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Lutero e a Bíblia

jul 24, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja

Por Lluís Pifarré
Tradução: Carlos Martins Nabeto
Fonte: http://www.apologeticacatolica.org/

É opinião bastante corrente que a obra mais significativa de Lutero foi a tradução que fez das Sagradas Escrituras para a língua alemã, fato que permitiu que muitas pessoas de qualquer condição pudessem tomar conhecimento direto da Palavra de Deus. É também uma opinião, ou melhor, uma acusação bastante divulgada - e o próprio Lutero foi um dos que a propagou de maneira mais repetitiva - que a Igreja Católica, movida por um excesso de zêlo, não facilitava a leitura da Bíblia aos seus fiéis, para evitar que deformassem sua mensagem em razão da livre interpretação pessoal.

No entanto, consideramos ser esta uma acusação injusta e injustificável quando afirmada de forma impensada. Em primeiro lugar, porque é o próprio Lutero quem nos informa que ao ingressar no Convento dos Agostinianos da cidade alemã de Erfurt, movido por seu desejo de tornar-se frade, o mestre dos noviços deste Convento, fr. Johan Greffenstein, depositou em suas mãos “uma Bíblia de capa vermelha”; e que este novo noviço ficou tão entusiasmado com a sua leitura que quase a memorizou. Devemos recordar que o estudo e o conhecimento das Sagradas Escrituras era uma regra obrigatória nas comunidades religiosas e constituía a fonte fundamental de inspiração para os frades de vida ascética e contemplativa. Ao mesmo tempo, nas diversas bibliotecas das escolas, universidades e mosteiros da Idade Média, existiam Bíblias de várias edições, já que era a base do ensino teológico e elemento essencial da pregação e da liturgia. São testemunhos desta atividade bíblica os mais de 8.000 manuscritos antigos que se conservam da Vulgata latina, além do que, entre os anos de 1450 e 1522, foram impressas mais de 160 vezes a denominada “Biblia Pauperum”, tida como que o catecismo das pessoas mais simples.

A respeito da publicação de Bíblias na língua alemã, devemos ressaltar que muito antes de ser publicada a Bíblia de Lutero, já tinham sido catalogadas nada menos que 18 traduções, sendo 14 em alto alemão e 4 em baixo alemão. Delas é possível destacar a tradução completa da Bíblia, promovida no século XIV na Baviera, cuja publicação teve tão boa acolhida que o impressor Johan Mentelin a editou em outras 13 oportunidades, convertendo-a numa espécie de “Vulgata alemã”. Poderíamos acrescentar a este balanço as numerosas edições parciais dos Saltérios, Epistolários e Evangeliários, muitos deles traduzidos em diversas línguas vernáculas. Um dos inúmeros poemas populares existentes na Alemanha do século XV, intitulado “A Barca dos Loucos”, fazia referência a este dinamismo bíblico em um de seus versos: “Todos os países estão atualmente inundados das Sagradas Escrituras e daquelas coisas que afetam a saúde das almas”.

Se este conjunto de dados desmente a acusação genericamente feita contra a Igreja Católica, sobre o seu suposto desinteresse para dar a conhecer a Bíblia, será o historiador Francesc Falk quem esclarecerá melhor a falta de base destas acusações, através do seu livro “Die Babel am Ausgange del Mittelalters” (=As Bíblias Produzidas na Idade Média), publicado na Mogúncia em 1905. Nesta obra, afirma que na linha cronológica existente entre a invenção da imprensa (cerca do ano 1450) até o ano de 1520, foram traduzidas mais de 156 edições de Bíblias católicas, número que para aquela época não era nada mal. Devemos recordar também da tradução da Bíblia organizada pelo Card. Jiménez de Cisneros, publicada em 6 volumes em julho de 1517, sob a denominação “Bíblia Poliglota Complutense”, em cuja confecção interveio uma prestigiosa equipe de humanistas, filólogos e orientalistas que, entre outras coisas, tiveram o acerto de transcrever de forma paralela os textos originais do grego, hebraico e aramaico ao lado da correspondente tradução latina.

Retomando a questão de Lutero e sua tradução da Bíblia, é conveniente enquadrá-la no contexto da situação social e tecnológica do século XV na Europa, visto que graças a invenção da imprensa foi possível multiplicar as traduções da Bíblia em línguas vernáculas. Tal evento facilitou a possibilidade de pôr em contato com a Bíblia o povo simples e pouco culto, incrementando a tendência biblicista e anti-escolástica que se manifestava em muitos mosteiros e universidades alemãs do século XVI. Um dos mais importantes impulsores deste ambiente foi o famoso filólogo holandês Erasmo [de Roterdan], que em 1515 escrevia em sua “Epiclesis”: “Discordo daqueles que se opõem a que os ignorantes venham a ler as divinas letras traduzidas em língua vulgar. Desejaria que todas as moças lessem o Evangelho e as Epístolas Paulinas. E oxalá que o agricultor, com a mão no arado, fosse cantando alguma passagem da Bíblia; e fizesse o mesmo o tecelão em seu tear; e o caminhante aliviasse a fastidiosa viagem com essas histórias! Disso deveriam tratar as conversas de todos os cristãos”[1].

No mosteiro de Vintemberg, Lutero tinha lido e assimilado esta exortação de Erasmo e, querendo tornar-se braço executor do humanista holandês, proporá levar a cabo a tradução da Bíblia para dá-la a conhecer a todos os alemães. Iniciou esta tarefa traduzindo o Novo Testamento para a língua alemã, aproveitando os últimos meses que lhe restavam de sua estadia no bem equipado castelo de Wartburg, situado na comarca da Turíngia, lugar em que se escondeu ao fugir da sentença condenatória do Edito de Worms. Nesta tarefa exigente, manifestou sua capacidade de trabalho, pois em um período de três meses (de dezembro de 1521 até princípios de março de 1522, data em que saiu do esconderijo para acorrer novamente a Vintemberg), praticamente terminou a tradução do Novo Testamento.

Seis meses depois, mais concretamente em setembro de 1522, saiu impressa esta tradução do Novo Testamento, sob o título “Das Newe Testament Eutzsch, Wittemberg”, em que não aparecia nem o ano nem o nome do impressor, nem tampouco o nome de seu autor, talvez para obter uma maior difusão do livro. Nesta primeira edição foram impressos 3.000 exemplares que logo se esgotaram, pois em finais do ano seguinte já era publicada uma segunda edição. Segundo cálculos de um dos biógrafos de Lutero, Hartman Grisar, até o ano de 1527 foram feitas 16 edições em Vintemberg, sem contar as mais de 50 edições em outras cidades alemãs. Lutero efetuou a tradução alemã do Novo Testamento recorrendo aos procedimentos usados naquele tempo, que consistiam em partir da Vulgata latina, do original grego da Septuaginta [LXX] - apesar de Lutero não ser especialista na língua helênica - e também das anteriores traduções alemãs da Bíblia[2].

