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Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit
Caros irmãos e irmãs,
Nesta manhã, eu vos convido a refletir sobre Santo Eusébio de Vercelli, o primeiro bispo da Itália setentrional de que temos notícia segura. Nascido em Sardenha no início do século IV, ainda em tenra idade se transferiu para Roma com sua família. Mais tarde foi instituído leitor, passando a fazer parte do clero de Urbe, em um tempo em que a Igreja era gravemente provada pela heresia ariana.
A grande estima que aumentou por Eusébio explica sua eleição em 345 à cátedra episcopal de Vercelli. O novo Bispo iniciou logo uma intensa obra de evangelização em um território ainda em grande parte pagão, especialmente na área rural.
Inspirado em Santo Atanásio – que havia escrito a «Vida de Santo Antônio», iniciador do monaquismo no Oriente –, fundou em Vercelli uma comunidade sacerdotal, semelhante a uma comunidade monástica. Esta experiência deu ao clero da Itália setentrional um significativo traço de santidade apostólica, e suscitou figuras de Bispos importantes, como Limênio e Onorato, sucessores de Eusébio em Vercelli, Gaudêncio em Novara, Esuperâncio em Tortona, Eustásio em Aosta, Eulógio em Ivrea, Máximo em Turim, todos venerados da Igreja como santos.
Solidamente formado na fé nicena, Eusébio defende com todas as forças a divindade de Jesus Cristo, definida no Credo de Nicéia «consubstancial» ao Pai. A tal propósito se aliou com os grandes Padres do século IV – sobretudo com Santo Atanásio, bispo da ortodoxia nicena – contra a política filo-ariana do imperador.
Para o imperador, a fé ariana, mais simples, parece politicamente mais útil como ideologia do império. Para ele, não importava a verdade, mas a oportunidade política: queria instrumentalizar a religião como ponto de unidade do império. Mas estes grandes Padres resistiram, defendendo a verdade contra a dominação da política. Por esse motivo, Eusébio foi condenado ao exílio como tantos outros Bispos do Oriente e do Ocidente: como o próprio Atanásio, como Hilário de Poitiers – dos quais falamos da última vez –, como Ósio de Córdoba. Em Escitópolis, na Palestina, onde foi confinado em 355 e em 360, Eusébio escreve uma página maravilhosa da sua vida.
Também lá fundou um cenóbio com um pequeno grupo de discípulos e desde então manteve o contato com seus fiéis de Piamonte, como demonstra sobretudo a segunda das três Cartas de Eusébio reconhecidas como autênticas.
Posteriormente, depois do ano 350, foi exilado na Capadócia e Tebaida, onde sofreu muito fisicamente. No ano 361, ao falecer Constâncio II, foi substituído pelo imperador Juliano, chamado o apóstata, a quem não lhe interessava o cristianismo como religião do império, mas que queria mais restaurar o paganismo. Ele acabou com o exílio desses bispos e deste modo permitiu também que Eusébio voltasse a tomar posse de sua sede.
No ano 362 foi convidado por Anastásio a participar no Concílio de Alexandria, que decidiu o perdão aos bispos arianos, com a condição de que voltassem ao estado leigo. Eusébio pôde continuar exercendo durante aproximadamente dez anos seu ministério episcopal, até a morte, estabelecendo com sua cidade uma relação exemplar, que inspirou o serviço pastoral de outros bispos da Itália do Norte, de quem falaremos nas próximas catequeses, como Santo Ambrósio de Milão e São Máximo de Turim.
A relação entre o bispo de Vercelli e sua cidade fica iluminada sobretudo por dois testemunhos epistolares. O primeiro se encontra na Carta já citada, que Eusébio escreveu desde o exílio de Escitópolis «aos queridíssimos filhos e aos presbíteros tão desejados, assim como aos santos povos firmes na fé de Vercelli, Novara, Ivrea e Tortona» («Ep. Secunda», CCL 9, p. 104). Estas expressões iniciais, que mostram a comoção do bom pastor ante seu rebanho, encontram ampla confirmação ao final da Carta, nas saudações do padre a todos e a cada um de seus filhos de Vercelli, com expressões transbordantes de carinho e amor.
Deve-se destacar antes de tudo a relação explícita que une o bispo com as «sanctae plebes» não só de Vercelli – a primeira, e por anos a única diocese do Piamonte –, mas também com as de Novara, Ivrea e Tortona, ou seja, as comunidades que, dentro da mesma diocese, haviam conseguido uma certa consistência e autonomia.
Outro elemento interessante aparece na despedida da Carta: Eusébio pede a seus filhos e a suas filhas que saúdem «também quem está fora da Igreja, e que se dignam a amar-nos: “etiam hos, qui foris sunt et nos dignantur diligere”». Sinal evidente de que a relação do bispo com sua cidade não se limitava à população cristã, mas se estendia também àqueles que, estando fora da Igreja, reconheciam em certo sentido sua autoridade espiritual e amavam este homem exemplar.
