Notícias e novidades da Igreja Católica no mundo


São Cromácio de Aquiléia

jul 16, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Nas últimas catequeses, fizemos uma excursão pelas Igrejas do Oriente de língua semítica, meditando sobre Afraates, o persa, e Santo Efrém, o sírio; hoje regressamos ao mundo latino, ao norte do Império Romano, com São Cromácio de Aquiléia. Este bispo desempenhou seu ministério na antiga Igreja de Aquiléia, fervoroso centro de vida cristã situado na Décima região do Império Romano, a Venetia et Histria.

No ano 388, quando Cromácio subiu à cátedra episcopal da cidade, a comunidade cristã local já havia amadurecido uma gloriosa história de fidelidade ao Evangelho. Entre a segunda metade do século III e os primeiros anos do IV, as perseguições de Décio, de Valeriano e de Diocleciano haviam colhido um grande número de mártires. A Igreja de Aquiléia também havia tido de enfrentar, como as demais Igrejas da época, a ameaça da heresia ariana. O próprio Atanásio, o arauto da Ortodoxia de Nicéia, a quem os arianos haviam expulsado ao exílio, encontrou refúgio durante um tempo em Aquiléia. Sob a guia de seus bispos, a comunidade cristã resistiu às insídias da heresia e reforçou sua adesão à fé católica.

Em setembro do ano 381, Aquiléia foi sede de um sínodo, que reuniu cerca de 35 bispos da costa da África, do Vale do Rin, e de toda a Décima região. O sínodo pretendia acabar com os últimos resíduos de arianismo no Ocidente. No Concílio participou o presbítero Cromácio como perito do bispo de Aquiléia, Valeriano (370/1-387/8). Os anos em torno do sínodo do ano 381 representam a «idade de ouro» da comunidade de Aquiléia. São Jerônimo, que havia nascido em Dalmácia, junto com Rufino de Concórdia falam com nostalgia de sua permanência em Aquiléia (370-373), naquela espécie de cenáculo teológico que Jerônimo não hesita em definir como «tamquam chorus beatorum» (Crônica: PL XXVII, 697-698). Neste cenáculo, que em certos aspectos recorda as experiências comunitárias vividas por Eusébio de Vercelli e por Agostinho, conformam-se as personalidades mais notáveis das Igrejas do Alto Adriático.

Mas já em sua família, Cromácio havia aprendido a conhecer e a amar Cristo. Ele nos fala dela com palavras cheias de admiração; o próprio Jerônimo compara a mãe de Cromácio com a profetiza Ana, a suas irmãs com as virgens prudentes da parábola evangélica, e o próprio Cromácio e seu irmão Eusébio com o jovem Samuel (cf. Epístola VII: PL XXII, 341). Jerônimo segue dizendo: «O beato Cromácio e o santo Eusébio eram tão irmãos de sangue como pela união de ideais» (Epístola VIII: PL XXII, 342).

Cromácio havia nascido em Aquiléia no ano 345. Foi ordenado diácono e depois presbítero; por último, foi eleito pastor daquela Igreja (ano 388). Após receber a consagração episcopal do bispo Ambrósio, dedicou-se com valentia e energia a uma ingente tarefa pela extensão do campo que havia sido confiado à sua atenção pastoral: a jurisdição eclesiástica de Aquiléia, que se estendia desde os territórios da atual Suíça, Baviera, Áustria e Eslovênia, até chegar à Hungria.

É possível imaginar como Cromácio era conhecido e estimado na igreja de seu tempo por um episódio da vida de São João Crisóstomo. Quando o bispo de Constantinopla foi exilado de sua sede, escreveu três cartas a quem considerava como os mais importantes bispos do ocidente para alcançar seu apoio ante os imperadores: uma carta foi escrita ao bispo de Roma, a segunda ao bispo de Milão e a terceira ao bispo de Aquiléia, ou seja, Cromácio (Epístola CLV: PG LII, 702). Também para ele eram tempos difíceis por causa da precária situação política. Com toda probabilidade, Cromácio faleceu no exílio, em Grado, enquanto tentava escapar dos saques dos bárbaros, no mesmo ano 407, no qual também morria Crisóstomo.