Levado por seu ardor evangelista, que era alimentado por suas vivências subjetivas interiores, Lutero considerava que as anteriores traduções da Bíblia não refletiam o sentido teológico que desejava dar-lhes; e considerando mais o sentido que a letra dos textos, utilizou uma linguagem tão viva, natural e popular que qualquer leitor o poderia entender sem maiores dificuldades. Com a tradução do Novo Testamento, Lutero pretendia corroborar suas próprias doutrinas e aproveitou a ocasião para acusar a Igreja de não ter entendido o autêntico Evangelho (e, de passagem, para desacreditar e injuriar o papado e a Sé Romana, especialmente através das polêmicas ilustrações que acompanhavam algumas páginas da edição, realizadas pelo famoso desenhista Lucas Cranach “o Velho”).

Quanto à tradução do Antigo Testamento, sua edição foi retardada por algum tempo, em parte devido ao insuficiente conhecimento que Lutero tinha da língua hebraica. Isto o obrigou a pedir a colaboração de uma equipe formada por ilustres auxiliares reformistas e por alguns reconhecidos lingüistas[3]. Tal como já tinha feito com o Novo Testamento, voltou a se servir da tradução grega da Septuaginta [LXX], da Vulgata latina e das antigas traduções alemãs. A tradução completa da Bíblia só foi concluída e impressa no ano de 1534 e estava dividida em 6 partes. Esta primeira edição era acompanhada de prefácios e notas marginais, juntamente com diversas gravuras (muitas delas realizadas por artistas desconhecidos) altamente ofensivas aos católicos. Esta edição teve uma boa acolhida em todas as comarcas da Alemanha, obrigando a se realizar uma nova edição no ano seguinte. Calcula-se que entre o período de 1534 e 1584 cerca de 100.000 exemplares foram vendidos, uma cifra considerável para aquela época.

Com a intenção de melhorar estas traduções, Lutero continuou revisando a sua Bíblia nos anos seguintes, auxiliado por seus clássicos colaboradores. De fato, a correção linguística da sua Bíblia supera a de muitas edições das antigas Bíblias alemãs, já que estas refletiam um alemão bastante tosco e rudimentar, que dependia dos dialetos existentes. Além disso, estas antigas traduções copiavam quase que literalmente a Vulgata [latina], reproduzindo uma série de latinismos e hebraísmos de difícil compreensão, que já não se adaptavam suficientemente à língua popular da Germânia do século XVI.

É indubitável que Lutero colocou em tensão todas as forças de seu espírito e também de seu corpo na tradução da Bíblia para o alemão, com o objetivo de não perder nenhuma de suas típicas matizes e de sua estrutura sintática. Isto lhe exigiu traduzir de forma literal e dar a muitas das frases originais das Sagradas Escrituras alguns sentidos diferentes dos tradicionais, obrigando-o a introduzir termos que não tinham correspondência com os textos originais, mudando seu significado conceitual, de modo que a Palavra de Deus passava a adquirir um sentido suspeitamente subjetivista. Lutero nos descreve o método simples e direto em que se inspirou para sua peculiar tradução: “Não se deve perguntar às sílabas da língua latina como se deve falar em alemão; deve-se na verdade perguntar à mãe de família em sua casa, às crianças da rua, ao homem comum na praça e observar-lhes a boca para comprovar como falam e, segundo tudo isto, traduzir”[4].

Os católicos, surpresos pela grande difusão da Bíblia de Lutero, tentaram contrapor a esta influência a publicação de diferentes edições da Bíblia. Talvez as mais conhecidas sejam as do dominicano Johan Dietenberger, publicada na Mogúncia em 1534 e que teve uma boa acolhida. Ainda que se ajustasse à Vulgata latina, devemos assinalar que também se beneficiava consideravelmente da tradução luterana. Outra edição da Bíblia foi a do prestigioso teólogo Johan Eck[5], “Bibel auf hochteusch verdolmetsch, Ingolstadt”, de 1537. Esta tradução era mais exata que a de Dietenberger, embora não tenha gozado de tanto sucesso, talvez por sua linguagem mais figurada, áspera e difícil. Alguns anos antes, Jeronimo Emser, falecido em 1527, havia publicado um Novo Testamento fazendo uso de uma linguagem clara e acessível, que em alguns aspectos se inspirou no estilo popular do Novo Testamento luterano.

Os adversários de Lutero o acusaram de falta de ortodoxia doutrinal e de torcer os textos sagrados para acomodá-los às sua opiniões teológicas particulares e subjetivas. O já citado Jeronimo Emser afirma que na tradução luterana do Novo Testamento havia encontrado mais de 1.400 erros e falsidades de todos os tipos. Diante destes ataques, Lutero respondia com grande arrogância: “Minha doutrina é a de Cristo e a de Cristo não é outra que a contida na Bíblia. Se me argumentam com um texto da Escritura, eu lhes responderei com Cristo, contra a letra da Escritura”[6]. A partir do ponto de vista teológico e doutrinário, são de maior gravidade as acusações que se referem à arbitrária seleção que fez do cânon dos livros bíblicos, de tal maneira que aqueles em que encontrava apoio suficiente para confirmar sua doutrina eram exaltados como verdadeiros, divinos e proféticos; ao contrário, aqueles que não expressavam esta concordância, mereciam sua rejeição. O Profeta de Vitemberg não faz cerimônias para sustentar que sua própria interpretação da Bíblia está acima, inclusive, da autoridade dos Apóstolos: “Aquele que não favorece o conhecimento de Cristo não é apostólico, ainda que o diga Pedro ou Paulo; ao contrário, aquele que prega a Cristo é apostólico, ainda que o diga Judas [Iscariotes], Anás, Pilatos e Herodes”[7].

Para Lutero, o Novo Testamento era constituído principalmente pelo Evangelho de São João e pelas Cartas de São Paulo e São Pedro; ao contrário, os três Evangelhos sinóticos não lhe mereciam muito apreço. No prólogo de uma de suas edições do Novo Testamento, escreve: “Deve-se distinguir entre livros e livros. Os melhores são o Evangelho de São João e as Epístolas de São Paulo, especialmente aquelas aos Romanos, aos Gálatas e aos Efésios, e a 1ª Epístola de São Pedro; estes são os livros que te manifestam a Cristo e te ensinam tudo o que precisas para a salvação, ainda que não conheças nenhum dos outros livros. A Epístola de São Tiago, diante destas, nada mais é que palha, pois não apresenta nenhuma marca evangélica”[8]. De outro lado, nega que a Epístola aos Hebreus pertença a São Paulo; e da Epístola de São Judas, diz que é um extrato da de São Pedro e, portanto, desnecessária. A respeito do Apocalipse, expressa sua rejeição, pois não concebe que Cristo aja como um juiz severo: “Não encontro neste livro nada que seja apostólico, nem profético”[9]. Quanto aos livros do Antigo Testamento, faz uso do mesmo procedimento arbitrariamente seletivo de aceitá-los ou rejeitá-los conforme coincidam ou não com as suas próprias interpretações teológicas[10]. Apesar disso, a Bíblia de Vitemberg seguiu seu incessável curso e continuou a ser aceita por um amplo setor do povo alemão e também dos países do norte da Europa.