O segundo testemunho da relação singular que se dava entre o bispo e sua cidade aparece na Carta que Santo Ambrósio de Milão escreveu aos cristãos de Vercelli em torno ao ano 394, mais de 20 anos depois da morte de Eusébio («Ep. Extra collectionem 14»: Maur. 63). A Igreja de Vercelli estava passando um momento difícil: estava dividida e sem pastor. Com franqueza, Ambrósio declara que lhe custa reconhecer neles a «descendência dos santos padres, que deram sua aprovação a Eusébio sem antes vê-lo, sem tê-lo conhecido, esquecendo inclusive seus próprios concidadãos».
Na mesma Carta, o bispo de Milão testemunha claramente sua estima por Eusébio: «Um grande homem», escreve, que «mereceu ser eleito por toda a Igreja». A admiração de Ambrósio por Eusébio se baseia sobretudo no fato de que o bispo de Vercelli governava sua diocese com o testemunho de sua vida: «Com a austeridade do jejum governava sua Igreja». De fato, também Ambrósio estava fascinado, como reconhece ele mesmo, pelo ideal monástico da contemplação de Deus, que Eusébio havia buscado seguindo as pegadas do profeta Elias.
Em primeiro lugar, escreve Ambrósio, o bispo de Vercelli reuniu o próprio clero em «vita communis» e o educou na «observância das regras monásticas, apesar de viver na cidade». O bispo e seu clero tinham que compartilhar os problemas de seus concidadãos, e o fizeram de uma maneira crível, cultivando ao mesmo tempo uma cidadania diferente, a do Céu (cf. Hebreus 13, 14). E, deste modo, edificaram uma autêntica cidadania, uma autêntica solidariedade comum entre os cidadãos de Vercelli.
Deste modo, Eusébio, assumindo a causa da «sancta plebs», de Vercelli, vivia no seio da cidade como um monge, abrindo a cidade a Deus. Esta dimensão, portanto, não tirou nada de seu dinamismo pastoral. Entre outras coisas, parece que instituiu em Vercelli as igrejas rurais para um serviço eclesial ordenado e estável, e promoveu os santuários marianos para a conversão das populações rurais pagãs. Pelo contrário, este «caráter monástico» dava uma dimensão particular à relação do bispo com sua cidade. Igual aos apóstolos, por quem Jesus rezava na Última Ceia, os pastores e os fiéis da Igreja «estão no mundo» (Jo 17, 11), mas não são «do mundo».
Por esse motivo, os pastores, recordava Eusébio, têm que exortar os fiéis a não considerarem as cidades do mundo como sua morada estável, mas devem buscar a Cidade futura, a Jerusalém definitiva do céu. Esta «dimensão escatológica» permite aos pastores e aos fiéis salvaguardar a hierarquia justa dos valores, sem render-se jamais às modas do momento e às injustas pretensões do poder político. A autêntica hierarquia dos valores, parece dizer toda a vida Eusébio, não é decidida pelos imperadores de ontem ou de hoje, mas procede de Jesus Cristo, o Homem perfeito, igual ao Pai na divindade, e ao mesmo tempo homem como nós.
Referindo-se a esta hierarquia de valores, Eusébio não se cansa de «recomendar efusivamente» a seus fiéis que guardem «com todos os meios a fé, que mantenham a concórdia, que sejam assíduos na oração» (Ep. Secunda», cit.)
Queridos amigos, também eu vos recomendo de todo o coração estes valores perenes, e vos abençôo e saúdo com as mesmas palavras com as que o santo bispo Eusébio concluía sua segunda Carta: «Me dirijo a todos vós, irmãos meus e santas irmãs, filhos e filhas, fiéis dos dois sexos e de toda idade, para que… leveis nossa saudação também aos que estão fora da Igreja, e que se dignam a amar-nos» (ibidem).
Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit
Queridos irmãos e irmãs:
Continuando nossa passagem pelos grandes mestres da Igreja antiga, queremos dirigir hoje nossa atenção a Santo Atanásio de Alexandria. Este autêntico protagonista da tradição cristã, já poucos anos antes de sua morte, era aclamado como «a coluna da Igreja» pelo grande teólogo e bispo de Constantinopla Gregório Nazianzeno («Discurso» 21, 26), e sempre foi considerado como um modelo de ortodoxia, tanto no Oriente como no Ocidente.
Não é casualidade, portanto, que Gian Lorenzo Bernini tenha colocado sua estátua entre as dos quatro santos doutores da Igreja oriental e ocidental –Ambrósio, João Crisóstomo e Agostinho–, que na maravilhosa abside da Basílica vaticana rodeiam a Cátedra de São Pedro.
