de um terceiro, o irmão de Basílio, São Gregório de Nisa, homem de caráter meditativo, com grande capacidade de reflexão e uma inteligência desperta, aberta à cultura de seu tempo. Converteu-se assim em um pensador original e profundo da história do cristianismo.
Nasceu por volta do ano 335; sua formação cristã foi atendida particularmente por seu irmão Basílio, definido por ele como «pai e mestre» (Epístola 13, 4:SC 363, 198), e por sua irmã Macrina. Em seus estudos, gostava particularmente da filosofia e da retórica. Em um primeiro momento, ele se dedicou ao ensino e se casou. Depois, como seu irmão e sua irmã, entregou-se totalmente à vida ascética. Mais tarde, foi eleito bispo de Nisa, convertendo-se em pastor zeloso, conquistando a estima da comunidade. Acusado de malversações econômicas por seus adversários hereges, teve de abandonar brevemente sua sede episcopal, mas depois regressou triunfantemente (cF. Epístola 6:SC 363, 164-170), e continuou comprometendo-se na luta por defender a autêntica fé.
Após a morte de Basílio, recolhendo sua herança espiritual, cooperou sobretudo no triunfo da ortodoxia. Participou de vários sínodos; procurou dirimir os enfrentamentos entre as Igrejas; participou na reorganização eclesiástica e, como «coluna da ortodoxia», foi um dos protagonistas do Concílio de Constantinopla do ano 381, que definiu a divindade do Espírito Santo.
Teve vários encargos oficiais por parte do imperador Teodósio, pronunciou importantes homilias e discursos fúnebres, compôs várias obras teológicas. No ano 394 voltou a participar de um sínodo que se celebrou em Constantinopla. Desconhece-se a data de sua morte.
Gregório expressa com clareza a finalidade de seus estudos, objetivo supremo ao que dedica seu trabalho teológico: não entregar a vida a coisas banais, mas encontrar a luz que permita discernir o que é verdadeiramente útil (cf. «In Ecclesiasten hom. »1: SC 416, 106-146).
Encontrou este bem supremo no cristianismo, graças ao qual é possível «a imitação da natureza divina» («De professione christiana»: PG 46, 244C). Com sua aguda inteligência e seus amplos conhecimentos filosóficos e teológicos, defendeu a fé cristã contra os hereges, que negavam a divindade do Espírito Santo (como Eunômio e os macedônios), ou questionavam a perfeita humanidade de Cristo (como Apolinário). Comentou a Sagrada Escritura, meditando na criação do homem. A criação era para ele um tema central. Ele via na criatura um reflexo do Criador e a partir daí encontrava o caminho para Deus.
Mas também escreveu um importante livro sobre a vida de Moisés, a quem apresenta como homem em caminho para Deus: esta ascensão para o Monte Sinai se converte para ele em uma imagem de nossa ascensão na vida humana para a verdadeira vida, para o encontro com Deus. Interpretou também a oração do Senhor, o Pai Nosso e as Bem-aventuranças. Em seu «Grande discurso catequético» («Oratio catechetica magna»), expôs as linhas fundamentais da teologia, não de uma teologia acadêmica, fechada em si mesma, mas ofereceu aos catequistas um sistema de referência para seus ensinamentos, como uma espécie de padrão no qual se move depois a interpretação pedagógica da fé.
Gregório também é insigne por sua doutrina espiritual. Sua teologia não era uma reflexão acadêmica, mas a expressão de uma vida espiritual de uma vida de fé vivida. Como grande «padre de mística», apresentou em vários tratados – como o «De professione christiana» e o «De perfectione christiana» – o caminho que os cristãos têm de empreender para alcançar a verdadeira vida, a perfeição.
Exaltou a virgindade consagrada («De virginitate»), e propôs um modelo insigne na vida de sua irmã Macrina, que foi para ele sempre uma guia, um exemplo (cf. «Vita Macrinae»). Pronunciou vários discursos e homilias, escreveu numerosas cartas. Comentando a criação do homem, Gregório sublinha que Deus, «o melhor dos artistas, forja nossa natureza de maneira que seja capaz do exercício da realeza. Por causa da superioridade da alma, e graças à própria conformação do corpo, faz que o homem seja realmente idôneo para desempenhar o poder régio» («De hominis opificio» 4: PG 44, 136B).