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Notas:

[1] Opera Omnia, VI, 3.
[2] O texto grego que lhe serviu de base foi o “Novum Testamentum Graece”, de Nicolas Gerbel, que por sua vez dependia do “Novum Testamentum”, de Erasmo [de Roterdan]. Também se serviu das Anotações de Lorenzo Valla e das Apostilas de Nicolas de Lira.
[3] Esta equipe, que era uma espécie de “Academia Luterana”, era formada pelo helenista Felipe Melancton, o professor de exegese bíblica Gaspar Cruciger, o professor de hebraico J. Jonas, o humanista e hebraísta de Leipzig Bernat Ziegler, o pregador J. Bugenhagen e o destacado discípulo de Reuchlin, Joan Foster, autor de um dicionário de hebraico. O diácono J. Rörer era o corretor e redator do protocolo.
[4] Senbrief, 637. As citações de Lutero correspondem às O. C. da edicão de Weimar.
[5] Jonan Eck, conhecido como “o teólogo de Ingolstadt”, debateu e venceu Lutero, na famosa disputa teológica que ocorreu em Leipzig no mês de julho de 1519, na grande sala do castelo de Pleissemburg, regido então pelo duque da Saxônia, Jorge o Barbudo.
[6] WA 39, 1.
[7] Prólogo às Epístolas de Tiago e Judas (Bibel VII, 384).
[8] Prólogo do Novo Testamento de 1546 (Bibel VI, 10).
[9] (Bibel VII, 404)
[10] Do Antigo Testamento, [Lutero] rejeitará - como “livros apócrifos” - Judite, Sabedoria de Salomão, Tobias, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2Macabeus, além de algumas partes do livro de Ester e outros fragmentos [de Daniel].

Para citar este artigo:
PIFARRÉ, Lluís. Apostolado Veritatis Splendor: LUTERO E A BÍBLIA. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4894. Desde 7/23/2008.

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Cassiodoro de Squillace

jul 24, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Quero falar hoje de (…) Cassiodoro, que [também viveu] em uma das épocas mais atribuladas do Ocidente cristão, em particular na península italiana. Odoacro, rei dos hérulos, uma etnia germânica, havia se rebelado, acabando com o império romano do Ocidente (ano 476), mas logo sucumbiu aos ostrogodos de Teodorico, que durante algumas décadas controlaram a península italiana.

Marco Aurélio Cassiodoro foi contemporâneo de Boécio. Calabrês, nascido em Squillace por volta do ano 485, morreu muito ancião em Vivarium, por volta do ano 580. Procedente também de um elevado nível social, ele se dedicou à vida política e ao compromisso cultural como poucos outros no Ocidente romano de seu tempo. Talvez os únicos que poderiam se igualar a ele neste duplo interesse eram o já recordado Boécio, e o futuro Papa de Roma, Gregório Magno (590-604).

Consciente da necessidade de não deixar no esquecimento todo o patrimônio humano e humanista acumulado nos séculos de ouro do Império Romano, Cassiodoro colaborou generosamente, nos mais elevados níveis de responsabilidade política, com os povos novos que haviam atravessado as fronteiras do Império e se haviam estabelecido na Itália. Também foi modelo de encontro cultural, de diálogo, de reconciliação. As vicissitudes históricas não lhe permitiram realizar seus sonhos políticos e culturais, que buscavam criar uma síntese entre a tradição romano-cristã da Itália e a nova cultura gótica. Aquelas mesmas vicissitudes o convenceram sobre o caráter providencial do movimento monástico, que ia se afirmando nas terras cristãs. Decidiu apoiá-lo, dedicando a isso todas as suas riquezas materiais e suas forças espirituais.

Teve a idéia de confiar precisamente aos monges a tarefa de recuperar, conservar e transmitir às gerações futuras o imenso patrimônio cultural dos antigos, para que não se perdesse. Por isto fundou Vivarium, um cenóbio no qual tudo estava organizado de maneira que se estimasse como extremamente belo e irrenunciável o trabalho intelectual dos monges. Estabeleceu também que os monges que não tinham uma formação intelectual não se dedicariam só ao trabalho material, da agricultura, mas também à transcrição dos manuscritos para que deste modo ajudassem na transmissão da grande cultural às futuras gerações.

E isso sem que fosse em detrimento algum do compromisso espiritual monástico e cristão e da atividade caritativa pelos pobres. Em seu ensinamento, distribuído em várias obras, mas sobretudo no tratado «De anima e no Institutiones divinarum litterarum», a oração (C. PL 69, col. 1108), alimentada pela Sagrada Escritura e particularmente pela meditação assídua dos Salmos (cf. PL 69, col. 1149), tem sempre um lugar central como comida necessária para todos.

Este douto calabrês introduz assim sua «Expositio in Psalterium»: «Rejeitadas e abandonadas em Ravena as solicitudes da carreira política, caracterizada pelo sabor desgostoso das preocupações mundanas, tendo desfrutado do Saltério, livro caído do céu como autêntico mel para a alma, lancei-me avidamente como um sedento para escrutá-lo e deixar-me penetrar totalmente por essa doçura saudável, depois de ter me saciado das inumeráveis amarguras da vida ativa» (PL 70, col. 10).

A busca de Deus, orientada à sua contemplação – escreve Cassiodoro –, continua sendo o objetivo permanente da vida monástica (cf. PL 69, col. 1107). Contudo, acrescenta que com a ajuda da graça divina (cf. PL 69, col. 1131.1142), pode se desfrutar melhor da Palavra revelada, utilizando as conquistas científicas e culturais «profanas» que os gregos e os romanos possuíam (cf. PL 69, col. 1140). Cassiodoro se dedicou pessoalmente aos estudos filosóficos, teológicos e exegéticos sem particular criatividade, mas prestando atenção nas intuições que considerava válidas nos demais. Lia com respeito e devoção sobretudo Jerônimo e Agostinho. Deste último, dizia: «Em Agostinho há tanta riqueza que me parece impossível encontrar algo que já não tenha sido tratado abundantemente por ele» (cf. PL 70, col. 10).

Citando Jerônimo, exortava os monges de Vivarium: «Não alcançam a palma da vitória somente aqueles que lutam até derramar o sangue ou que vivem na virgindade, mas também todos aqueles que, com a ajuda de Deus, vencem os vícios do corpo e conservam a reta fé. Mas para que possais vencer com a ajuda de Deus mais facilmente os estímulos do mundo, permanecendo nele como peregrinos em contínuo caminho, buscai antes de tudo a saudável ajuda sugerida pelo primeiro salmo, que recomenda meditar dia e noite na lei do Senhor. O inimigo não encontrará, de fato, nenhuma entrada para assaltar-vos se toda vossa atenção está ocupada em Cristo» («De Institutione Divinarum Scripturarum», 32; PL 69, col. 1147).