Por prestígio e importância, Aquiléia era a quarta cidade da península italiana, e a nona do Império romano: por este motivo, chamava a atenção dos godos e dos hunos. Além de causar graves lutos e destruição, as invasões destes povos comprometeram gravemente a transmissão das obras dos Padres conservadas na biblioteca episcopal, rica em códices. Perderam-se também os escritos de Cromácio, que se dispersaram, e com freqüência foram atribuídos a outros autores: a João Crisóstomo (em parte, por causa de que seus dois nomes começavam da mesma forma: «Chromatius» como «Chrysostomus») ou a Ambrósio e a Agostinho; e inclusive a Jerônimo, a quem Cromácio havia ajudado muito na revisão do texto e na tradução latina da Bíblia. A redescoberta de grande parte da obra de Cromácio se deve a afortunadas vicissitudes, que permitiram nos anos recentes reconstruir um corpus de escritos bastante consistente: mais de quarenta sermões, dos quais uma dezena em fragmentos, além de aproximadamente sessenta tratados de comentário ao Evangelho de São Mateus.

Cromácio foi um sábio mestre e zeloso pastor. Seu primeiro e principal compromisso foi o de pôr-se à escuta da Palavra para ser capaz de converter-se em seu arauto: em seu ensinamento, ele sempre se baseava na Palavra de Deus e a ela regressava sempre. Alguns temas eram predominantes nele: antes de tudo, o mistério da Trindade, que contempla em sua revelação através da história da salvação. Depois está o tema do Espírito Santo: Cromácio recorda constantemente aos fiéis a presença e a ação da terceira Pessoa da Santíssima Trindade na vida da Igreja.

Mas o santo bispo enfrenta com particular insistência o mistério de Cristo. O Verbo encarnado é verdadeiro Deus e verdadeiro homem: assumiu integralmente a humanidade para entregar-lhe como dom a própria divindade. Estas verdades, repetidas com insistência, em parte em chave antiariana, levariam, cerca de cinqüenta anos depois, à definição do Concílio de Calcedônia.

O fato de sublinhar intensamente a natureza humana de Cristo leva Cromácio a falar da Virgem Maria. Sua doutrina mariológica é precisa. Devemos-lhe algumas descrições sugestivas da Virgem Santíssima: Maria é a «virgem evangélica capaz de acolher Deus»; é a «ovelha imaculada» que gerou o «cordeiro coberto de púrpura» (cf. Sermo XXIII, 3: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/1, p. 134).

O bispo de Aquiléia põe freqüentemente a Virgem em relação com a Igreja: ambas, de fato, são «virgens» e «mães». A eclesiologia de Cromácio se desenvolve sobretudo no comentário a Mateus. Estes são alguns dos conceitos repetidos: a Igreja é única, nasceu do sangue de Cristo; é um vestido precioso tecido pelo Espírito Santo; a Igreja está ali onde se anuncia que Cristo nasceu da Virgem, onde floresce a fraternidade e a concórdia. Uma imagem particularmente querida por Cromácio é a do barco no mar na tempestade – viveu em uma época de tempestades, como vimos: «Não há dúvida, afirma o santo bispo, de que esta nave representa a Igreja» (cf. Tract. XLII, 5: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/2, p. 260).

Como zeloso pastor, Cromácio sabe falar à sua gente com uma linguagem fresca, colorida e incisiva. Sem ignorar a perfeita construção latina, prefere recorrer à linguagem popular, rica de imagens facilmente compreensíveis. Deste modo, por exemplo, usando a imagem do mar, põe em relação por uma parte a pesca natural de peixes que, deixados na margem, morrem; e por outra, a pregação evangélica, graças à qual os homens são salvos das águas da morte, e introduzidos na verdadeira vida (cf. Tract. XVI, 3: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/2, p. 106).