Mas vemos como o homem, na rede dos pecados, com freqüência abusa da criação e não exerce a verdadeira realeza. Por este motivo, para desempenhar uma verdadeira responsabilidade ante as criaturas, tem de ser penetrado por Deus e viver em sua luz. O homem, de fato, é um reflexo dessa beleza original que é Deus: «Tudo o que Deus criou era ótimo», escreve o santo bispo. E acrescenta: «A narração da criação testemunha isso (cf. Gêneses 1, 31). Entre as coisas ótimas também se encontrava o homem, dotado de uma beleza muito superior à de todas as coisas belas. Que outra coisa podia ser tão bela como a que era semelhante à beleza pura e incorruptível?… Reflexo e imagem da vida eterna, ele era realmente belo, mais ainda, belíssimo, com o sinal radiante da vida em seu rosto» («Homilia in Canticum» 12: PG 44, 1020).
O homem foi honrado por Deus e colocado acima de toda criatura: «O céu não foi feito à imagem de Deus, nem a lua, nem o sol, nem a beleza das estrelas, nem nada do que aparece na criação. Só tu (alma humana) foste feita à imagem da natureza que supera toda inteligência, semelhante à beleza incorruptível, marca da verdadeira divindade, espaço de vida bem-aventurada, imagem da verdadeira luz, e ao contemplar-te te convertes no que Ele é, pois por meio do raio refletido que provém de tua pureza tu imitas aquele que brilha em ti. Nada do que existe é tão grande que possa ser comparado à tua grandeza» («Homilia in Canticum 2»: PG 44, 805D).
Meditemos neste elogio do homem. Vejamos também como o homem foi degradado pelo pecado. E procuremos voltar à grandeza originária: somente se Deus está presente, o homem alcança sua verdadeira grandeza.
O homem, portanto, reconhece dentro de si o reflexo da luz divina: purificando seu coração, volta a ser, como era no início, uma imagem límpida de Deus, Beleza exemplar (cf. «Oratio catechetica 6»: SC 453, 174). Deste modo, o homem, purificando-se, pode ver Deus, como os puros de coração (cf. Mateus 5, 8):«Se, com um estilo de vida diligente e atento, lavas as fealdades que se depositaram em teu coração, resplandecerá em ti a beleza divina… Contemplando-te a ti mesmo, verás em ti o desejo de teu coração e serás feliz» («De beatitudinibus, 6»:PG 44, 1272AB). Portanto, é preciso lavar as fealdades que se depositaram em nosso coração e voltar a encontrar em nós mesmos a luz de Deus.
O homem tem como fim, portanto, a contemplação de Deus. Só nela poderá encontrar sua plenitude. Para antecipar em certo sentido este objetivo já nesta vida, tem de avançar incessantemente a uma vida espiritual, uma vida de diálogo com Deus. Em outras palavras – e esta é a lição importante que São Gregório de Nisa nos deixa – a plena realização do homem consiste na santidade, em uma vida vivida no encontro com Deus, que deste modo se torna luminosa também para os demais, também para o mundo.
ENSINAMENTOS
Eu vos proponho alguns aspectos da doutrina de São Gregório de Nisa, de quem já falamos na quarta-feira passada. Antes de tudo, Gregório manifesta uma concepção muito elevada da dignidade do homem. O fim do homem, diz o santo bispo, é o de tornar-se semelhante a Deus, e este fim se alcança sobretudo através do amor, do conhecimento e da prática das virtudes, «raios luminosos que descendem da natureza divina» («De beatitudinibus» 6: PG 44, 1272C), com um movimento perpétuo de adesão ao bem, como o corredor que tende para frente.
Gregório utiliza neste sentido uma imagem eficaz, que já estava presente na carta de Paulo aos Filipenses: «épekteinómenos» (3, 13), ou seja, «tendendo-me» para o que é maior, para a verdade e o amor. Esta expressão plástica indica uma realidade profunda: a perfeição que queremos encontrar não é algo que se conquista para sempre; perfeição é seguir o caminho, é uma contínua disponibilidade para seguir adiante, pois nunca se alcança a plena semelhança com Deus; sempre estamos a caminho (cf. «Homilia in Canticum 12»: PG 44, 1025d). A história de cada alma é a de um amor que é cumulado em cada ocasião, e que ao mesmo temo está aberto a novos horizontes, pois Deus dilata continuamente as possibilidades da alma para torná-la capaz de bens sempre maiores. O próprio Deus semeou em nós sementes de bem e d’Ele surge toda iniciativa de santidade, «modela o bloco… Limando e polindo nosso espírito forma, Cristo em nós» («In Psalmos 2», 11: PG 44, 544B).