É uma advertência que também podemos considerar como válida para nós. Vivemos, de fato, também nós, em um tempo de encontro de culturas, de perigo de violência que destrói as culturas, e no qual é necessário o compromisso para transmitir os grandes valores e ensinar às novas gerações o caminho da reconciliação e da paz. Encontramos este caminho orientando-nos para o Deus com rosto humano, o Deus que se nos revelou em Cristo.

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São Leão I Magno de Roma

jul 22, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Continuando nosso caminho entre os padres da Igreja, autênticos astros que brilham de longe, no encontro de hoje nos aproximamos da figura de um Papa que em 1754 foi proclamado doutor da Igreja por Bento XIV: trata-se de São Leão Magno. Como indica o apelativo que depois a tradição lhe atribuiu, ele foi verdadeiramente um dos maiores pontífices que honraram a Sede de Roma, oferecendo uma grande contribuição para reforçar sua autoridade e prestígio. Primeiro bispo de Roma em levar o nome de Leão, adotado depois por outros doze sumos pontífices, é também o primeiro papa do qual nos chegou a pregação, dirigida ao povo que o rodeava durante as celebrações. Vem à mente espontaneamente sua lembrança no contexto das atuais audiências gerais da quarta-feira, encontros que se converteram para o bispo de Roma em uma costumeira forma de encontro com os fiéis e com os visitantes procedentes de todas as partes do mundo.

Leão havia nascido na Tuscia. Foi diácono da Igreja de Roma em torno do ano 430, e com o tempo alcançou nela uma posição de grande importância. Este papel destacado levou, no ano 440, a Gala Placidia, que nesse momento regia o Império do Ocidente, a enviar-lhe à Gália para resolver a difícil situação. Mas no verão daquele ano, o Papa Sixto III, cujo nome está ligado aos magníficos mosaicos da Basílica de Santa Maria a Maior, faleceu e foi eleito como seu sucessor Leão, que recebeu a notícia enquanto desempenhava sua missão de paz em Gália.

Após regressar a Roma, o novo Papa foi consagrado em 29 de setembro do ano 440. Iniciava deste modo seu pontificado, que durou mais de 21 anos e que foi sem dúvida um dos mais importantes na história da Igreja. Ao morrer, em 10 de novembro do ano 461, o Papa foi sepultado junto ao túmulo de São Pedro. Suas relíquias continuam custodiadas em um dos altares da Basílica Vaticana.

O Papa Leão viveu em tempos sumamente difíceis: as repetidas invasões bárbaras, o progressivo enfraquecimento no Ocidente da autoridade imperial, e uma longa crise social haviam obrigado o bispo de Roma – como sucederia com mais clareza ainda um século e meio depois, durante o pontificado de Gregório Magno – a assumir um papel destacado inclusive nas vicissitudes civis e políticas. Isto não impediu que aumentasse a importância e o prestígio da Sé Romana. É famoso um episódio da vida de Leão. Remonta-se ao ano 452, quando o Papa em Mantua, junto a uma delegação romana, saiu ao passo de Atila, o chefe dos hunos, para convencer-lhe de que não continuasse a guerra de invasão com a qual havia devastado as regiões do nordeste da Itália. Deste modo salvou o resto da península.

Este importante acontecimento depois se tornou memorável e permanece como um sinal emblemático da ação de paz desempenhada pelo pontífice. Não foi tão positivo, infelizmente, três anos depois, o resultado de outra iniciativa do Papa, que de todos modos manifestou uma valentia que ainda hoje surpreende: na primavera do ano 455, Leão não conseguiu impedir que os vândalos de Genserico, ao chegar às portas de Roma, invadiram a cidade indefesa, que foi saqueada durante duas semanas. Contudo, o gesto do Papa, que inerme e rodeado de seu clero, saiu ao passo do invasor para pedir-lhe que se detivesse, impediu ao menos que Roma fosse incendiada e conseguiu que não fossem saqueadas as basílicas de São Pedro, de São Paulo e de São João, nas quais se refugiou parte da população aterrorizada.

Conhecemos bem a ação do Papa Leão graças a seus maravilhosos sermões – conservaram-se quase cem em um latim esplêndido e claro – e a suas cartas, cerca de 150. Nestes textos, o pontífice se apresenta em toda a sua grandeza, dedicado ao serviço da verdade na caridade, através de um exercício assíduo da palavra, como teólogo e pastor. Leão Magno, constantemente requerido por seus fiéis e pelo povo de Roma, assim como pela comunhão entre as diferentes Igrejas e por suas necessidades, apoiou e promoveu incansavelmente o primado romano, apresentando-se como um autêntico herdeiro do apóstolo Pedro: os numerosos bispos, em boa parte orientais, reunidos no Concílio de Calcedônia, demonstraram que eram sumamente conscientes disso.

Celebrado em 451, com 350 bispos participantes, este Concílio se converteu na assembléia mais importante celebrada até então na historia da Igreja. Calcedônia representa a meta segura da cristologia dos três concílios ecumênicos precedentes: o de Nicéia, do ano 325, o de Constantinopla, do ano 381 e o de Éfeso, do ano 431. Já no século VI estes quatro concílios, que resumem a fé da Igreja antiga, foram comparados aos quatro Evangelhos: e o afirma Gregório Magno em uma famosa carta (I, 24), na qual declara que se deve «acolher e venerar, como os quatro livros do Santo Evangelho, os quatro concílios», porque, como continua explicando Gregório, sobre eles «se edifica a estrutura da santa fé, como sobre uma pedra quadrada». O Concílio de Calcedônia, ao rejeitar a heresia de Eutiques, que negava a autêntica natureza humana do Filho de Deus, afirmou a união em sua única Pessoa, sem confusão nem separação, das duas naturezas, humana e divina.

Esta fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, era afirmada pelo Papa em um importante texto doutrinal dirigido ao bispo de Constantinopla, o assim chamado «Tomo a Flaviano», que ao ser lido em Calcedônia, foi acolhido pelos bispos presentes com uma aclamação eloqüente, registrada nas atas do Concílio: «Pedro falou pela boca de Leão», exclamaram unidos os padres conciliares. A partir daquela intervenção e de outras pronunciadas durante a controvérsia cristológica daqueles anos, torna-se evidente que o Papa experimentava com particular urgência as responsabilidades do sucessor de Pedro, cujo papel é único na Igreja, pois «a um só apostolado se confia o que a todos os apóstolos se comunica», como afirma Leão em um de seus sermões por ocasião da festa dos santos Pedro e Paulo (83,2). E o pontífice soube exercer estas responsabilidades, tanto no Ocidente como no Oriente, intervindo em diferentes circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez, através de seus escritos e de seus legados. Mostrava deste modo como o exercício do primado romano era necessário então, como o é hoje, para servir eficazmente a comunhão, característica da única Igreja de Cristo.