Desde o ponto de vista do bom pastor, em um período difícil como o seu, flagelado pelos saques dos bárbaros, sabe pôr-se sempre ao lado dos fiéis para alentar-lhes e para abrir seu espírito à confiança em Deus, que nunca abandona a seus filhos.

Recolhemos, no final, como conclusão destas reflexões, uma exortação de Cromácio que ainda hoje continua sendo válida: «Invoquemos o Senhor com todo o coração e com toda a fé – recomenda o bispo de Aquiléia em um Sermão; peçamos-lhe que nos liberte de toda incursão dos inimigos, de todo temor dos adversários. Que não leve em conta nossos méritos, mas sua misericórdia. Que nos proteja com seu acostumado amor misericordioso, e que atue através de nós o que disse São Moisés aos filhos de Israel: ‘O Senhor lutará em vossa defesa e vós ficareis em silêncio’. Quem luta é Ele e é Ele quem vence…E para que se digne fazê-lo, temos de rezar tudo o que for possível. Ele mesmo diz pelos lábios do profeta: ‘Invoca-me no dia da tribulação; eu te libertarei e tu me glorificarás’ (Sermo XVI, 4: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/1, pp. 100-102).

Deste modo, precisamente no início do Advento, São Cromácio nos recorda que o Advento é tempo de oração, no qual é necessário entrar em contato com Deus. Deus nos conhece, Ele me conhece, conhece cada um de nós, Ele me ama, não me abandona. Sigamos adiante com esta confiança no tempo litúrgico recém-começado.

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São Máximo de Turim

jul 9, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Entre o final do século IV e começo do V, outro Padre da Igreja, depois de Santo Ambrósio, contribuiu decididamente para a difusão e a consolidação do cristianismo na Itália do norte: trata-se de São Máximo, que era bispo de Turim no ano 398, um ano depois da morte de Ambrósio. Restam-nos poucas notícias dele; recentemente, recebemos uma coleção de aproximadamente noventa «Sermões». Neles se pode constatar a profunda e vital união do bispo com sua cidade, que testifica um ponto evidente de contato entre o ministério episcopal de Ambrósio e o de Máximo.

Naquele tempo, graves tensões turbavam a convivência civil. Máximo, neste contexto, conseguiu unir o povo cristão em torno de sua pessoa de pastor e mestre. A cidade estava ameaçada por grupos de bárbaros que, ao penetrar pelas entradas orientais, avançavam até os Alpes ocidentais. Por este motivo, Turim estava constantemente rodeada de guarnições militares, e se converteu, nos momentos críticos, em refúgio para as populações que fugiam do campo e dos centros urbanos sem proteção.

As intervenções de Máximo perante esta situação testemunham o compromisso de reagir ante a degradação civil e a desagregação. Ainda que seja difícil determinar a composição social dos destinatários dos «Sermões», parece que a pregação de Máximo, para superar o risco de ser genérica, dirigia-se especificamente a um núcleo selecionado da comunidade cristã de Turim, constituído por ricos proprietários de terras, que tinham suas fazendas no campo e a casa na cidade. Foi uma lúcida decisão pastoral do bispo, que concebeu esta pregação como o caminho mais eficaz para manter e reforçar seus laços com o povo.

Para ilustrar, nesta perspectiva, o ministério de Máximo em sua cidade, quero apresentar como exemplo os «Sermões» 17 e 18, dedicados a um tema sempre atual, o da riqueza e da pobreza nas comunidades cristãs. Também neste sentido se davam agudas tensões na cidade. Acumulavam e ocultavam riquezas. «Não se pensa nas necessidades do outro», constatava amargamente o bispo em seu «Sermão» número 17.