Gregório declara: «Não é obra nossa, e não é tampouco o êxito de uma potência humana o chegar a ser semelhantes à Divindade, mas o resultado da generosidade de Deus, que desde sua origem ofereceu à nossa natureza a graça da semelhança com Ele» («De virginitate 12», 2:SC 119, 408-410). Para a alma, portanto, «não se trata de conhecer algo de Deus, mas de ter Deus em si» («De beatitudinibus 6»: PG 44,1269c). De fato, constata agudamente Gregório, «a divindade é pureza, é libertação das paixões e remoção de todo mal: se tudo isso está em ti, Deus realmente está em ti» («De beatitudinibus 6»: PG 44,1272C).
Quando temos Deus em nós, quando o homem ama Deus, por essa reciprocidade que é própria da lei do amor, quer o que Deus mesmo quer (cf. «Homilia in Canticum 9»: PG 44,956ac), e, portanto, coopera com Deus para modelar em si a imagem divina, de maneira que «nosso nascimento espiritual é o resultado de uma opção livre, e nós somos em certo sentido os pais de nós mesmos, criando-nos de uma opção livre, e nós mesmos queremos ser, e formando-nos por nossa vontade segundo o modelo que escolhemos» («Vita Moysis 2», 3: SC 1bis, 108).
Para ascender a Deus, o homem deve purificar-se: «A vida que reconduz a natureza humana ao céu não é mais que se afastar dos maus deste mundo… Tornar-se semelhante a Deus significa chegar a ser justo, santo e bom… Se, portanto, segundo o Eclesiastes (5,1), ‘Deus está no céu’ e se, segundo o profeta (Salmo 72, 28), vós ‘estais com Deus’, isso quer dizer necessariamente que tendes de estar ali onde está Deus, pois estais unidos a Ele. Dado que Ele vos ordenou que, quando rezardes, deveis chamar Deus de Pai, está vos dizendo que sejais semelhantes ao vosso Pai celestial, com uma vida digna de Deus, como o Senhor nos ordena com mais clareza em outro momento, quando diz: ‘Sede perfeitos como é perfeito vosso Pai celestial’ (Mateus 5, 48)» («De oratione dominica 2»: PG 44, 1145ac).
Neste caminho de ascensão espiritual, Cristo é o modelo e o mestre que nos permite ver a bela imagem de Deus (cf. «De perfectione christiana»: PG 46,272a ). Cada um de nós, contemplando-O, se converte no «pintor da própria vida», fazendo que a vontade seja a realizadora do trabalho e as virtudes, como as pinturas das quais pode servir-se (ibidem: PG 46, 272b). Portanto, se o homem é considerado digno do nome de Cristo, como deve comportar-se? Gregório responde assim: tem de «examinar sempre em sua intimidade os pensamentos, as palavras e as ações, para ver se estão dirigidos a Cristo ou se afastam dele» (ibidem: PG 46,284c). E este ponto é importante para o valor que dá à palavra «cristão». Cristão é quem leva o nome de Cristo e, portanto, deve assemelhar-se a Ele também na vida. Nós, os cristãos com o Batismo, assumimos uma grande responsabilidade.
Pois bem, Cristo, recorda Gregório, está presente também nos pobres, de maneira que eles jamais podem ser ultrajados: «Não desprezeis aqueles que estão prostrados, como se por este motivo não valessem nada. Considera quem são e descobrirás qual é a sua dignidade: representam a Pessoa do Salvador. E assim é, pois o Senhor, em sua bondade, lhes prestou sua própria Pessoa para que, através dela, tenham compaixão por aqueles que são duros de coração e inimigos dos pobres» («De pauperibus amandis»: PG 46,460bc). Gregório, como dizíamos, fala de uma ascensão: ascensão a Deus na oração através da pureza de coração; mas ascensão a Deus também mediante o amor ao próximo. O amor é a escada que leva a Deus. Portanto, Gregório de Nisa exorta vivamente aos que o escutavam: «Sê generoso com estes irmãos, vítimas da desventura. Dá ao faminto o que tiras do teu estômago» (ibidem: PG 46,457c).