Consciente do momento histórico no qual vivia e da transição que acontecia, em um período de profunda crise, da Roma pagã à cristã, Leão Magno soube estar perto do povo e dos fiéis com a ação pastoral e a pregação. Alentou a caridade em uma Roma afetada pelas carestias, pela chegada de refugiados, pelas injustiças e pela pobreza. Enfrentou as superstições pagãs e a ação dos grupos maniqueístas. Ligou a liturgia à vida cotidiana dos cristãos: por exemplo, unindo a prática do jejum com a caridade e com a esmola, sobretudo com motivo das Quattro tempora, que caracterizam no transcurso do ano a mudança das estações. Em particular, Leão Magno ensinou a seus fiéis – e suas palavras continuam sendo válidas para nós – que a liturgia cristã não é a lembrança de acontecimentos passados, mas a atualização de realidades invisíveis que atuam na vida de cada um. Ele a sublinha em um sermão (64, 1-2) falando da Páscoa, que deve ser celebrada em todo tempo do ano, «não como algo do passado, mas como um acontecimento do presente». Tudo isso se enquadra em um projeto preciso, insiste o pontífice: assim como o Criador animou com o sopro da vida racional o homem feito no barro da terra, do mesmo modo, após o pecado original, enviou seu Filho ao mundo para restituir ao homem a dignidade perdida e destruir o domínio do diabo através da nova vida da graça.

Este é o mistério cristológico ao qual São Leão Magno, com sua carta ao Concílio de Éfeso, ofereceu uma contribuição eficaz e essencial, confirmando para todos os tempos, através desse Concílio, o que disse São Pedro em Cesaréia de Filipo. Com Pedro e como Pedro confessou: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo». Por este motivo, ao ser Deus e Homem ao mesmo tempo, «não é alheio ao gênero humano, mas é alheio ao pecado» (cf. Sermão 64). Na força desta fé cristológica, foi uma grande mensagem de paz e de amor. Desta maneira nos mostra o caminho: na fé aprendemos a caridade. Aprendamos, portanto, com São Leão Magno a crer em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, e a viver esta fé cada dia na ação pela paz e no amor ao próximo.

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Santo Agostinho de Hipona

jul 20, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit

A VIDA

Queridos irmãos e irmãs:

Depois das grandes festividades natalinas, quero voltar a meditar sobre os padres da Igreja e falar hoje do maior padre da Igreja Latina, Santo Agostinho: homem de paixão e de fé, de elevadíssima inteligência e de incansável entrega pastoral. Este grande santo e doutor da Igreja é conhecido, ao menos de nome, inclusive por quem ignora o cristianismo ou não tem familiaridade com ele, por ter deixado uma marca profunda na vida cultural do Ocidente e de todo o mundo.

Por sua singular relevância, Santo Agostinho teve uma influência enorme e poderia afirmar-se, por uma parte, que todos os caminhos da literatura cristã latina levam a Hipona (hoje Anaba, na costa da Argélia), localidade na qual era bispo e, por outra, que desta cidade da África romana, na qual Agostinho foi bispo desde o ano 395 até 430, partem muitos outros caminhos do cristianismo sucessivo e da própria cultura ocidental.

Poucas vezes uma civilização encontrou um espírito tão grande, capaz de acolher os valores e de exaltar sua intrínseca riqueza, inventando idéias e formas das quais se alimentariam as gerações posteriores, tal como sublinhou também Paulo VI: «Pode-se dizer que todo o pensamento da antiguidade conflui em sua obra e dessa se derivam correntes de pensamento que penetram toda a tradição doutrinal dos séculos posteriores» (AAS, 62, 1970, p. 426).

Agostinho é também o padre da Igreja que deixou o maior número de obras. Seu biógrafo, Posídio, diz: parecia impossível que um homem pudesse escrever tanto em vida. Em um próximo encontro falaremos destas obras. Hoje, nossa atenção se concentrará em sua vida, que pôde reconstruir-se com seus escritos, e em particular com as «Confissões», sua extraordinária biografia espiritual escrita para louvor de Deus, sua obra mais famosa.

As «Confissões» constituem, precisamente por sua atenção à interioridade e à psicologia, um modelo único na literatura ocidental, e não só ocidental, inclusive a não-religiosa, ate a modernidade.

Esta atenção pela vida espiritual, pelo mistério do eu, pelo mistério de Deus que se esconde no eu, é algo extraordinário, sem precedentes, e permanece para sempre como um «cume» espiritual.

Mas voltamos à sua vida. Agostinho nasceu em Tagaste, na província de Numídia, na África romana, em 13 de novembro de 354, filho de Patrício, um pagão que deopis chegou a ser catecúmeno, e de Mônica, fervorosa cristã.

Esta mulher apaixonada, venerada como santa, exerceu em seu filho uma enorme influência e o educou na fé cristã. Agostinho havia recebido também o sal, como sinal da acolhida no catecumenato. E sempre se fascinou pela figura de Jesus Cristo; e mais, diz que sempre amou Jesus, mas que se afastou cada vez mais da fé eclesial, da prática eclesial, como acontece também hoje com muitos jovens.

Agostinho tinha também um irmão, Navigio, e uma irmã, da qual desconhecemos o nome e que, após ficar viúva, converteu-se em superiora de um mosteiro feminino.

O rapaz, de agudíssima inteligência, recebeu uma boa educação, ainda que nem sempre foi estudante exemplar. De qualquer forma, aprendeu bem a Gramática, primeiro em sua cidade natal e depois em Madaura e, a partir do ano 370, Retórica, em Cartago, capital da África romana: chegou a dominar perfeitamente o Latim, mas não alcançou o mesmo nível em grego, nem aprendeu o púnico, língua que seus antepassados falavam. (more…)

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São Paulino de Nola

jul 18, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Élison Santos
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

O padre da Igreja que apresentaremos hoje é São Paulino de Nola. Da mesma época de Santo Agostinho, com quem esteve unido através de uma intensa amizade, Paulino exerceu seu ministério em Campânia, em Nola, onde foi monge, e depois presbítero e bispo. Era originário de Aquitânia, no sul da França, mais concretamente de Bordeaux, onde nasceu no seio de uma família de alta ascendência. Lá recebeu uma fina educação literária, tendo por mestre o poeta Ausônio. Afastou-se de sua terra em um primeiro momento para seguir sua precoce carreira política. Sendo ainda jovem, desempenhou o papel de governador de Campânia. Neste cargo público, destacou-se por sua sabedoria e mansidão. Neste período, a graça fez germinar em seu coração a semente da conversão. A chama surgiu da fé simples e intensa com a qual o povo honrava o túmulo de um santo, o mártir Félix, no santuário da atual Cimitile. Como responsável público, Paulino se preocupou por este santuário e fez construir um hospital para os pobres e um caminho para tornar mais fácil o acesso dos numerosos peregrinos.

Enquanto se dedicava a construir a cidade terrena, descobria o caminho para a cidade celestial. O encontro com Cristo foi o ponto de chegada, depois de um caminho árduo, semeado de provas. Circunstâncias dolorosas, começando pela perda do favor da autoridade política, fizeram-no tocar a caducidade do terreno. Após descobrir a fé, escreveria: «o homem sem Cristo é pó e sombra» (Carmen X, 289). Buscando o sentido da existência, viajou a Milão para aprender de Santo Ambrósio. Depois completou a formação cristã em sua terra natal, onde recebeu o batismo das mãos do bispo Delfim, de Burdeos. Em seu caminho de fé aparece também o matrimônio. Casou-se com Teresa, uma mulher nobre de Barcelona, com quem teve um filho. Teria seguido sendo um bom leigo cristão, se a morte do filho poucos dias depois não lhe tivesse afetado interiormente, mostrando-lhe que Deus tinha outro desígnio para sua vida. Sentiu-se chamado a entregar-se a Cristo em uma rigorosa vida ascética.