Atanásio foi, sem dúvida, um dos Padres da Igreja antiga mais importantes e venerados. Mas, sobretudo, este grande santo é o apaixonado teólogo da encarnação do «Logos», o Verbo de Deus que, como diz o prólogo do quarto Evangelho, «se fez carne e pôs sua morada entre nós» (João 1, 14).
Precisamente por este motivo, Atanásio foi também o mais importante e tenaz adversário da heresia ariana, que então era uma ameaça para a fé em Cristo, reduzido a uma criatura «intermédia» entre Deus e o homem, segundo uma tendência que se repete na história e que também hoje constatamos de diferentes maneiras.
Nascido provavelmente em Alexandria, no Egito, por volta do ano 300, Atanásio recebeu uma boa educação antes de converter-se em diácono e secretário do bispo da metrópole egípcia, Alexandro.
Próximo colaborador de seu bispo, o jovem eclesiástico participou com ele do Concílio de Nicéia, o primeiro de caráter ecumênico, convocado pelo imperador Constantino em maio do ano 325 para assegurar a unidade da Igreja. Os Padres de Nicéia puderam deste modo discutir várias questões, principalmente o problema originado alguns anos antes pela pregação do presbítero de Alexandria, Ário.
Este, com sua teoria, ameaçava a autêntica fé em Cristo, declarando que o «Logos» não era verdadeiro Deus, mas um Deus criado, um ser «intermédio» entre Deus e o homem e deste modo o verdadeiro Deus sempre permanecia inacessível para nós. Os bispos, reunidos em Nicéia, responderam redigindo o «Símbolo da fé», que completado mais tarde pelo primeiro Concílio de Constantinopla, permaneceu na tradição das diferentes confissões cristãs e na liturgia como o «Credo niceno-constantinopolitano».
Neste texto fundamental, que expressa a fé da Igreja sem divisão, e que ainda recitamos hoje, todo domingo, na celebração eucarística, aparece o termo grego «homooúsios», em latim «consubstantialis»: indica que o Filho, o «Logos», é «da mesma natureza» do Pai, é Deus de Deus, é sua natureza, e deste modo se sublinha a plena divindade do Filho, que era negada pelos arianos.
Ao morrer o bispo Alexandro, Atanásio se converteu no ano 328 em seu sucessor como bispo de Alexandria, e imediatamente rejeitou com decisão todo compromisso com as teorias arianas condenadas pelo Concílio de Nicéia. Sua intransigência, tenaz e às vezes muito dura, ainda que necessária, contra quem se havia oposto a sua eleição episcopal e sobretudo contra os adversários do Símbolo de Nicéia, lhe provocou a implacável hostilidade dos arianos e dos filo-arianos.
Apesar do resultado inequívoco do Concílio, que havia afirmado com clareza que o Filho é da mesma natureza do Pai, pouco depois estas idéias equivocadas voltaram a prevalecer — inclusive Ário foi reabilitado — e foram apoiadas por motivos políticos pelo próprio imperador Constantino e depois por seu filho Constancio II. Este, que não se preocupava tanto com a verdade teológica, mas com a unidade do Império e de seus problemas políticos, queria politizar a fé, fazendo-a mais acessível, segundo seu ponto de vista, a todos os súditos do Império.
A crise ariana, que parecia ter sido solucionada em Nicéia, continuou durante décadas com vicissitudes difíceis, e divisões dolorosas na Igreja. E em cinco ocasiões, durante 30 anos, entre 336 e 366, Atanásio se viu obrigado a abandonar sua cidade, passando 17 anos em exílio e sofrendo pela fé.
Mas durante suas ausências forçadas de Alexandria, o bispo teve a possibilidade de sustentar e difundir no Ocidente, primeiro em Tréveris e depois em Roma, a fé de Nicéia assim como os ideais do monaquismo, abraçados no Egito pelo grande eremita, Antonio, com uma opção de vida pela qual Atanásio sempre se sentiu próximo.
Santo Antonio, com sua força espiritual, era a pessoa mais importante que apoiava a fé de Atanásio. Ao voltar a tomar posse definitivamente de sua sede, o bispo de Alexandria pôde dedicar-se à pacificação religiosa e à reorganização das comunidades cristãs. Morreu em 2 de maio do ano 373, dia no qual celebramos sua memória litúrgica.