Com muita clareza, Gregório recorda que todos nós dependemos de Deus, e por isso exclama: «Não penseis que tudo é vosso! Tem de haver também uma parte para os pobres, os amigos de Deus. A verdade, de fato, é que tudo procede de Deus, Pai universal, e que somos irmãos, e pertencemos a uma mesma estirpe» (Ibidem:PG 46, 465b). Então, o cristão deve examinar-se, continua insistindo Gregório: «Mas, de que te serve jejuar e fazer abstinência, se depois com tua maldade não fazes mais que dano a teu irmão? O que ganhas, ante Deus, pelo fato de não comer do teu, se depois, atuando injustamente, arrancas das mãos do pobre o que é seu?» (Ibidem: PG 46,456a).
Concluamos nossas catequeses sobre os três grandes padres da Capadócia recordando mais uma vez esse aspecto importante da doutrina espiritual de Gregório de Nisa, que é a oração. Para avançar no caminho para a perfeição e acolher Deus em si, levando em si o Espírito de Deus, o amor de Deus, o homem tem de dirigir-se com confiança a Ele na oração: «Através da oração conseguimos estar com Deus. E quem está com Deus, está longe do inimigo. A oração é apoio e defesa da castidade, freio da ira, sossego e domínio da soberba. A oração é custódia da virgindade, proteção da fidelidade no matrimônio, esperança para quem vela, abundância de frutos para os agricultores, segurança para os navegantes» («De oratione dominica 1»:PG 44,1124A-B).
O cristão reza inspirando-se sempre na oração do Senhor: «Se, portanto, queremos pedir que desça sobre nós o Reino de Deus, pedimos com a potência da Palavra: que eu seja afastado da corrupção, que seja libertado da morte e das correntes do erro; que nunca reine sobre mim a morte, que não tenha nunca poder sobre nós a tirania do mal, que não me domine o adversário nem me torne seu prisioneiro com o pecado, mas que venha a mim teu Reino para que se afastem de mim, ou melhor ainda, se anulem as paixões que agora me dominam» (ibidem 3:PG 44,1156d-1157a).
Terminada sua vida terrena, o cristão poderá dirigir-se com serenidade a Deus. Falando disso, são Gregório pensa na morte de sua irmã Macrina e escreve que ela, no momento da morte, rezava a Deus com estas palavras: «Tu, que tens na terra o poder de perdoar os pecados, perdoa-me para que possa ter descanso (cf. Salmo 38, 14), e para que me apresente em tua presença sem mancha, no momento no qual fico despojada de meu corpo (cf. Colossenses 2, 11), de maneira que meu espírito, santo e imaculado (cf. Efésios 5, 27) seja acolhido em tuas mãos, ‘como incenso ante ti’ (Salmo 140,2)» («Vita Macrinae 24»: SC 178, 224). Este ensinamento de São Gregório continua sendo válido sempre: não podemos somente falar de Deus, mas levar Deus em nós mesmos. E o fazemos com o compromisso da oração e vivendo no espírito de amor por todos os nossos irmãos.
Misericórdia de Deus oferece-se no «Cristo médico» que cura o homem do pecado
Por Inmaculada Alvarez
CIDADE DO VATICANO, domingo, 8 de junho de 2008 (ZENIT.org).- O Papa Bento XVI afirmou que a misericórdia ocupa um lugar central na mensagem cristã. O pontífice falou aos peregrinos durante a oração do Angelus esta manhã, na Praça de São Pedro.
«Esta palavra de Deus chegou a nós através dos Evangelhos, como uma das sínteses de toda mensagem cristã: a verdadeira religião consiste no amor a Deus e ao próximo. Isto é o que dá valor ao culto e à prática dos preceitos».
Comentando o evangelho do dia, a vocação de Mateus (Mt 9, 12-13), o Papa explicou que Jesus «fez sua» a profecia de Oséias, «Quero amor e não sacrifício, conhecimento de Deus mais que holocaustos».
Segundo o Papa, a misericórdia «é uma palavra chave, uma daquelas que nos introduzem no coração da Sagrada Escritura».
«Neste oráculo de Oséias, Jesus, o Verbo feito homem, encontrou-se plenamente; o fez próprio com todo seu coração e o realizou com seu comportamento, à custa inclusive de chocar com a susceptibilidade dos chefes de seu povo».
Esta misericórdia, explica o Papa, foi a que fez sentar-se à mesa com o publicano Mateus e responder aos fariseus escandalizados: «Não são os sadios que precisam de médico, mas os enfermos… Não vim para chamar os justos, mas os pecadores».
«É tal a importância desta expressão do profeta que o Senhor a cita novamente em outro contexto, a propósito da observância do sábado (cf. Mt 12, 1-8). Também neste caso Ele se atribui a responsabilidade da interpretação do preceito, revelando-se como «Senhor» das próprias instituições legais».