«De fato, muitos cristãos não só não distribuem o que têm, mas roubam dos demais. Não só não levam aos pés dos apóstolos o que recolheram, mas também afastam dos pés dos sacerdotes os irmãos que buscam ajuda». E conclui: «Em nossa cidade há muitos hóspedes e peregrinos. Fazei o que prometestes» aderindo à fé, «para que não se diga também de vós o que se disse de Ananias: ‘Não mentistes aos homens, mas a Deus’». («Sermão» 17, 2-3)

No «Sermão» sucessivo, número 18, Máximo critica as formas comuns de depredação das desgraças dos demais. «Dize-me, cristão, exorta o bispo a seus fiéis, dize-me por que tomaste a presa abandonada pelos predadores? Por que introduziste em tua casa um ‘lucro’ depredado e contaminado?». «Mas, acrescenta, talvez dizes que o compraste e por isso achas que evitas assim a acusação de avareza. Mas deste modo não há relação entre o que se compra e o que se vende. Comprar é algo bom, mas em tempo de paz, quando se vende com liberdade, e não quando se vende o que foi roubado… Comporta-te, portanto, como cristão e como cidadão que compra para devolver» («Sermão» 18, 3).

Sem mostrar muito, Máximo pregou uma relação profunda entre os deveres do cristão e os do cidadão. Para ele, viver a vida cristã significa também assumir os compromissos civis. Pelo contrário, o cristão que, «apesar de que pode viver com seu trabalho, pega a presa do outro com o furor das feras» ou «ataca seu vizinho, cada dia buscando parte de seus bens, tomando posse de seus produtos», não lhe parece nem sequer semelhante à raposa que degola as galinhas, mas ao lobo que se lança contra os porcos («Sermão» 41, 4).

Pelo que se refere à prudente atitude de defesa assumida por Ambrósio para justificar sua famosa iniciativa de resgatar os prisioneiros de guerra, podemos ver com clareza as mudanças históricas que aconteceram na relação entre o bispo e as instituições cidadãs. Contando já com o apoio de uma legislação que pedia aos cristãos que redimissem os prisioneiros, Máximo, ante a queda das autoridades civis do Império Romano, sentia-se plenamente autorizado para exercer nesse sentido um autêntico poder de controle sobre a cidade.

Este poder se tornaria depois cada vez mais amplo e eficaz, até chegar a suprir a ausência de magistrados e das instituições civis. Neste contexto, Máximo não só se dedica a estimular nos fiéis o amor tradicional à pátria cidadã, mas proclama também o preciso dever de enfrentar os gastos fiscais, por mais pesados e desagradáveis que pareçam («Sermão 26, 2).

Em definitivo, o tom e a essência dos «Sermões» implicam uma maior consciência da responsabilidade política do bispo nas específicas circunstâncias históricas. É a «atalaia» da cidade. Acaso não são estas atalaias, pergunta-se Máximo no «Sermão» 92, «os beatíssimos bispos que, colocados, por assim dizer, em uma rocha elevada de sabedoria para a defesa dos povos, vêem desde longe os males que chegam?».

E no «Sermão» 89, o bispo de Turim ilustra aos fiéis suas tarefas, servindo-se de uma comparação singular entre a função episcopal e a das abelhas: «Como a abelha, diz, os bispos observam a castidade do corpo, oferecem o alimento da vida celestial, utilizam o ferrão da lei. São puros para santificar, doces para reconfortar, severos para castigar». Deste modo, São Máximo descreve a tarefa do bispo em sua época.

Em definitivo, a análise histórica e literária demonstra uma consciência cada vez maior da responsabilidade política da autoridade eclesiástica, em um contexto no qual ela estava substituindo de fato a civil. É o desenvolvimento do ministério do bispo no ocidente da Itália, a partir de Eusébio, que «como um monge», vivia em sua cidade de Vercelli, até Máximo de Turim, que «com uma sentinela», encontrava-se na rocha mais elevada da cidade.