Em pleno acordo com sua mulher, Teresa, vendeu seus bens para ajudar os pobres e, junto com ela, deixou Aquitânia para morar em Nola, junto à basílica do protetor São Félix, em casta fraternidade, segundo uma forma de vida à qual outros se uniram. O ritmo era tipicamente monástico, mas Paulino, que foi ordenado presbítero em Barcelona, começou a exercer também o ministério sacerdotal com os peregrinos.

Isso lhe trouxe a simpatia e a confiança da comunidade cristã que, ao morrer o bispo, no ano 409, escolheu-o como sucessor na cátedra de Nola. Sua ação pastoral se intensificou, caracterizando-se por uma atenção aos pobres. Deixou a imagem de um autêntico pastor da caridade, como o descreveu São Gregório Magno no capítulo III de seu Diálogos, onde Paulino é retratado no heróico gesto de oferecer-se como prisioneiro no lugar do filho de uma viúva. O episódio é discutido historicamente, mas resta-nos a figura de um bispo de grande coração, que soube estar junto a seu povo nas tristes contingências das invasões dos bárbaros.

A conversão de Paulino impressionou seus contemporâneos. Seu mestre, Ausônio, poeta pagão, sentiu-se «traído» e lhe dirigiu palavras duras, repreendendo-lhe por seu «desprezo», considerado irracional, dos bens materiais, e por abandonar sua vocação de escritor. Paulino replicou que sua ajuda aos pobres não significava desprezo pelos bens terrenos, mas sim valorização deles com o fim mais elevado da caridade. Pelo que se refere a suas capacidades literárias, Paulino não havia abandonado o talento poético, que seguiria cultivando, mas sim as fórmulas poéticas inspiradas na mitologia e nos ideais pagãos. Uma nova ascética regia sua sensibilidade: era a beleza do Deus encarnado, crucificado e ressuscitado de quem agora se havia convertido em trovador. Na realidade, não havia deixado a poesia, mas passava a buscar inspiração no Evangelho, como diz neste verso: «Para mim a única arte é a fé, e Cristo é minha poesia» («At nobis ars una fides, et musica Christus»: Carmen XX, 32).

Seus poemas são cantos de fé e de amor, nos quais a história diária dos pequenos e grandes acontecimentos é vista como história de salvação, como história de Deus conosco. Muitas dessas composições estão ligados à festa anual do mártir Félix, a quem havia escolhido como padroeiro celeste. Recordando São Félix, queria glorificar o próprio Cristo, certo de que a intercessão do santo lhe havia alcançado a graça da conversão: «Em tua luz, glorioso, amei a Cristo» (Carmen XXI, 373). Expressou este mesmo conceito ampliando o espaço do santuário com uma nova basílica, que decorou de forma que as pinturas, ilustradas com explicações adequadas, converteram-se para os peregrinos em uma catequese visual. Deste modo, explicava seu projeto em um «carmen», dedicado a outro grande catequista, São Niceto de Remesiana, enquanto o acompanhava em uma visita a suas basílicas: «Agora quero que contemples a longa série de pinturas das paredes dos pórticos… Pareceu-nos útil representar com a pintura argumentos sagrados em toda a casa de Félix, com a esperança de que, ao ver estas imagens, a figura desenhada suscite o interesse das mentes surpreendidas dos camponeses» (Carmen XXVII, versículos 511.580.583). Ainda hoje se podem admirar aqueles vestígios que fazem do santo de Nola uma das figuras de referência da arqueologia cristã.

No cenóbio de Cimitile, a vida discorria em pobreza, oração e totalmente submersa na lectio divina. A Escritura lida, meditada, assimilada, era o raio de luz através do qual o santo de Nola escrutava sua alma em sua busca da perfeição. A quem se surpreendia pela sua decisão de abandonar os bens materiais, ele recordava que este gesto não representava nem de longe a plena conversão: «Abandonar ou vender os bens temporais possuídos neste mundo não significa o cumprimento, mas só o início da carreira no estágio; não é, por assim dizer, a meta, mas só a saída. O atleta não ganha quando tira sua roupa, pois a deixa de lado para poder começar a lutar. Só recebe a coroa de vencedor depois de ter combatido como se deve» (cf. Epístola XXIV, 7 a Sulpício Severo).

Junto à ascese e à Palavra de Deus, a caridade: na comunidade monástica, os pobres se sentiam em sua casa. Paulino não se limitava a dar-lhes esmola: acolhia-os como se fossem o próprio Cristo. Reservava-lhes uma ala do mosteiro e, deste modo, não tinha a impressão de dar, mas de receber, no intercâmbio de dons entre a acolhida oferecida e a gratidão feita oração daqueles a quem ajudava. Chamava os pobres de seus «donos» (cf. Epístola XIII, 11 a Pamáquio) e, ao observar que eles ficavam no andar inferior, dizia-lhes que sua oração desempenhava a função dos fundamentos de sua casa (cf. Carmen XXI, 393-394).

São Paulino não escreveu tratados de teologia, mas seus «carmens» e seu denso epistolário estão repletos de uma teologia vivida, penetrada pela Palavra de Deus, escrutada constantemente como luz para a vida. Em particular, expressa o sentido da Igreja como mistério de unidade. Vivia a comunhão sobretudo através de uma profunda prática da amizade espiritual. Neste sentido, Paulino foi um verdadeiro mestre, fazendo de sua vida um cruzamento de caminhos de espíritos escolhidos: de Martinho de Tours a Jerônimo, de Ambrósio a Agostinho, de Delfin de Burdeos a Niceto de Remesiana, de Vitricio de Rouen a Rufino de Aquiléia, de Pamáquio a Sulpício Severo, e muitos mais, sejam conhecidos ou não. Neste clima nascem as intensas páginas que dirigiu a Agostinho. Independentemente dos conteúdos das diferentes cartas, impressiona o ardor com o qual o santo de Nola canta a própria amizade, como manifestação do único corpo de Cristo animado pelo Espírito Santo.

Esta é uma significativa passagem dos inícios da correspondência entre os dois amigos: «Não é de surpreender que nós, apesar da distância, estejamos juntos, e sem ter-nos conhecido nos conhecemos, pois somos membros de um só corpo, temos uma só cabeça, ficamos inundados por uma só graça, vivemos de um só pão, caminhamos por um caminho único, vivemos na mesma casa» (Epístola 6, 2). Como se pode ver, trata-se de uma belíssima descrição do que significa ser cristãos, ser Corpo de Cristo, viver na comunhão da Igreja. A teologia em nosso tempo encontrou precisamente no conceito de comunhão a chave para enfrentar o mistério da Igreja. O testemunho de São Paulino de Nola nos ajuda a experimentar a Igreja como o Concílio Vaticano II a apresenta: sacramento da íntima união com Deus e, deste modo, da unidade de todos nós e por último, de todo o gênero humano (cf. Lumen gentium, 1). Com esta perspectiva, eu desejo a todos vós um feliz tempo de Advento.