O Papa convidou os peregrinos a fazerem suas as palavras de Santo Agostinho em suas Confissões: «Tem piedade de mim, misericordioso, eu mísero… toda minha esperança está em tua grande misericórdia».
Segundo Bento XVI, a misericórdia de Deus se manifesta no «Cristo médico» que cura o homem do pecado, como explicou durante as saudações em diferentes idiomas aos peregrinos participantes no Angelus.
«A separação de Deus, o pecado, faz da humanidade enferma. Sofre por seu egoísmo, que não deixa lugar a uma vida autêntica. Cristo é o médico, que nos traz a cura e nos devolve a saúde. Ele abrirá nossa vida a Deus e aos demais. Acolhamos seu amor que nos cura e o ofereçamos àqueles que nos cercam», expôs o Papa aos peregrinos de fala alemã.
Por isso, é necessário «aproximar-se com confiança de Jesus Cristo, médico que cura os corações e chama sem cessar à conversão», para que, «inspirados por Ele, penseis o que é reto e o cumprais com sua ajuda», disse aos peregrinos de fala espanhola.
Esse rosto misericordioso de Jesus, que «come com publicanos e pecadores», descobre-se «especialmente nos Sacramentos do Perdão e da Eucaristia», explicou aos peregrinos de fala francesa.
Ao sentir a misericórdia de Jesus, «Mateus se levantou e converteu-se em seguidor de nosso Senhor». Responder à misericórdia de Deus supõe, portanto, estar «preparados para rejeitar tudo aquilo que nos separa de Deus, de maneira que possamos responder generosamente a seu chamado», acrescentou finalmente aos peregrinos de fala inglesa.
Comunicação Católica - Como surgiu a festa de Corpus Christi?
Padre Giuberto Badiani - Ela é uma festa antiga na Igreja que surgiu a partir do século XII, XIII, através de uma nova visão que se teve sobre o sacramento da Eucaristia. São Francisco foi um dos grandes adeptos de adoração ao Senhor. Santa Clara que, em vida, na sua própria doença fazia alfaias para o Senhor. E, logo depois, Santo Antônio, que também tinha uma grande adoração ao Senhor e que viveu uma grande experiência com o Senhor, quando ele discutia com o senhor da sua época que tinha um burrinho que comia capim. Um dia, desafiado por este homem, falou que se um dia o burrinho dele se prostasse diante da Eucaristia ele reconheceria Jesus. Aconteceu que um dia eles fizeram um acordo, o burrinho ficou três dias sem se alimentar e um dia se prostrou diante da Eucaristia, mesmo com a barriga vazia. Então a gente percebe o milagre da Eucaristia agindo.
CC – Em que data é comemorado o Corpus Christi hoje?
Pe. Giuberto Badiani - A data veio com uma progressão. Há uma beata chamada Juliana, que viveu na França. Alguns séculos depois, ela teve uma visão do Senhor, e nessa visão ele pedia que a Eucaristia fosse adorada. Aí o bispo na França adotou uma festa, a festa do Corpo do Senhor, que passou a ser adotada por vários bispos daquela região. Com o tempo, essa festa se tornou bem conhecida. No século IX, o papa Pio IX adotou a festa do sangue do Senhor para agradecer a Deus pela sua libertação do exílio. Essa festa foi juntada no Concílio Vaticano II e se tornou uma festa de toda Igreja universal. E hoje essa festa foi adotada na primeira quinta feira depois da Santíssima Trindade.
CC – Existe alguma preparação do fiel para o recebimento da Eucaristia?
Pe. Giuberto Badiani - Então, a Igreja sempre pede que se tenham as devidas preocupações. Primeira: o fiel deve estar com a disposição para receber, acreditar na Eucaristia, acreditar que Jesus está presente nas espécies do Pão e do Vinho. E o fiel deve estar com o sacramento da Penitência em dia, com o coração livre para que o Senhor possa agir através daquele ato que ele está exercendo, porque quando você não está livremente preparado para receber é como se seu coração estivesse dividido interiormente. E a Eucaristia tem esse sentido de fazer com que, recebendo o Senhor, você se transforme naquilo que você recebeu. Nós, recebendo o Senhor nos tornamos um pouquinho mais parecidos com Ele. Quando vou comungar, eu sempre digo: “Jesus, eu gostaria de me tornar um pouquinho mais parecido com o Senhor”. Eu acho bonito também o gesto da Eucaristia, quando o Senhor se tornou pequeno em um pedaço de Pão. Pra mim, toda vez que eu comungo eu penso que Jesus pede para que eu não seja muito orgulhoso. Se Ele que é Deus e fez pão para nos alimentarmos, o que nós estamos fazendo para alimentar as pessoas que estão precisando de nós?