É evidente que o contexto histórico, cultural e social hoje é profundamente diferente. O atual contexto é mais o descrito por meu venerado predecessor, o Papa João Paulo II, na exortação pós sinodal «Ecclesia in Europa», na qual oferece uma articulada análise dos desafios e dos sinais de esperança para a Igreja na Europa hoje (6-22). Em todo caso, independentemente da mudança de circunstâncias, continuam sendo válidas as obrigações do crente ante sua cidade e sua pátria. A íntima relação entre o «cidadão honesto» e o «bom cristão» segue totalmente vigente.

Para concluir, quero recordar o que diz a constituição pastoral «Gaudium et spes» para esclarecer um dos aspectos mais importantes da unidade de vida do cristão: a coerência entre a fé e o comportamento, entre Evangelho e cultura. O Concílio exorta os fiéis «a que procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que vamos em demanda da futura, pensam que podem por isso descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé ainda os obriga mais a cumpri-los, segundo a vocação própria de cada um» (n. 43).

Seguindo o magistério de São Máximo e de outros muitos Padres, façamos nosso o desejo do Concílio; que haja cada vez mais fiéis que queiram «exercer todas as suas atividades temporais fazendo uma síntese vital do esforço humano, familiar, profissional, científico ou técnico, com os valores religiosos, sob cuja altíssima hierarquia tudo coopera para a glória de Deus» (ibidem) e, dessa forma, ao bem da humanidade.

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Santo Ambrósio de Milão

jul 8, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

O santo bispo Ambrósio, de quem vos falarei hoje, faleceu em Milão na noite entre os dias 3 e 4 de abril do ano 397. Era o amanhecer do sábado santo. No dia anterior, por volta das 17h, ele estava rezando, prostrado no leito, com os braços abertos em forma de cruz. Deste modo, participava do solene tríduo pascal, da morte e da ressurreição do Senhor. «Nós víamos que seus lábios se mexiam, testifica Paulino, o diácono fiel que por convite de Agostinho escreveu sua ‘Vida’, mas não escutávamos sua voz».

De repente, parecia que a situação chegava a seu fim. Honorato, bispo de Vercelli, que estava ajudando Ambrósio e que dormia no andar superior, acordou ao escutar uma voz que lhe repetia: «Levanta-te logo! Ambrósio está a ponto de morrer…». Honorato desceu imediatamente – continua contando Paulino – «e lhe ofereceu o santo Corpo do Senhor. Ao acabar de recebê-lo, Ambrósio entregou o espírito, levando consigo o viático. Deste modo, sua alma, alimentada pela virtude desse alimento, goza agora da companhia dos anjos» («Vida» 47).

Naquela sexta-feira santa do ano 297, os braços abertos de Ambrósio moribundo expressavam sua participação mística na morte e ressurreição do Senhor. Era sua última catequese: no silêncio das palavras, continuava falando com o testemunho da vida.

Ambrósio não era idoso quando faleceu. Não tinha nem sequer sessenta anos, pois nasceu por volta do ano 340 em Tréveris, onde seu pai era prefeito das Gálias. A família era cristã. Quando seu pai faleceu, sua mãe o levou a Roma, sendo ainda um menino, e lhe preparou para a carreira civil, dando-lhe uma sólida educação retórica e jurídica. Por volta do ano 370, propuseram-lhe governar as províncias de Emilia e Ligúria, com sede em Milão. Precisamente lá estava a luta entre ortodoxos e arianos, sobretudo depois da morte do bispo ariano Ausêncio. Ambrósio interveio para pacificar os espíritos das duas facções enfrentadas, e sua autoridade foi tal que, apesar de que não era mais que um simples catecúmeno, foi proclamado bispo de Milão pelo povo.

Até esse momento, Ambrósio era o mais alto magistrado do Império na Itália do norte. Sumamente preparado culturalmente, mas desprovido do conhecimento das Escrituras, o novo bispo dedicou-se a estudá-las com fervor. Aprendeu a conhecer e a comentar a Bíblia através das obras de Orígenes, o indiscutível mestre da «escola de Alexandria». Deste modo, Ambrósio levou ao ambiente latino a meditação das Escrituras começadas por Orígenes, começando no Ocidente a prática da «lectio divina».