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São Cromácio de Aquiléia

jul 16, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Nas últimas catequeses, fizemos uma excursão pelas Igrejas do Oriente de língua semítica, meditando sobre Afraates, o persa, e Santo Efrém, o sírio; hoje regressamos ao mundo latino, ao norte do Império Romano, com São Cromácio de Aquiléia. Este bispo desempenhou seu ministério na antiga Igreja de Aquiléia, fervoroso centro de vida cristã situado na Décima região do Império Romano, a Venetia et Histria.

No ano 388, quando Cromácio subiu à cátedra episcopal da cidade, a comunidade cristã local já havia amadurecido uma gloriosa história de fidelidade ao Evangelho. Entre a segunda metade do século III e os primeiros anos do IV, as perseguições de Décio, de Valeriano e de Diocleciano haviam colhido um grande número de mártires. A Igreja de Aquiléia também havia tido de enfrentar, como as demais Igrejas da época, a ameaça da heresia ariana. O próprio Atanásio, o arauto da Ortodoxia de Nicéia, a quem os arianos haviam expulsado ao exílio, encontrou refúgio durante um tempo em Aquiléia. Sob a guia de seus bispos, a comunidade cristã resistiu às insídias da heresia e reforçou sua adesão à fé católica.

Em setembro do ano 381, Aquiléia foi sede de um sínodo, que reuniu cerca de 35 bispos da costa da África, do Vale do Rin, e de toda a Décima região. O sínodo pretendia acabar com os últimos resíduos de arianismo no Ocidente. No Concílio participou o presbítero Cromácio como perito do bispo de Aquiléia, Valeriano (370/1-387/8). Os anos em torno do sínodo do ano 381 representam a «idade de ouro» da comunidade de Aquiléia. São Jerônimo, que havia nascido em Dalmácia, junto com Rufino de Concórdia falam com nostalgia de sua permanência em Aquiléia (370-373), naquela espécie de cenáculo teológico que Jerônimo não hesita em definir como «tamquam chorus beatorum» (Crônica: PL XXVII, 697-698). Neste cenáculo, que em certos aspectos recorda as experiências comunitárias vividas por Eusébio de Vercelli e por Agostinho, conformam-se as personalidades mais notáveis das Igrejas do Alto Adriático.

Mas já em sua família, Cromácio havia aprendido a conhecer e a amar Cristo. Ele nos fala dela com palavras cheias de admiração; o próprio Jerônimo compara a mãe de Cromácio com a profetiza Ana, a suas irmãs com as virgens prudentes da parábola evangélica, e o próprio Cromácio e seu irmão Eusébio com o jovem Samuel (cf. Epístola VII: PL XXII, 341). Jerônimo segue dizendo: «O beato Cromácio e o santo Eusébio eram tão irmãos de sangue como pela união de ideais» (Epístola VIII: PL XXII, 342).

Cromácio havia nascido em Aquiléia no ano 345. Foi ordenado diácono e depois presbítero; por último, foi eleito pastor daquela Igreja (ano 388). Após receber a consagração episcopal do bispo Ambrósio, dedicou-se com valentia e energia a uma ingente tarefa pela extensão do campo que havia sido confiado à sua atenção pastoral: a jurisdição eclesiástica de Aquiléia, que se estendia desde os territórios da atual Suíça, Baviera, Áustria e Eslovênia, até chegar à Hungria.

É possível imaginar como Cromácio era conhecido e estimado na igreja de seu tempo por um episódio da vida de São João Crisóstomo. Quando o bispo de Constantinopla foi exilado de sua sede, escreveu três cartas a quem considerava como os mais importantes bispos do ocidente para alcançar seu apoio ante os imperadores: uma carta foi escrita ao bispo de Roma, a segunda ao bispo de Milão e a terceira ao bispo de Aquiléia, ou seja, Cromácio (Epístola CLV: PG LII, 702). Também para ele eram tempos difíceis por causa da precária situação política. Com toda probabilidade, Cromácio faleceu no exílio, em Grado, enquanto tentava escapar dos saques dos bárbaros, no mesmo ano 407, no qual também morria Crisóstomo.

Por prestígio e importância, Aquiléia era a quarta cidade da península italiana, e a nona do Império romano: por este motivo, chamava a atenção dos godos e dos hunos. Além de causar graves lutos e destruição, as invasões destes povos comprometeram gravemente a transmissão das obras dos Padres conservadas na biblioteca episcopal, rica em códices. Perderam-se também os escritos de Cromácio, que se dispersaram, e com freqüência foram atribuídos a outros autores: a João Crisóstomo (em parte, por causa de que seus dois nomes começavam da mesma forma: «Chromatius» como «Chrysostomus») ou a Ambrósio e a Agostinho; e inclusive a Jerônimo, a quem Cromácio havia ajudado muito na revisão do texto e na tradução latina da Bíblia. A redescoberta de grande parte da obra de Cromácio se deve a afortunadas vicissitudes, que permitiram nos anos recentes reconstruir um corpus de escritos bastante consistente: mais de quarenta sermões, dos quais uma dezena em fragmentos, além de aproximadamente sessenta tratados de comentário ao Evangelho de São Mateus.

Cromácio foi um sábio mestre e zeloso pastor. Seu primeiro e principal compromisso foi o de pôr-se à escuta da Palavra para ser capaz de converter-se em seu arauto: em seu ensinamento, ele sempre se baseava na Palavra de Deus e a ela regressava sempre. Alguns temas eram predominantes nele: antes de tudo, o mistério da Trindade, que contempla em sua revelação através da história da salvação. Depois está o tema do Espírito Santo: Cromácio recorda constantemente aos fiéis a presença e a ação da terceira Pessoa da Santíssima Trindade na vida da Igreja.

Mas o santo bispo enfrenta com particular insistência o mistério de Cristo. O Verbo encarnado é verdadeiro Deus e verdadeiro homem: assumiu integralmente a humanidade para entregar-lhe como dom a própria divindade. Estas verdades, repetidas com insistência, em parte em chave antiariana, levariam, cerca de cinqüenta anos depois, à definição do Concílio de Calcedônia.

O fato de sublinhar intensamente a natureza humana de Cristo leva Cromácio a falar da Virgem Maria. Sua doutrina mariológica é precisa. Devemos-lhe algumas descrições sugestivas da Virgem Santíssima: Maria é a «virgem evangélica capaz de acolher Deus»; é a «ovelha imaculada» que gerou o «cordeiro coberto de púrpura» (cf. Sermo XXIII, 3: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/1, p. 134).