CC – Existe uma celebração especial na Igreja para a festa de Corpus Christi?
Pe. Giuberto Badiani - Como eu disse, existe uma celebração diocesana. Se recomenda que na festa de Corpus Christi se faça uma procissão, onde Jesus sai para as ruas e vai para o meio do povo. È aquilo que eu já tinha falado no início. O que estamos fazendo com a Eucaristia que estamos recebendo? Então, quando o Senhor sai e vai a encontro do povo, assim também devemos ser nós. Então, sempre tem uma procissão, em alguns lugares do Brasil. Na minha cidade, por exemplo, se fazem os tapetes da rua e se enfeita a cidade com bastante flores para render a homenagem ao Senhor.
Fonte: Comunicação Católica
Por Papa Bento XVI
Tradução: Vaticano
Fonte: Vaticano
Queridos irmãos e irmãs!
Terminando hoje de percorrer a galeria de retratos dos Apóstolos chamados directamente por Jesus durante a sua vida terrena, não podemos omitir de mencionar aquele que é sempre nomeado por último nas listas dos Doze: Judas Iscariotes. A ele queremos associar a pessoa que depois é eleita para o substituir, Matias.
Já o simples nome de Judas suscita entre os cristãos uma reacção instintiva de reprovação e de condenação. O significado do apelativo “Iscariotes” é controverso: a explicação mais seguida compreende esta palavra como “homem de Queriot” referindo-se à sua aldeia de origem, situada nas vizinhanças de Hebron e mencionada duas vezes na Sagrada Escritura (cf. Js 15, 25; Am 2, 2).
Outros interpretam-no como variação da palavra “sicário”, como se aludisse a um guerrilheiro armado com um punhal que em latim se chama sica. Por fim, há quem veja no sobrenome a simples transcrição de uma raiz hebraico-aramaica que significa: “aquele que estava para o entregar”. Esta designação encontra-se duas vezes no IV Evangelho, ou seja, depois de uma confissão de fé de Pedro (cf. Jo 6, 71) e depois durante a unção de Betânia (cf. Jo 12, 4). Outras passagens mostram que a traição estava a ser realizada, dizendo: “aquele que o traía”; assim, durante a Última Ceia, depois do anúncio da traição (cf. Mt 26, 25) e depois no momento do aprisionamento de Jesus (cf. Mt 26, 46.48; Jo 18, 2.5). Ao contrário, as listas dos Doze recordam a traição como uma coisa já efectuada: “Judas Iscariotes, o que o traiu”, assim diz Marcos (3, 19); Mateus (10, 4) e Lucas (6, 16) usam fórmulas equivalentes. A traição como tal aconteceu em dois momentos: antes de tudo no planeamento, quando Judas se põe de acordo com os inimigos de Jesus por trinta moedas de prata (cf. Mt 26, 14-16), e depois na execução com o beijo dado ao Mestre no Getsémani (cf. Mt 26, 46-50). Contudo, os evangelistas insistem sobre a qualidade de apóstolo, que competia a Judas para todos os efeitos: ele é repetidamente chamado “um dos Doze” (Mt 26, 14.47; Mc 14, 10.20; Jo 6, 71) ou “do número dos Doze” (Lc 22, 3). Aliás, por duas vezes Jesus, dirigindo-se aos Apóstolos e falando precisamente dele, indica-o como “um de vós” (Mt 26, 21; Mc 14, 18; Jo 6, 70; 13, 21). E Pedro dirá de Judas que “era do nosso número e tinha recebido o nosso mesmo ministério” (Act 1, 17).
Trata-se portanto de uma figura pertencente ao grupo dos que Jesus tinha escolhido como companheiros e colaboradores íntimos. Isto suscita duas perguntas na tentativa de dar uma explicação aos acontecimentos que se verificaram. A primeira consiste em perguntar como aconteceu que Jesus tenha escolhido este homem e nele tenha confiado. Apesar de Judas ser de facto o ecónomo do grupo (cf. Jo 12, 6b; 13, 29a), na realidade é qualificado também como “ladrão” (Jo 12, 6a). Permanece o mistério da escolha, também porque Jesus pronuncia um juízo muito severo sobre ele: “ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue” (Mt 26, 24).