A obra doutrinal mais famosa do santo bispo de Alexandria é o tratado sobre «A encarnação do Verbo», o «Logos» divino que se fez carne, como nós, por nossa salvação. Nesta obra, Atanásio afirma com uma frase que se fez justamente célebre, que o Verbo de Deus «se fez homem para que nós nos tornássemos Deus; fez-se visível corporalmente para que tivéssemos uma idéia do Pai invisível e suportou a violência dos homens para que herdássemos a incorruptibilidade» (54, 3). Com sua ressurreição, o Senhor fez desaparecer a morte como se fosse «palha entre o fogo» (8, 4). A idéia fundamental de toda a luta teológica de Santo Atanásio era precisamente a de que Deus é acessível. Não é um Deus secundário, é o verdadeiro Deus, e através de nossa comunhão com Cristo, podemos unir-nos realmente a Deus. Ele se fez realmente «Deus conosco».
Entre as demais obras deste grande Padre da Igreja, que em boa parte estão ligadas às vicissitudes da crise ariana, recordamos também as quatro cartas que dirigiu ao amigo Serapião, bispo de Thmuis, sobre a divindade do Espírito Santo, nas quais é afirmada com clareza, e umas trinta cartas «festivas», dirigidas ao início de cada ano às Igrejas e aos mosteiros do Egito para indicar a data da festa de Páscoa, mas sobretudo para intensificar os vínculos entre os fiéis, reforçando a fé e preparando-os para esta grande solenidade.
Por último, Atanásio é também autor de textos meditativos sobre os Salmos, muito difundidos, e sobretudo de uma obra que constitui o «best seller» da antiga literatura cristã, a «Vida de Antonio», ou seja, a biografia de Antonio abade, escrita pouco depois da morte desse santo, precisamente enquanto o bispo de Alexandria, no exílio, vivia com os monges do deserto egípcio. Atanásio foi amigo do grande eremita até o ponto de receber uma das duas peles de ovelha deixadas por Antonio como herança sua, junto ao manto que o próprio bispo de Alexandria lhe havia dado.
Após fazer-se logo sumamente popular e traduzida imediatamente duas vezes em latim e em várias línguas orientais, a biografia exemplar desta figura muito querida pela tradição cristã contribuiu decisivamente à difusão do monaquismo, no Oriente e no Ocidente. A leitura deste texto, em Tréveris, forma parte central de uma emocionante narração da conversão de dois funcionários imperiais que Agostinho apresenta nas «Confissões» (VIII, 6, 15) como premissa para sua própria conversão.
De fato, o próprio Atanásio demonstra que tinha clara consciência da influência que poderia exercer sobre o povo cristão a figura exemplar de Antonio. Escreve na conclusão desta obra: «O fato de que chegou a ser famoso em todas as partes, de que encontrou admiração universal e de que sua perda foi sentida ainda por gente que nunca o viu, sublinha sua virtude e o amor que Deus lhe tinha. Antonio ganhou renome não por seus escritos nem pela sabedoria de palavras nem por nenhuma outra coisa, mas só por seu serviço a Deus. E ninguém pode negar que isto é dom de Deus. Como explicar, com efeito, que este homem, que viveu escondido na montanha, fosse conhecido na Espanha e Gália, em Roma e na África, senão por obra de Deus, que em todas partes faz conhecidos os seus, que, mais ainda, havia dito isto nos começos? Pois ainda que façam suas obras em segredo e desejem permanecer na obscuridade, o Senhor os mostra publicamente como lâmpadas todos os homens, e assim, os que ouvem falar deles, podem dar-se conta de que os mandamentos levam à perfeição, e então cobram valor pelo caminho que conduz à virtude» («Vida de Antonio» 93, 5-6).
Sim, irmãos e irmãs! Temos muitos motivos para dar graças a Santo Atanásio. Sua vida, como a de Antonio e a de outros inumeráveis santos, nos mostra que «quem vai para Deus, não se afasta dos homens, mas se faz realmente próximo a eles» («Deus caritas est», 42).
A seguir, o Credo que Eusébio de Cesaréia apresentou ao Concílio, que alguns supõem tenha sugerido o Credo adotado ao final. O texto é encontrado em carta à sua diocese (v.tb.: St. Atanásio e Teodoreto).
Outros, porém, observam que o Credo de Eusébio se posicionou de forma equívoca ou omissa quanto à definição do “consubstancial”, palavra de primordial importância no Concílio.
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Autor: aa.vv.
Fonte: Veritatis Splendor
Tradução: José Fernandes Vidal
(Encontrado nas atas dos Concílios Ecumênicos de Éfeso e Calcedônia; na Carta de Eusébio de Cesaréia à sua própria igreja; na Carta de Santo Atanásio ao Imperador Joviniano; nas Histórias Eclesiásticas de Teodoreto e Sócrates e algum outro lugar. As variações no texto são absolutamente sem importância.)
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O Sínodo de Nicéia firmou este Credo:
Autor: aa.vv.
Fonte: Veritatis Splendor
Tradução: José Fernandes Vidal