O bispo de Aquiléia põe freqüentemente a Virgem em relação com a Igreja: ambas, de fato, são «virgens» e «mães». A eclesiologia de Cromácio se desenvolve sobretudo no comentário a Mateus. Estes são alguns dos conceitos repetidos: a Igreja é única, nasceu do sangue de Cristo; é um vestido precioso tecido pelo Espírito Santo; a Igreja está ali onde se anuncia que Cristo nasceu da Virgem, onde floresce a fraternidade e a concórdia. Uma imagem particularmente querida por Cromácio é a do barco no mar na tempestade – viveu em uma época de tempestades, como vimos: «Não há dúvida, afirma o santo bispo, de que esta nave representa a Igreja» (cf. Tract. XLII, 5: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/2, p. 260).

Como zeloso pastor, Cromácio sabe falar à sua gente com uma linguagem fresca, colorida e incisiva. Sem ignorar a perfeita construção latina, prefere recorrer à linguagem popular, rica de imagens facilmente compreensíveis. Deste modo, por exemplo, usando a imagem do mar, põe em relação por uma parte a pesca natural de peixes que, deixados na margem, morrem; e por outra, a pregação evangélica, graças à qual os homens são salvos das águas da morte, e introduzidos na verdadeira vida (cf. Tract. XVI, 3: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/2, p. 106).

Desde o ponto de vista do bom pastor, em um período difícil como o seu, flagelado pelos saques dos bárbaros, sabe pôr-se sempre ao lado dos fiéis para alentar-lhes e para abrir seu espírito à confiança em Deus, que nunca abandona a seus filhos.

Recolhemos, no final, como conclusão destas reflexões, uma exortação de Cromácio que ainda hoje continua sendo válida: «Invoquemos o Senhor com todo o coração e com toda a fé – recomenda o bispo de Aquiléia em um Sermão; peçamos-lhe que nos liberte de toda incursão dos inimigos, de todo temor dos adversários. Que não leve em conta nossos méritos, mas sua misericórdia. Que nos proteja com seu acostumado amor misericordioso, e que atue através de nós o que disse São Moisés aos filhos de Israel: ‘O Senhor lutará em vossa defesa e vós ficareis em silêncio’. Quem luta é Ele e é Ele quem vence…E para que se digne fazê-lo, temos de rezar tudo o que for possível. Ele mesmo diz pelos lábios do profeta: ‘Invoca-me no dia da tribulação; eu te libertarei e tu me glorificarás’ (Sermo XVI, 4: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/1, pp. 100-102).

Deste modo, precisamente no início do Advento, São Cromácio nos recorda que o Advento é tempo de oração, no qual é necessário entrar em contato com Deus. Deus nos conhece, Ele me conhece, conhece cada um de nós, Ele me ama, não me abandona. Sigamos adiante com esta confiança no tempo litúrgico recém-começado.

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Santo Efrém da Síria

jul 12, 2008 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja, Santos da Igreja

Por Papa Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos:

Segundo uma opinião comum hoje, o cristianismo seria uma religião européia, que teria exportado a cultura deste continente a outros países. Mas a realidade é muito mais complexa, pois a raiz da religião cristã se encontra no Antigo Testamento e, portanto, em Jerusalém e no mundo semítico. O cristianismo se alimenta sempre desta raiz do Antigo Testamento. Sua expansão nos primeiros séculos aconteceu tanto para o Ocidente como para o mundo greco-latino, onde depois inspirou a cultura Européia, como para o Oriente, até a Pérsia, Índia, ajudando deste modo a suscitar uma cultura específica, com línguas semíticas, e com uma identidade própria.

Para mostrar esta multiformidade cultural da única fé cristã dos inícios, na catequese da quarta-feira passada falei de um representante deste outro cristianismo, Afraates o sábio persa, para nós quase desconhecido. Nesta mesma linha, quero falar hoje de Santo Efrém o sírio, nascido em Nisibis em torno do ano 306, no seio de uma família cristã.

Foi o representante mais importante do cristianismo no idioma sírio e conseguiu conciliar de maneira única a vocação de teólogo com a de poeta. Formou-se e cresceu junto a Tiago, bispo de Nisibis (303-338), e junto a ele fundou a escola teológica de sua cidade. Ordenado diácono, viveu intensamente a vida da comunidade local até o ano 363, no qual Nisibis caiu nas mãos dos persas. Então Efrém imigrou para Edesa, onde continuou pregando. Morreu nesta cidade no ano 373, ao ser contagiado de peste em sua obra de atenção aos enfermos.

Não se sabe realmente se ele era monge, mas em todo caso é certo que decidiu continuar sendo diácono durante toda a sua vida, abraçando a virgindade e a pobreza. Deste modo, no caráter específico de sua cultura, pode-se ver a comum e fundamental identidade cristã: a fé, a esperança – essa esperança que permite viver pobre e casto neste mundo, pondo toda expectativa no Senhor – e por último a caridade, até oferecer o dom de si mesmo no cuidado dos enfermos de peste.

Santo Efrém nos deixou uma grande herança teológica: sua considerável produção pode reagrupar-se em quatro categorias: obras escritas em prosa (suas obras polêmicas e os comentários bíblicos); obras em prosa poética; homilias em verso; e por último, os hinos, sem dúvida a obra mais ampla de Efrém. É um autor prolífico e interessante em muitos aspectos, mas sobretudo desde o ponto de vista teológico.

O caráter específico de seu trabalho consiste em unir teologia e poesia. Ao aproximar-nos de sua doutrina, temos de insistir desde o início nisso: ele faz teologia de forma poética. A poesia lhe permite aprofundar na reflexão teológica através de paradoxos e imagens. Ao mesmo tempo, sua teologia se torna liturgia, se torna música: de fato, era um grande compositor, um músico. Teologia, reflexão sobre a fé, poesia, canto, louvor a Deus, estão unidos; e precisamente por este caráter litúrgico, aparece com nitidez na teologia de Efrém a verdade divina. Na busca de Deus, ao fazer teologia, segue o caminho do paradoxo e do símbolo. Privilegia as imagens opostas, pois lhe servem para sublinhar o mistério de Deus.

Agora não posso falar muito dele, em parte porque é difícil traduzir a poesia, mas para dar ao menos uma idéia de sua teologia poética, quero citar passagens de dois hinos. Antes de tudo, e frente também ao próximo Advento, eu vos proponho umas esplêndidas imagens tomadas dos hinos «Sobre a natividade de Cristo». Diante de Nossa Senhora, Efrém manifesta com inspiração sua maravilha:

«O Senhor veio a ela
para tornar-se servo.
O Verbo veio a ela
para calar em seu seio.
O raio veio a ela
para não fazer ruído.
O pastor veio a ela,
e nasceu o Cordeiro, que chora docemente.
O seio de Maria
trocou os papéis:
quem criou tudo
apoderou-se dele, mas na pobreza.
O Altíssimo veio a ela (Maria),
mas entrou humildemente.
O esplendor veio a ela,
mas vestido com roupas humildes.
Quem tudo dá
experimentou a fome.
Quem dá de beber a todos
sofreu a sede.
Saiu dela nu,
quem tudo reveste (de beleza)» (Himno «De Nativitate» 11, 6-8)
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