Torna-se ainda mais denso o mistério acerca do seu destino eterno, sabendo que Judas “se arrependeu e restituiu as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos idosos, dizendo: “Pequei, entregando sangue inocente”" (Mt 27, 3-4). Mesmo se em seguida ele se afastou para se ir enforcar (cf. Mt 27, 5), não compete a nós julgar o seu gesto, substituindo-nos a Deus infinitamente misericordioso e justo.
Uma segunda pergunta refere-se ao motivo do comportamento de Judas: porque traíu Jesus? A questão é objecto de várias hipóteses. Alguns recorrem ao factor da sua avidez de dinheiro; outros dão uma explicação de ordem messiânica: Judas teria ficado desiludido ao ver que Jesus não inseria no seu programa a libertação político-militar do seu próprio País. Na realidade os textos evangélicos insistem sobre outro aspecto: João diz expressamente que “tendo já o diabo metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que O entregasse” (Jo 13, 2); analogamente escreve Lucas: “Entrou satanás em Judas, chamado Iscariotes que era do número dos Doze” (Lc 22, 3).
Desta forma, vai-se além das motivações históricas e explica-se a vicissitude com base na responsabilidade pessoal de Judas, o qual cedeu miseravelmente a uma tentação do maligno. A traição de Judas permanece, contudo, um mistério. Jesus tratou-o como um amigo (cf. Mt 26, 50), mas, nos seus convites a segui-lo pelo caminho das bem-aventuranças, não forçava as vontades nem as preservava das tentações de satanás, respeitando a liberdade humana.
De facto, as possibilidades de perversão do coração humano são verdadeiramente muitas. O único modo de as evitar consiste em não cultivar uma visão das coisas apenas individualista, autónoma, mas ao contrário em colocar-se sempre de novo da parte de Jesus, assumindo o seu ponto de vista. Devemos procurar, dia após dia, estar em plena comunhão com Ele. Recordemo-nos de que também Pedro se queria opor a ele e ao que o esperava em Jerusalém, mas recebeu uma forte reprovação: “Tu não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens” (Mc 8, 32-33)!
Pedro, depois da sua queda, arrependeu-se e encontrou perdão e graça. Também Judas se arrependeu, mas o seu arrependimento degenerou em desespero e assim tornou-se autodestruição. Para nós isto é um convite a ter sempre presente quanto diz São Bento no final do fundamental capítulo V da sua “Regra”: “Nunca desesperar da misericórdia divina”.
Na realidade Deus “é maior que o nosso coração”, como diz São João (1 Jo 3, 20). Por conseguinte, tenhamos presente duas coisas. A primeira: Jesus respeita a nossa liberdade. A segunda: Jesus espera a nossa disponibilidade para o arrependimento e para a conversão; é rico de misericórdia e de perdão. Afinal, quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas devemos inseri-lo na condução superior dos acontecimentos por parte de Deus. A sua traição levou à morte de Jesus, o qual transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de si ao Pai (cf. Gl 2, 20; Ef 5, 2.25).
O Verbo “trair” deriva de uma palavra grega que significa “entregar”. Por vezes o seu sujeito é inclusivamente Deus em pessoa: foi ele que por amor “entregou” Jesus por todos nós (cf. Rm 8, 32). No seu misterioso projecto salvífico, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo.
Em conclusão, queremos recordar também aquele que depois da Páscoa foi eleito no lugar do traidor. Na Igreja de Jerusalém a comunidade propôs dois para serem sorteados: “José, de apelido Barsabas, chamado justo, e Matias” (Act 1, 23). Foi precisamente este o pré-escolhido, de modo que “foi associado aos onze Apóstolos” (Act 1, 26). Dele nada mais sabemos, a não ser que também tinha sido testemunha de toda a vicissitude terrena de Jesus (cf. Act 1, 21-22), permanecendo-lhe fiel até ao fim. À grandeza desta sua fidelidade acrescenta-se depois a chamada divina a ocupar o lugar de Judas, como para compensar a sua traição. Tiramos disto mais uma lição: mesmo se na Igreja não faltam cristãos indignos e traidores, compete a cada um de nós equilibrar o mal que eles praticam com o nosso testemunho transparente a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.