O método da «lectio» chegou a guiar toda a pregação e os escritos de Ambrósio, que surgem precisamente da escuta orante da Palavra de Deus. Um célebre início de uma catequese ambrosiana mostra egregiamente a maneira em que o santo bispo aplicava o Antigo Testamento à vida cristã: «Quando lemos as histórias dos Patriarcas e as máximas dos Provérbios, enfrentamos cada dia a moral – diz o bispo de Milão a seus catecúmenos e aos neófitos – para que, formados por eles, vos acostumeis a entrar na vida dos Padres e a seguir o caminho da obediência aos preceitos divinos» («Os mistérios» 1, 1).

Em outras palavras, os neófitos e os catecúmenos, segundo o bispo, após ter aprendido a arte de viver moralmente, podiam considerar-se que já estavam preparados para os grandes mistérios de Cristo. Deste modo, a pregação de Ambrósio, que representa o coração de sua ingente obra literária, parte da leitura dos livros sagrados («os Patriarcas», ou seja, os livros históricos, e «os Provérbios», ou seja, os livros sapienciais), para viver segundo a Revelação divina.

É evidente que o testamento pessoal do pregador e a exemplaridade da comunidade cristã condiciona a eficácia da pregação. Desde este ponto de vista, é significativa uma passagem das «Confissões» de Santo Agostinho. Ele havia ido a Milão como professor de retórica; era cético, não cristão. Estava buscando, mas não era capaz de encontrar realmente a verdade cristã. Ao jovem retórico africano, cético e desesperado, não lhe moveram a converter-se definitivamente as belas homilias de Ambrósio (apesar de que as admirava muito). Foi mais o testemunho do bispo e de sua Igreja milanesa, que rezava e cantava, unida como um só corpo. Uma Igreja capaz de resistir à prepotência do imperador e de sua mãe, que nos primeiros dias do ano 386 haviam voltado a exigir a expropriação de um edifício de culto para as cerimônias dos arianos. No edifício que tinha que ser desapropriado, conta Agostinho, «o povo devoto velava, disposto a morrer com seu próprio bispo». Este testemunho das «Confissões» é belíssimo, pois mostra que algo estava acontecendo na intimidade de Agostinho, que continua dizendo: «E nós também, apesar de que ainda éramos tíbios, participávamos do movimento de todo o povo» («Confissões» 9, 7).

Da vida e do exemplo do bispo Ambrósio, Agostinho aprendeu a crer e a pregar. Podemos fazer referência a um famoso sermão do africano, que mereceu ser citado muitos séculos depois na Constituição conciliar «Dei Verbum»: «É necessário – adverte de fato a «Dei Verbum» no número 25 –, que todos os clérigos, sobretudo os sacerdotes de Cristo e os demais que, como os diáconos e catequistas, dedicam-se legitimamente ao ministério da palavra, submergem-se nas Escrituras com assídua leitura e com estudo diligente, para que nenhum deles acabe sendo – e aqui vem a citação de Agostinho – ‘pregador vazio e supérfluo da palavra de Deus, que não a escuta em seu interior’». Havia aprendido precisamente de Ambrósio essa «escuta em seu interior», essa assiduidade com a leitura da Sagrada Escritura com atitude de oração, para acolher realmente no coração e assimilar a Palavra de Deus.

Queridos irmãos e irmãs: quero apresentar-vos uma espécie de «ícone patrístico» que, interpretado à luz do que dissemos, representa eficazmente o coração da doutrina de Ambrósio. No mesmo livro das «Confissões», Agostinho narra seu encontro com Ambrósio, certamente um encontro de grande importância para a história da Igreja. Escreve que, quando visitava o bispo de Milão, sempre o via rodeado de pessoas cheias de problemas, por quem vivia para atender suas necessidades. Sempre havia uma longa fila que estava esperando pra falar com Ambrósio, para encontrar nele consolo e esperança. Quando Ambrósio não estava com eles, com as pessoas (e isso acontecia em brevíssimos espaços de tempo), ou estava alimentando o corpo com a comida necessária, ou o espírito com as leituras. Aqui Agostinho canta suas maravilhas, porque Ambrósio lia as Escrituras com a boca fechada, só com os olhos (cf. «Confissões». 6, 3). De fato, nos primeiros séculos cristãos, a leitura só se concebia para ser proclamada, e ler em voz alta facilitava também a compreensão a quem lia. O fato de que Ambrósio pudesse passar as páginas só com os olhos é para o admirado Agostinho uma capacidade singular de leitura e de familiaridade com as Escrituras. Pois bem, nessa leitura, na qual o coração se empenha por alcançar a compreensão da Palavra de Deus – este é o «ícone» do qual estamos falando –, pode-se entrever o método da catequese de Ambrósio: a própria Escritura, intimamente assimilada, sugere os conteúdos que é necessário anunciar para levar à conversão dos corações.

Deste modo, segundo o magistério de Ambrósio e de Agostinho, a catequese é inseparável do testemunho de vida. Pode servir também para o catequista o que escrevi na «Introdução ao cristianismo» sobre os teólogos. Quem educa na fé não pode correr o risco de apresentar-se como uma espécie de «clown», que recita um papel «por ofício». Mais ainda, utilizando uma imagem de Orígenes, escritor particularmente admirado por Ambrósio, tem de ser como o discípulo amado, que apoiou a cabeça no coração do Mestre, e lá aprendeu a maneira de pensar, de falar, de atuar. No final de tudo, o verdadeiro discípulo é quem anuncia o Evangelho da maneira mais confiável e eficaz.

Como o apóstolo João, o bispo Ambrósio, que nunca se cansava de repetir: «‘Omnia Christus est nobis’!; Cristo é tudo para nós!», continua sendo uma autêntica testemunha do Senhor. Com suas próprias palavras, cheias de amor por Jesus, concluímos assim nossa catequese: «‘Omnia Christus est nobis!’ Se queres curar uma ferida, ele é o médico; se estás ardendo de febre, ele é a fonte; se estás oprimido pela iniqüidade, ele é a justiça; se tens necessidade de ajuda, ele é a força, se tens medo da morte, ele é a vida; se desejas o céu, ele é o caminho; se estás nas trevas, ele é a luz… Provai e vede que bom é o Senhor, bem-aventurado o homem que espera nele!» («De virginitate» 16, 99). Nós também esperamos em Cristo. Dessa forma seremos bem-aventurados e viveremos na paz.

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Biografia de Santo Agostinho

jun 28, 2006 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Santos da Igreja

Religioso e teólogo cristão. Doutor da Igreja, sistematizou a doutrina cristã com enfoque neoplatônico.

“O último dos antigos” e o “primeiro dos modernos”, santo Agostinho foi o primeiro filósofo a refletir sobre o sentido da história, mas tornou-se acima de tudo o arquiteto do projeto intelectual da Igreja Católica.

Aurélio Agostinho, em latim Aurelius Augustinus, nasceu em Tagaste, atualmente Suk Ahras, na Argélia, em 13 de novembro de 354, filho de Patrício, homem pagão e de posses, que no final da vida se converteu, e da cristã Mônica, mais tarde canonizada. Agostinho estudou retórica em Cartago, onde aos 17 anos passou a viver com uma concubina, da qual teve um filho, Adeodato. A leitura do Hortensius, de Cícero, despertou-o para a filosofia. Aderiu, nessa época, ao maniqueísmo, doutrina de que logo se afastou. Em 384 começou a ensinar retórica em Milão, onde conheceu santo Ambrósio, bispo da cidade.

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