Ao apresentar os ensinamentos do bispo Afraates, o Sábio
CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 21 de novembro de 2007 (ZENIT.org).- A oração, para o cristão, é levar Jesus no coração, considera Bento XVI.
É a conclusão à qual chegou nesta quarta-feira durante a audiência geral na qual apresentou os ensinamentos do bispo Afraates, o Sábio, que viveu no atual Iraque. O Papa o definiu como «um dos personagens mais importantes e, ao mesmo tempo, mais enigmáticos do cristianismo siríaco do século IV».
«Segundo este antigo “Sábio”, a oração se realiza quando Cristo habita no coração do cristão e o convida a um compromisso coerente de caridade com o próximo», explicou o Santo Padre aos mais de 15 mil peregrinos congregados na praça de São Pedro, no Vaticano.
Citando o bispo iraquiano, o Papa explicou que a oração «é aceita quando consola o próximo. A oração é escutada quando nela se encontra também o perdão das ofensas. A oração é forte quando está cheia da força de Deus».
«Com estas palavras, Afraates convida-nos a uma oração que se converta em vida cristã, em vida realizada, em vida impregnada de fé, de abertura a Deus e, assim, de amor ao próximo», explicou o Santo Padre.
Fiel à tradição siríaca, o sábio bispo apresentou a salvação realizada por Cristo «como uma cura e, por conseguinte, o próprio Cristo como médico».
«Ao contrário, considera o pecado como uma ferida, que só a penitência pode sanar».
«Um homem que foi ferido em batalha – dizia Afraates –, não se envergonha de pôr-se nas mãos de um médico sábio». E acrescenta: «do mesmo modo, quem foi ferido por Satanás não deve envergonhar-se de reconhecer a sua culpa e afastar-se dela, pedindo o remédio da penitência».
Para o Papa, como para Afraates, Cristo é «o mestre de oração».
Com sua intervenção, o Santo Padre continuou com a série de intervenções sobre os grandes personagens das origens da Igreja.
LONDRES, 06 Nov. 07 / 12:00 am (ACI).- A família Jones tem dois grandes motivos para dar graças a Deus. Seus gêmeos Gabriel e Ieuan já cumpriram sete meses de vida, crescem com firmeza e gozam de boa saúde. Durante sua gestação, Gabriel sobreviveu a um esforço de aborto provocado, com o pesar de seus pais, para tratar de salvar a vida de seu irmão.
O jornal Daily Mail recolheu a surpreendente historia. Rebecca Jones, uma conselheira financeira de 35 anos de idade tinha 10 semanas de gravidez quando soube junto a seu marido Mark que esperavam gêmeos.
O gozo inicial durou pouco tempo. Às 20 semanas os médicos encontraram que algo andava mal: Um dos gêmeos não crescia ao ritmo de seu irmão. Estava muito débil, tinha um coração três vezes maior do normal e era muito menor que seu irmão, tudo fazia pressagiar que morreria no ventre.
Os médicos não encontraram uma explicação para o escasso crescimento de Gabriel, mas não estava recebendo nutrientes suficientes.
Então advertiram aos Jones que a iminente morte do menor suporia em curto prazo a morte do segundo, por isso deveriam abortá-lo.
Rebecca Jones, com o coração destroçado, decidiu salvar ao mais forte e abortar o menor, ao qual chamou Gabriel.
Os médicos tentaram abortar Gabriel cortando o cordão umbilical, mas o cordão era muito forte e não se pôde concretizar o procedimento.
Em seguida, decidiram dividir a placenta em dois para que quando Gabriel morresse, não afetasse seu irmão gêmeo.
Mas depois da operação que devia terminar com sua vida, o pequeno Gabriel deu outros sinais.
Embora pesasse menos de uma libra, lutou com tanta força por sobreviver que os médicos o chamaram de Rocky.
Surpreendentemente, as arrumou para viver no ventre materno por outras cinco semanas, até ser viável para uma cesárea.
Os gêmeos nasceram às 31 semanas. O maior, Ieuan, pesou um quilograma e meio. Gabriel superou apenas uma libra. Já cumpriram sete meses e estão em seu lar de Stoke, onde são tão próximos que sempre se sustentam pela mão.
Para Rebecca Jones, “isto realmente é um milagre. Os médicos realizaram uma operação que lhe causaria a morte, mas Gabriel se manteve com vida“.
“Quando o senti chutar com força no dia seguinte da operação, soube que sobreviveria”, assegura Rebecca. “Os médicos não podiam acreditar ao escutar seus batimentos do coração”.